sexta-feira, 8 de abril de 2022

'O Brasil perdeu a graça', segundo Dagomir Marquezi

 

Foto: Shutterstock


Já fomos uma potência do humor. Hoje estamos afundados no baixo-astral


A piada mais antiga na minha memória foi contada pelo meu tio Flávio quando eu tinha uns 10 anos de idade. “Um homem racista mandou seu filho para a escola. O menino voltou todo feliz: ‘Arrumei um amiguinho novo!’. ‘De que raça é seu novo amigo?’, perguntou o pai, ressabiado. ‘Eu nem percebi’, respondeu o filho. ‘Amanhã eu reparo melhor e te conto’.”

Não é uma piada muito engraçada, mas jamais saiu da minha cabeça. Foi através dela que eu estabeleci meu princípio de vida com relação ao racismo. Aquele menino virou meu modelo de comportamento. E sou grato ao meu tio Flavio até hoje por isso. 

Com toda sua aparente simplicidade, a piada segue as regras mais básicas do humor. Parte de uma situação comum, desenvolve um conflito, detona uma surpresa e se resolve com nossa risada.

Rir é uma das melhores atividades humanas. Reuniões sociais costumam gerar muitas risadas, pois é provocando a risada do outro que atestamos que somos aceitos e admirados no grupo. Rir é um santo remédio, e não é à toa que “desopilamos o fígado” com uma boa gargalhada. A risada é um docinho que damos ao cérebro. Um alívio, um orgasmo emocional.

O Brasil era um país riquíssimo em humor. Humoristas eram astros de programas inesquecíveis no horário nobre. Com eles, a gente ria de nós mesmos. A comédia e o farto senso de humor, mesmo nas piores situações, faziam do brasileiro um privilegiado. Infelizmente, parece que as circunstâncias fizeram com que esse tesouro nos fosse tirado.


Estátua de Aristóteles | Foto: Gerd Eichmann/ Wikimedia

O primeiro teórico da comédia foi Aristóteles. Segundo a Enciclopédia Britânica, o filósofo grego do século 4 a.C. dizia que a comédia era uma atividade social e corretiva. “O propósito do artista cômico é erguer um espelho em que a sociedade possa refletir suas loucuras e vícios, na esperança de que, como resultado, sejam consertados.” 

Aristóteles ligava etmologicamente a comédia aos rituais dionisíacos, movidos a comida, bebida e sexo. Como o sexo, a comédia celebra o prazer, a energia criativa, a vitalidade física e as delícias da vida. Sigmund Freud concluiu que o riso está ligado a ações “imoderadas e inadequadas”, que provocariam uma “sensação prazerosa de superioridade”. A comédia serve como elemento de união entre pessoas diferentes. Desarma os espíritos num clima de camaradagem. Quando uma plateia inteira ri de uma piada, está estabelecendo um ponto de união e cumplicidade entre desconhecidos.

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O Brasil teve grandes cômicos em todas as artes. Nosso cinema já foi leve e espirituoso. Programas de rádio (como o célebre PRK-30) lotavam auditórios. A comédia rasgada atraía pessoas comuns para o teatro. Mas foi na televisão que a comédia brasileira explodiu em criatividade. Um programa básico como A Praça da Alegria, (depois A Praça É Nossa), em idas e vindas, já está no ar desde 1956. Foi na TV que personagens surgiram e se tornaram por décadas referência para a população por meio da repetição permanente de gestos e bordões.

Como a Velha Surda (Rony Rios), trocando nomes e irritando com seus berros. Ou o Sinfronio (Walter D’Ávila), que não entendia os títulos de livros que lia.

E havia o Clementino, o faxineiro tímido paquerado por mulheres belíssimas, mas que não se sentia seguro com o avanço delas. “Ah, se ela me desse bola.” Dona Catifunda, com seu charuto e jeito de homem. E o grande Zé Bonitinho (Jorge Loredo), o perigote das mulheres, de topete gigante e ego maior ainda:

Esses personagens viraram parte do folclore pop brasileiro em quadros simples e populares, que hoje seriam julgados como preconceituosos e de péssimo gosto. Alguns programas se tornaram clássicos, como a sitcom A Família Trappo, enorme sucesso da TV Record, com Ronald Golias, Otelo Zeloni, Ricardo Corte Real, Jô Soares, Renata Fronzi e Cidinha Campos. Infelizmente, apenas um episódio sobreviveu. Bronco ensina Pelé a bater pênalti, num momento clássico da comédia brasileira:

Havia os gênios. Nenhum tão grande quanto Chico Anysio, que criou mais de 200 personagens em 64 anos de carreira. Sua coleção de tipos era uma enciclopédia do povo brasileiro. Zé Tamborim, o sambista. Coalhada, o jogador de futebol. Justo Veríssimo, o deputado corrupto (“Quero que o povo se exploda!”). Nazareno, o funcionário público que tratava a mulher como um lixo (“Ca-la-da!”). Bozó, o funcionário da Rede Globo. Alberto Roberto, o ator de novelas (“Não ga-ra-vo!”). Roberval Taylor, o radialista. Qüen-Qüen, o garçom. Neyde Taubaté, a apresentadora de telejornal. Zé da Silva, o detetive. 

