quarta-feira, 8 de agosto de 2018

"Idas e vindas", editorial da Folha de São Paulo

Torna-se difícil acompanhar a batalha jurídica travada pelo PT desde que a sigla decidiu desafiar as barreiras impostas pela legislação eleitoral à candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Na segunda (6), os advogados do líder petista, que está preso em Curitiba, retiraram do Supremo Tribunal Federal um pedido de solturaque estava prestes a ser julgado.
A medida não foi tomada porque Lula, subitamente, tivesse se conformado com sua situação e abandonado os esforços para recuperar a liberdade —mas porque seus defensores perceberam que corriam riscos no plenário do tribunal.
Relator do processo na corte, o ministro Edson Fachin pediu que o caso fosse incluído logo na pauta e sugeriu que, além do encarceramento, fosse analisada a questão de sua elegibilidade.
Lei da Ficha Limpa impede que condenados por um colegiado disputem eleições. O ex-presidente se encontra nessa situação desde janeiro, quando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região confirmou a sentença que o puniu por corrupção e lavagem de dinheiro.
Do modo como as coisas estavam encaminhadas no Supremo, havia a possibilidade de Lula ser declarado inelegível pela mais alta corte do país antes mesmo que o PT registrasse sua candidatura no Tribunal Superior Eleitoral, contrariando o plano da legenda.
Ao ignorar a Lei da Ficha Limpa e insistir na postulação de Lula, ao mesmo tempo em que recorre contra a sentença do TRF-4, o partido adotou como objetivo esticar até o limite a corda de seu enfrentamento com os tribunais.
Entretanto já há dúvidas entre os petistas quanto à eficácia da estratégia, como noticiou a Folha.
Com o ex-prefeito Fernando Haddad indicado vice da chapa e a deputada Manuela D’Ávila (PC do B-RS) no banco de reservas, acabou o mistério sobre quem será o candidato no dia em que a Justiça rejeitar a indicação de Lula.
Os correligionários apostam que o prolongamento da indefinição aumentará o poder de transferência do prestígio de Lula para Haddad. Quanto mais evidente fica que o intento do PT é esse, menos críveis serão suas ações nos tribunais.
Por ora, o efeito mais visível dessa pantomima esdrúxula é manter a sigla fora dos debates eleitorais, com prejuízo para os votantes.