domingo, 6 de novembro de 2016

Símbolo da era de ouro de Hollywood, Kirk Douglas faz 100 anos em dezembro

Mário Abbade - O Globo

Célebre por personagens como Spartacus, ator e produtor lança livro e comenta bastidores do cinema

Kirk Douglas faz 100 anos em dezembro - Screen Prod/afp


Um dos maiores astros da história do cinema, Kirk Douglas completa 100 anos no dia 9 de dezembro. Símbolo da era de ouro de Hollywood, célebre por personagens como o gladiador Spartacus, ele personificou o sonho americano que os EUA gostam de levar à tela: filho de imigrantes judeus russos e pobres, que atravessaram o oceano em busca de uma vida melhor, consagrou-se como ator, tornou-se produtor, fez fama e fortuna. Em 1991, sofreu um acidente de helicóptero que deixou grande parte de seu corpo queimada e quase lhe tirou a vida. Há 20 anos, teve um AVC que prejudicou sua fala. Ainda assim, mantém uma atividade literária invejável e vai lançar seu 12º livro em abril: “Kirk and Anne: a Hollywood life”, sobre as mais de seis décadas de seu casamento de cinema com a atriz Anne Buydens, de 97 anos. Em entrevista ao GLOBO, por e-mail, o astro, que ganhou um Oscar pelo conjunto de sua obra em 1996 e está distante das telas desde 2004, quando atuou em “Illusion”, revela bastidores de seus filmes, fala da perda de um filho por overdose, conta sua maior frustração profissional e evita comentar a eleição americana, na próxima terça-feira. Mas afirma: “Sempre fui membro do Partido Democrata”.

Se pudesse voltar no tempo, o que mudaria?
Não teria feito minhas cenas de machão sem dublê. Por causa disso, tenho um problema grave na coluna e meus joelhos são próteses.

O que despertou seu fascínio pelo cinema?
O cowboy Tom Mix. E minha primeira carta como fã foi para o ator Charles Laughton, por seu desempenho no “Corcunda de Notre Dame” (1939). Ele nunca me respondeu e fiquei magoado, mas, quando o conheci, quando estávamos fazendo “Spartacus” (1960) juntos, descobri que ele era muito inseguro e não sabia lidar com fãs.

Que América o senhor quis representar?

A morte do cowboy individualista, com uma urbanização de seu mundo, como em “Sua última façanha” (1962). É o meu filme favorito e gostaria de ser lembrado por ele.

O senhor lutou contra o macarthismo ao contratar o roteirista Dalton Trumbo para escrever o script de “Spartacus”. O que o motivou?
Foi uma época vergonhosa, especialmente porque éramos todos uns hipócritas. Contratávamos os profissionais que estavam na lista negra e usávamos o talento deles pagando salários menores. Eu já queria Dalton para “Sua última façanha”, mas pedi para escrever “Spartacus” primeiro. “Spartacus” foi muito perseguido pela colunista Hedda Hopper e pela Legião Americana por termos usado o livro de Howard Fast, um comunista, e pelo roteiro de Dalton, que estava na lista negra por ser comunista.

O senhor foi um dos primeiros atores a romper com o sistema dos estúdios e criar sua própria produtora. Por quê?
Fui um dos primeiros porque não queria ser refém dos estúdios. Além de decidir o que gostaria de fazer, ganhava muito mais dinheiro. Em “Sem lei e sem alma”, o nome do Burt Lancaster era o primeiro, mas ganhei o dobro do salário dele, porque Burt tinha contrato com o estúdio, e eu não. Interessante que fiz sete filmes com ele, e as pessoas acham que éramos superamigos. Não tínhamos uma relação de amizade fora do ciclo de trabalho. Nos respeitávamos, mas nunca fomos grandes amigos. E a gente até competia bastante. Num outro exemplo, fiz quatro filmes com o John Wayne, e a gente discutia política o tempo todo. Mas sinto falta deles todos.

O senhor trabalhou com cineastas importantes, como Stanley Kubrick, Vincente Minnelli, Billy Wilder, Michael Curtiz e Robert Aldrich. Qual o seu favorito e por quê?
Não tenho um preferido. Todos tinham as suas qualidades.

