domingo, 6 de novembro de 2016

"Votação histórica decidirá futuro dos EUA... e do mundo, editorial de O Globo

Americanos escolhem na terça-feira o sucessor de Barack Obama, após uma campanha eleitoral que ficará registrada como a de nível mais baixo da história do país

Na terça-feira, os eleitores americanos escolherão o sucessor de Barack Obama na Casa Branca, numa votação em muitos aspectos histórica e que terá impacto bem além das fronteiras do país. Com Hillary Clinton, pelos democratas, e Donald Trump, pelo lado republicano, a campanha eleitoral deste ano foi de longe a de mais baixo nível da história do país, muitas vezes evocando briga de rua, devido sobretudo ao temperamento histriônico do magnata do setor imobiliário, que se apresentou como um candidato “independente” do sistema político.

Com a desculpa de que representava algo novo em relação aos políticos profissionais de Washington — incluídos aí os próprios republicanos —, Trump agiu de fato como um outsider, quebrando o protocolo e a etiqueta de uma cultura política que remonta aos tempos de Lincoln. Suas gafes xenófobas, misóginas e racistas, não raras vezes ultrapassando os limites do insulto moral, ao mesmo tempo que chocavam a opinião pública, também reforçavam em seus eleitores — na maioria, homens brancos de baixa escolaridade, muitos deles atingidos pela crise financeira de 2008 — a imagem de um líder indiferente ao jogo político.

Desde as primárias, Trump derrotou um a um seus rivais republicanos, construindo em torno de si a imagem de um “salvador da pátria”, capaz de devolver a grandeza perdida aos EUA. Mas, na disputa contra Hillary, a proximidade do pleito impôs ao eleitorado uma incontornável consideração da realidade, sobretudo diante da abissal diferença de programas de governo entre os dois oponentes. Sem propostas viáveis, Trump continuou navegando pelo mundo onírico das promessas impossíveis e elevou a virulência dos ataques à rival.

Além de prometer a construção de um muro na fronteira com o México, expulsar imigrantes ilegais e impedir a entrada de muçulmanos no país, Trump partiu para o ataque mais vulgar, prometendo prender a rival. Bravatas de botequim, que não encontram respaldo na realidade.

Trump também gerou incertezas entre aliados políticos e parceiros comerciais históricos dos EUA. Muitos temem que sua vitória signifique um mergulho numa era de incertezas geopolítica e econômica. Mas o republicano também tem defensores, sobretudo em regimes de vocação autoritária, nacionalismos populistas e pretensões imperiais como Turquia, entre outros. O russo Vladimir Putin, numa aposta perigosa cujas consequências ainda não foram estimadas, estimulou a ação de hackers contra Hillary para favorecer Trump.

Independentemente da qualidade do programa democrata e da experiência de Hillary no Executivo e Legislativo, o programa de Trump sucumbiu às próprias incoerências. Prova disso foram as deserções de importantes líderes republicanos, indicando que, seja qual for o resultado eleitoral, o partido terá que ser reconstruído.