
“Nunca antes na História” é um prólogo batido, que oscila entre o cinzento óbvio (todos os eventos são singulares, afinal) e a simples ignorância (de certo modo, há precedentes para quase tudo). Feita a ressalva, a disputa entre Hillary Clinton e Donald Trump será lembrada como um momento especial na experiência política americana, por uma série de fortes motivos.
1. Hillary e Trump contrastam mais nitidamente que a maioria dos candidatos democratas e republicanos do passado — menos nas elevadas taxas de rejeição que os acompanham como sombras funestas. Dias atrás, uma pesquisa indicou empate nesse quesito: 59% de rejeição para ambos. Os americanos vão às urnas para dizer, essencialmente, quem não querem. É um sintoma da extensão da crise política na mais poderosa democracia do mundo.
2. Trump é o perfeito outsider, a encarnação de uma revolta contra o sistema; Hillary é a personificação da ordem política americana. Trump, um ex-simpatizante democrata, varreu os republicanos moderados, como Jeb Bush e Marco Rubio, nas primárias de seu partido. Mas a insurgência manifestou-se também nas primárias democratas, pela candidatura de Bernie Sanders, um autodenominado socialista, antigo senador independente que encurralou Hillary apossando-se do eleitorado jovem tão importante na ascensão de Barack Obama à Casa Branca. Pela direita e pela esquerda, os dois populistas outsiders expressaram a crise do sistema bipartidário.
3. O populismo é um fenômeno antigo na política americana, mas a tóxica mistura de nacionalismo, nativismo, isolacionismo e protecionismo representada por Trump não tem precedentes. Sua candidatura ampara-se nos perdedores da globalização e da revolução tecnológica: uma vasta seção do eleitorado formada por brancos de classe média-baixa, sem diploma universitário, que experimentaram erosão real de renda ao longo das últimas duas décadas. O magnata batizou-se “Mr. Brexit” — e, de fato, sua base eleitoral assemelha-se à que produziu o triunfo do Brexit, no Reino Unido, e à que impulsiona a Frente Nacional, de extrema-direita, na França. A crise política tem raízes numa cisão social profunda.
4. Nunca antes se registrou tamanha defasagem entre voto masculino e feminino. No início de outubro, após as revelações sobre as atitudes de Trump diante das mulheres que levaram o analista republicano conservador John Podhoretz a caracterizá-lo como um “sociopata misógino”, sondagens eleitorais mostraram um abismo de 20 pontos percentuais. Trump tinha vantagem de 5 pontos entre os homens, mas perdia por 15 entre as mulheres. A margem favorável ao republicano no eleitorado masculino não surpreende, pois praticamente reproduz o que aconteceu nas últimas eleições. Por outro lado, a distância aberta por Hillary entre as mulheres é inédita — e explica-se muito mais pela aversão a Trump que por um hipotético entusiasmo com a perspectiva dessa específica “primeira mulher” na Casa Branca.
5. O patriarcalismo e o sexismo pontuaram a campanha, como um discurso oculto que ajuda a explicar a rejeição a Hillary. Políticos, como regra, são ambiciosos e, às vezes, cínicos e egoístas. Mas tais atributos apareceram muito mais associados a Hillary que a Trump nas pesquisas de opinião pública, como se houvesse algo de especialmente inapropriado na candidatura de uma poderosa, assertiva ex-primeira-dama. A campanha de Trump jogou alegremente com sentimentos difusos, subterrâneos, distribuindo camisetas com a inscrição “Trump that bitch” (algo como “engane essa cadela”) e reencaminhando um tuíte anônimo contendo a indagação: “se Hillary não satisfaz seu marido, o que a faz pensar que pode satisfazer os EUA?”.
6. Pela primeira vez na História americana, um candidato de um dos grandes partidos adulou o líder de uma potência estrangeira hostil. Os elogios sistemáticos de Trump a Vladimir Putin (“um líder forte, poderoso”, “meu brilhante amigo”) somaram-se à condescendência do republicano diante da agressão russa à Ucrânia e à operação militar de apoio à sanguinária ditadura síria. Divertido, Obama definiu o fenômeno como bromance — isto é, uma íntima relação platônica entre dois homens.
7. Fato igualmente inédito, a Rússia engajou-se em operações de guerra cibernética destinadas a influenciar o eleitorado americano. Tudo indica que agências de inteligência russas invadiram servidores da campanha democrata e repassaram ao Wikileaks mensagens internas do chefe de campanha, John Podesta, a fim de produzir constrangimentos públicos a Hillary. Essa versão pós-moderna de guerra fria evidencia que o “brilhante amigo” de Trump tem nítidas preferências na disputa pela Casa Branca. Mais que bromance, trata-se de geopolítica.
8. A vitória final de Hillary seria o produto de dois acasos sucessivos. Nas primárias, enfrentou um outsider esquerdista; nas eleições gerais, um outsider direitista. Se ela pousar no Salão Oval, apesar das aversões justificáveis e abomináveis de que é alvo, terá sido transportada pelas asas da fortuna. “Nunca antes”, etc. e tal.