Chico Anysio fazia até o que se tornou impossível hoje em dia na TV brasileira: gozar de um personagem esquerdista, o garoto mimado Washington. Quase quatro décadas depois, Washington parece cada vez mais atual:

O Brasil já teve um humor sofisticado, inteligente e certeiro, com grandes nomes, como Renato Corte Real e Jô Soares. Este quadro era montado a partir de frases interrompidas por goles em seus respectivos drinques, gerando um constante mal-entendido:

Tinha mais: Durval de Souza, Emma D’Ávila, Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Os Trapalhões, Brandão Filho, Zé Trindade, Rony Cócegas, Zilda Cardoso, Paulo Silvino, Agildo Ribeiro. Vários deles se reuniram na Escolinha do Professor Raimundo, comandada por Chico Anysio, e que permanece até hoje como a principal atração do Canal Viva. 

Na Escolinha, praticava-se o humorismo de repetição. Todo mundo sabia exatamente o que iria acontecer até o fim de cada sketch. O que a gente não sabia era como iria acontecer, as pequenas variações na rotina que atiçavam a curiosidade e a vontade de rir. Era o caso do adulador Rolando “Amado Mestre” Lero (Rogério Cardoso). A qualidade de um texto como este foi extinta na comédia brasileira:

Vamos então nos entregar à nostalgia? O tempo bom não volta mais, como cantava Lilico com seu bumbo? Depois dessa era “clássica”, alguma coisa boa aconteceu. Como Os Trapalhões e a sitcom A Grande Família, o Casseta e Planeta e o humor thrash de Hermes e Renato

Mas a cada nova geração, esse talento do brasileiro para fazer rir foi se perdendo. Pense que durante 16 anos o rasteiro Zorra Total foi o principal programa de humor do Brasil. E o que temos hoje, com raras exceções, é de chorar. Tente os humorísticos do canal Multishow ou os programas brasileiros de stand up do Comedy Central. Alguma coisa morreu em nós

Hoje, um cara como Tom Cavalcante ainda mantém um humor com bases mais sólidas, digno. Marcelo Adnet surgiu como uma promessa real, mas logo foi devorado pela máquina de doutrinação e fanatismo político da Rede Globo. Isso mata qualquer talento.

Não se vê humor de qualidade em quase nenhum lugar do território nacional. Na imprensa, por exemplo, chargistas foram substituídos por militantes que representam o presidente Jair Bolsonaro com suásticas e outros símbolos nazistas. E acham isso superengraçado. (E vamos ser justos: chargistas “de direita” não fazem nada muito melhor que isso. A crise é geral.)

Humor no Brasil hoje tem agenda partidária. Não ergue mais um espelho para a sociedade refletindo suas loucuras e seus vícios. O grupo Porta dos Fundos, desbravador do humor via internet, agora se dedica a ofender símbolos religiosos em nome da chamada agenda progressista. Uma nulidade como Gregório Duvivier ganha um programa só para ele na HBO. Seu maior talento é ser simpatizante do Psol, e algum diretor da HBO Brasil acha isso o máximo.

E tem a tesoura castradora do politicamente correto atuando para destruir qualquer esperança de melhora. A História mostra quanto seu autoritarismo é nefasto e inútil.

Na década de 1960, um humorista negro chamado Chocolate fazia piadas preconceituosas contra os próprios negros. Nunca foi muito engraçado. Mas nenhuma ONG o processou por isso, e não existia cancelamento na época. Naturalmente Chocolate foi sumindo dos programas, e hoje não é encontrado nem nas relíquias do YouTube. A mão invisível do mercado o tirou de cena.

Costinha cansou de participar da Escolinha do Professor Raimundo, mordendo a língua, rebolando, estalando os dedos e dizendo que ia contar uma piada sobre “duas bichinhas”. Provavelmente muitos homossexuais devem rir dele até hoje nas reprises do Canal Viva. Simplesmente porque Costinha é engraçado. Simples assim. Orlando Drummond fez do Seu Peru uma caricatura que nunca despertou patrulha nenhuma, pela mesma razão: tinha graça.

Assim como nenhum macho se sentiu ofendido com o quadro do Zeca Bordoada (Guilherme Karan) na TV Pirata. Como Seu Peru, Bordoada era uma caricatura, um estereótipo criado para provocar riso. 

O humor floresce na liberdade, no amadurecimento provocado quando nos permitimos rir de nós mesmos. Uma sociedade se recupera de crises econômicas, desastres naturais e governantes corruptos. Mas não sei como escaparemos desse período de mau humor, quando uma simples anedota pode virar um processo criminal. Não sei se um dia voltaremos a rir com vontade das nossas vidas, de bichinhas, machões, velhas surdas, títulos de livros e outros fatos do dia a dia.

O que sei é que, se meu tio Flávio contasse aquela velha piada hoje, ela teria grande diferença. O menino diria: “Arrumei um amiguinho novo!”. E o pai ressabiado perguntaria: “É de esquerda ou de direita?”.

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Revista Oeste