O senhor sempre foi um produtor que ficava no pé dos diretores. Dizem que até brigou para ter Kubrick como diretor, depois de demitir Anthony Mann da função, mas também dizem que ele só aceitou fazer “Spartacus” para se livrar do contrato que tinha com sua produtora, tanto que Kubrick renegou o filme por não ter total controle artístico sobre ele.
Eu assisti a “O grande golpe” e achei interessante. Liguei para o diretor, que era o Kubrick, que me ofereceu “Glória feita de sangue”. Adorei o roteiro. Quando nos encontramos, ele tinha rescrito tudo para ficar mais comercial. Insisti para fazermos a primeira versão. Ele estava certo, o filme não foi bem, mas a crítica adorou. Kubrick tinha um talento supremo, mas era um cara muito difícil. Tudo tinha que ser do jeito dele, e mudava as coisas a todo momento. Em “Spartacus”, a cena que ficou mais famosa é aquela em que todos gritam “Eu sou Spartacus”, e Kubrick detestava, mas teve que filmar, já que eu era o produtor e assinava os cheques.

O senhor dirigiu dois filmes, por que não continuou?
Acredito que fui bom ator e produtor, já que tive sucesso em ambas as funções por um longo tempo. Na direção, fiz dois filmes (“As aventuras de um velhaco”, em 1973, e “Ambição acima da lei”, em 1975) que não foram bem e achei melhor não continuar. É importante não deixar a vaidade atrapalhar as decisões. Tenho muito respeito por atores como o Clint Eastwood, que teve sucesso como diretor.

Antes, trabalhar na TV era menor do que no cinema. Atualmente, a TV americana está bem mais interessante. O que pensa disso?
Tendo qualidade, não importa se é TV ou cinema. Só que, como a TV tem menos custo e atinge muito mais pessoas, têm aparecido ótimos trabalhos, como o recente “Liberace” que rendeu vários prêmios ao meu filho Michael (Douglas). E, apesar de o filme ter sido apresentado na TV nos EUA, foi lançado nos cinema na Europa.

Qual foi a maior decepção de sua carreira?
Eu fiz “Um estranho no ninho” na Broadway e sempre quis levar esse projeto para o cinema e não consegui. Foi uma das maiores decepções da minha vida. Meu filho Michael me pediu o projeto e conseguiu torná-lo realidade. Foi o produtor do filme. E achei que ele me daria o papel, que acabou ficando com o jovem Jack Nicholson. Na época achei que não era uma boa escolha. O diretor Milos Forman disse que eu estava velho para o papel. Queria muito ter feito o personagem, mas Jack fez um ótimo trabalho. O filme ganhou cinco Oscars: filme, direção, roteiro, ator e atriz. Eles realmente estavam certos, e fiquei muito orgulhoso do Michael.

Como é a sua relação com Michael e os outros filhos?
Michael e Joel são filhos do meu primeiro casamento, que não durou muito. Eu chegava a fazer três filmes por ano e nunca estava em casa. Fui um pai ausente. Joel se tornou produtor. Michael ganhou dois Oscars (produtor e ator) antes de mim. Só ganhei pelo reconhecimento da minha obra cinematográfica. No meu segundo casamento tive mais dois filhos: Peter e Eric. Eu estava muito mais presente, mas acabei perdendo o mais novo, Eric, de overdose, em 2004. Ele era um comediante de stand up tentando encontrar seu lugar no mundo. Infelizmente não aguentou a pressão de ter pai e irmão famosos e bem-sucedidos.

Que tipo de cinema fascina seu olhar hoje?
Não vou mais ao cinema, só vejo o que o Michael faz. E tem um fato curioso: fui convidado para fazer o Coronel Trautman, amigo do Rambo, no primeiro filme. Sugeri que meu personagem matasse o Rambo no final, não concordaram, acabei desistindo. E quase evitei que o (Sylvester) Stallone faturasse milhões com todas aquelas sequências. Já me encontrei com ele e rimos muito disso.

Votaria em Hillary Cliton ou Donald Trump?
Não quero opinar sobre esta eleição, não tenho mais idade para polêmicas, mas eu sempre fui membro do Partido Democrata.