Ana Paula Ribeiro - O Globo
Em meio à incerteza sobre a sucessão presidencial, os mercados brasileiros operam com maior aversão ao risco, o que causa a desvalorização dos ativos locais. A queda se intensificou no início da tarde, na contramão do mercado internacional, quando ganhou força o boato de que as pesquisas eleitorais que seriam divulgadas após o fechamento da Bolsa mostrariam a candidata do PT à reeleição, Dilma Rousseff, com uma vantagem maior na pesquisa de intenção de voto. O dólar comercial fechou em alta de 1,29%, a R$ 2,510 na compra e a R$ 2,512 na venda. É a primeira vez que o dólar fecha na casa dos R$ 2,50 desde dezembro de 2008. Já o Ibovespa, principal índice do mercado acionário local, fechou em queda de 3,24%, aos 50.713 pontos. No ano, a Bolsa passou a acumular recuo de 1,50%.
Na máxima do pregão, o dólar chegou a R$ 2,517, patamar ao que era registrado no início de dezembro de 2008, quando os mercados sofriam os efeitos da crise global internacional.
A última vez que a moeda americana fechou acima de R$ 2,50 foi em 4 de dezembro daquele ano, quando ao final do dia era cotada a R$ 2,536. Na avaliação de Ítalo Abucater, gerente de câmbio da corretora Icap do Brasil, a volatilidade irá marcar os negócios até sexta-feira, uma vez que as posições mudam de acordo com as expectativas de quem ganhará as eleições.
— Há uma sensibilidade muito grande em relação às pesquisas. É um movimento puramente de especulação, tanto para um lado como para outro. Quando se acredita que Dilma Rousseff (PT) será reeleita, o dólar sobe, quando as apostas são para o candidato do PSDB, Aécio Neves, a cotação cai. Teremos dias muito complicados e de alta volatilidade — explicou.
Abucater lembrou ainda que a maior parte do fluxo de negócios está relacionada ao segmento financeiro (fundos, bancos, investidores estrangeiros), com importadores e exportadores menos atuantes.
INVESTIDORES FAZEM AJUSTES À ESPERA DAS ELEIÇÕES
A expectativa é que na sexta-feira a volatilidade também seja grande, já que é o último dia para ajustes nas carteiras de investimento antes das eleições. Segundo um operador de uma corretora brasileira, o movimento nessa reta final dá a entender de que os profissionais do mercado já estão precificando uma vitória de Dilma Rousseff.
Além disso, a aceleração da queda na parte da tarde também pode ser atribuído aos mecanismos de “stop loss”. Nesse caso, o investidor determina um máximo de perdas para um ativo e, quando o preço chega a esse limite, são feitas vendas automáticas, para parar as perdas.
No ano, o Ibovespa está com perdas de 1,50%. Até quarta-feira, ainda acumulava ganhos.
No entanto, o entendimento é que, com o cenário de vitória da Dilma, ainda há espaço para novas quedas. Na mínima do ano, o Ibovespa chegou a 44.965 pontos, em março.
— O mundo não vai acabar após as eleições, independente de quem ganhar. E o estrangeiro não deve tirar o dinheiro daqui. Quem está causando essa queda é o grupo de investidores locais — afirmou, lembrando que são as corretoras que tradicionalmente operam com mais investidores estrangeiros, geralmente ligadas a bancos globais, que estão liderando as compras nos últimos pregões.
Segundo dados da BM&F Bovespa, no acumulado do mês até o dia 21, esse grupo de investidores retirou R$ 1,175 bilhão da Bolsa, ante um saldo positivo de R$ 4,225 bilhões em setembro. No ano, segundo operadores, essa saída no mês de outubro está atrelada a um forte movimento de venda ocorrido no dia 6, logo após o primeiro turno. Nos últimos pregões, com os preços mais baixos, esses estrangeiros voltaram às compras. No ano, o valor acumulado está positivo em R$ 21,854 bilhões.
Na avaliação do gerente de renda variável da corretora H.Commcor, Ari Santos, a instabilidade deve-se ao movimento dos investidores em ajustar as posições de acordo com as expectativas eleitorais. Isso faz com a maior volatilidade esteja nas ações do kit eleições, formada por estatais e bancos. No mercado de câmbio, o dólar se valoriza como uma forma de proteção pelos investidores.
— A Bolsa já abriu em forte queda e o dólar subindo. Está todo mundo ajustando as posições. São apostas para segunda-feira, enquanto novas pesquisas não são divulgadas — afirmou.
Os papéis preferenciais (sem direito a voto) da Petrobras registraram queda de 7,22% e os ordinários (com direito a voto) recuaram 6,23%. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), xerife do mercado financeiro brasileiro, exigiu que a Petrobras remeta à autarquia o relatório final de sua investigação interna sobre as denúncias surgidas na Operação Lava-Jato, da Polícia Federal.
No caso do Banco do Brasil, a queda foi de 9,10%. Itaú e Bradesco também registraram fortes recuos de, respectivamente, 4,52% e 6,01%. No caso da Eletrobras, a queda também é significativa, de 4,63% nas preferenciais e de 6,71% nas ordinárias.
Nem mesmo a alta nos papéis da Vale, que anunciou nível de produção recorde, foi capaz de minimizar o movimento de queda do Ibovespa. Os papéis preferenciais da mineradora subiram 1,89% e os ordinários avançaram 1,83%. Já as ações de empresas exportadoras, que se beneficiam da alta do dólar, operaram em alta. Usiminas avançou 3,66%, Fibria teve alta de 6,55% e as ações da CSN subiram 4,94%.
EXTERIOR OPERA EM ALTA
Segundo analistas da Yiel Capital, há uma forte expectativa em relação às novas pesquisas eleitorais. O Ibope deve divulgar, após o fechamento do mercado, um novo levantamento sobre as intenções de voto para a Presidência da República. Essa tensão está se sobrepondo aos bons indicadores vindos do exterior. Na China, os dados sobre o setor industrial (PMI) vieram acima da expectativa, a 50,4 pontos, enquanto o esperado era 50,2 pontos.
No exterior, os principais indicadores operam em alta. O índice DAX, de Frankfurt, fechou em alta de 1,20% e o CAC 40, da Bolsa de Paris, avançou 1,28%. Já o FTSE 100, de Londres, subiu 0,30%. Nos Estados Unidos, o Dow Jones opera em alta de 1,37% e o S&P 500 avança 1,59%.