Rennan Setti - O Globo
Investidores reagem a discurso pró-diálogo de Dilma; real é a moeda que mais sobe entre 31 divisas
O dólar cai e a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) sobe nesta terça-feira, depois de a presidente Dilma Rousseff ter se mostrado disposta a dialogar com o empresariado e com o mercado financeiro em seu segundo mandato. Investidores também especulam sobre a nomeação de um ministro da Fazenda mais bem visto pelo mercado.
A moeda americana registra queda de 1,07% frente ao real, afastando-se das máximas desde 2008 e devolvendo boa parte da forte alta de segunda-feira. A divisa está cotada a R$ 2,494 para compra e a R$ 2,496 para venda. Depois de cair 2,77% e atingir a menor pontuação em seis meses, na sequência da reeleição de Dilma, a Bovespa tem um pregão de recuperação nesta terça-feira. Às 11h27m, o principal índice, o Ibovespa, subia 2,09%, aos 51.558 pontos.
- A alta de hoje é resultado de uma correção natural nos preços e, sobretudo, dos três nomes de possíveis ministros da Fazenda que estão sendo noticiados nos jornais, o (Luiz Carlos) Trabuco, do Bradesco, o Henrique Meirelles e o Nelson Barbosa. São bons nomes, pessoas que certamente negociariam autonomia para tocar a Fazenda e tomariam medidas opostas às que estão sendo tomadas hoje - afirmou Maurício Pedrosa, estrategista da Queluz Asset Management. - Mas o nome não é tudo, até porque a presidente não pareceu ontem ter muita pressa para anunciar o novo ministro.
Os analistas Cláudio Moura e Herzs Ferman, da corretora Elite, citaram a entrevista concedida por Dilma ontem à noite:
“A presidente deu entrevistas ontem ao Jornal Nacional e ao Jornal da Record onde afirmou que nesse governo vai se basear no diálogo. Dentre os setores que ela quer conversar está o financeiro. Quando foi questionada sobre a nova equipe econômica, respondeu que deve decidir antes do final do ano”
COM BAIXA DO DÓLAR, EXPORTADORAS SÃO AS QUE MAIS CAEM
Reportagem do jornal “Valor Econômico” afirma nesta terça-feira que o nome de Luiz Carlos Trabuco, presidente-executivo do Bradesco, é uma indicação do ex-presidente Lula para ocupar a pasta no lugar de Guido Mantega. Outros nomes sugeridos por Lula são Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central, e Nelson Barbosa, ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda. Dilma, porém, não deverá anunciar nomes nos próximos dias.
Depois de ter caído mais de 12% na véspera, a Petrobras registra valorização de 3,44% em suas ações ordinárias (ON, com direito a voto) e de 4,12% nas preferenciais (sem voto). O Banco do Brasil, que havia caído 5,24%, hoje 3,44%. O Bradesco sobe 4,04%, enquanto o Itaú Unibanco avança 3,65%. A Eletrobras, uma das empresas mais sensíveis ao cenário eleitoral, sobe 3,75%.
O recuo do dólar faz baixas entre as ações de companhias exportadoras. A maior queda do Ibovespa é da Fibria Celulose, de 3,63%, seguida pela Suzano papel e Celusose (-2,75%). Embraer e Klabin também estão entre as maiores quedas, de 1,8% e 1,88% respectivamente.
Diferentemente de segunda-feira, quando o real ocupou a lanterna ante o dólar considerando as 31 principais moedas do mundo, a divisa brasileira é a que mais sobe contra a americana hoje. O dólar australiano, segunda colocada, avançava 0,41%, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.
Na Europa, as ações sobem, com destaque para ações do setor de mineração. O índice de referência Euro Stoxx sobe 1,05%, enquanto a Bolsa de Londres avança 0,53%. A Bolsa de Paris registra alta 0,36%; Frankfurt valoriza-se em 1,35%. Em Wall Street, a situação é mista, com o índice Dow Jones subindo 0,45%, enquanto o S&P 500 cai 0,15%. A Nasdaq avança 0,57%.
Os investidores aguardam a divulgação de uma série de indicadores econômicos nos Estados Unidos nesta terça-feira, que podem balizar apostas sobre a decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) na quarta-feira. De modo geral, analistas esperam que o Fed adote um discurso ligeiramente mais ameno (pró-estímulos monetários), ao reiterar a promessa de juro baixo por um período prolongado.
Mas, por outro lado, é dado como praticamente certo que o BC americano anunciará o fim de seu programa de compra de ativos, o terceiro desde o estouro da crise financeira global, no fim de 2008.
PARA ANALISTAS, IBOVESPA PODE CAIR ATÉ 45 MIL PONTOS
Nas semanas que antecederam o segundo turno das eleições, os mercados financeiros no Brasil viveram uma verdadeira montanha russa, com alta volatilidade e oscilando conforme os rumores e a divulgação das pesquisas de intenção de voto.
O dólar chegou a bater em R$ 2,50, na semana passada, e as ações de empresas estatais foram as que mais se desvalorizaram. Operadores e analistas vinham mostrando insatisfação com as diretrizes econômicas do governo federal, avaliando que a reeleição de Dilma daria continuidade ao crescimento baixo, inflação elevada e intervenção relevante nas estatais.
Analistas acreditam que o Ibovespa tem espaço para cair até 45 mil pontos, enquanto a equipe econômica não for anunciada. Mas se os nomes resgatarem a confiança do mercado, o índice pode retornar a um patamar de equilíbrio em torno de 50 mil pontos. Para o dólar, a aposta é que a moeda americana pode atingir o patamar de R$ 2,60, nível só atingido em 2005, nos próximos dias. Mas se escolhida uma equipe econômica com "viés pró-mercado", a divisa pode voltar à faixa de R$ 2,45/R$2,50.