domingo, 31 de julho de 2016

Bolívar Lamounier: "Um breve exercício de cidadania"

O Estado de São Paulo


Embora timidamente, a reforma política parece estar retornando à agenda nacional. A questão de fundo permanece: não é a sociedade que diz aos congressistas como quer ser representada, eles é que dizem a ela como pretendem seguir se autorrepresentando. Ainda assim – ou exatamente por isso –, penso que seria útil a cidadania saudar o reaparecimento da questão enviando um breve exercício aos excelentíssimos senhores deputados e senadores.
Dou por inegável que a atual classe política rebaixou a vida partidária brasileira a um nível sem precedentes, mesmo pelos sabidamente frouxos padrões da nossa República.
Considere-se, por exemplo, a proliferação de siglas, que se acelerou na última eleição e parece fadada a fugir ao controle nas próximas. No momento, salvo melhor juízo, há 26 partidos representados na Câmara dos Deputados, 32 registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e outros 30, segundo consta, na fila, esperando por registro. Numa primeira aproximação, o número de siglas pode ser examinado sob duas diferentes perspectivas.
A teoria da representação proporcional recomenda um amplo pluralismo, pois se baseia no pressuposto de que as agremiações existem para dar voz a ideologias ou a interesses consistentes e preexistentes na sociedade. Além de antidemocrático, restringir-lhes o número seria disfuncional para o sistema político, pois implicaria alijar do Parlamento correntes de ideias e grupos importantes, dificultando, em vez de facilitar, o manejo dos conflitos que lavram continuamente na sociedade.
A segunda perspectiva não é necessariamente oposta à que venho de expor. Afirma que cada caso é um caso, podendo existir algum país onde as coisas se passem como foi mencionado, devendo-se, pois, aceitar a proliferação como um mal menor que a exclusão de interesses relevantes. Mas, como disse, cada caso é um caso.
No Brasil, decorridas três décadas do restabelecimento do regime civil, é forçoso reconhecer que o pluralismo partidário se transformou de fato na pilhéria prevista já ao tempo da Comissão Afonso Arinos, em 1985-1986, à qual coube a tarefa de elaborar um anteprojeto de Constituição. Neste ano da graça de 2016, todas ou quase todas as 32 siglas registradas se declaram de centro-esquerda; duas dúzias, pelo menos, são rechaçadas com o cabível sarcasmo pela maioria do eleitorado, que nelas não discerne um vestígio sequer de seriedade. Não foi por acaso que, desde 2013, a opinião pública optou por se manifestar na avenida; declarou que a praça é do povo como o céu é do condor. Engajando-se numa memorável onda de protestos, manteve todos os partidos a uma asséptica distância.
Esta é, pois, a situação: o Brasil chegou ao século 21 com um sistema político institucionalmente razoável, extremamente generoso, direi mesmo permissivo, no tocante à abrangência do sufrágio e às facilidades para a criação de partidos, mas deficiente, para não dizer fraudado e fraudulento, noutros aspectos cruciais do regime político que denominamos democracia representativa.
Acontece – e aqui retomo a segunda perspectiva – que nenhum regime político ou sistema de governo existe para lidar com apenas uma ou com umas poucas necessidades. Todos são multipurpose, ou seja, existem para e são de fato forçados a lidar ao mesmo tempo com numerosos objetivos e valores. Objetivos e valores nem sempre compatíveis entre si, diga-se de passagem. Eis por que, se me permitem invocar brevemente o conselheiro Acácio, governo tem de governar escolhendo os objetivos que esteja de fato disposto a implementar e ignorando ou rechaçando os que não esteja.
Pelo menos em dois momentos, portanto, a importância dos partidos políticos deve ser ressaltada. Primeiro, cumpre-lhes refletir a diferenciação subjacente de interesses e ideologias, caso ela exista, ou estabelecer balizas para que ela se constitua – obviamente, dentro de limites, em se tratando de um regime democrático. Nessa função, se não querem ser cúmplices no fraudar a vontade popular, os partidos têm de ser estáveis no que toca a suas formas de organização e liderança, e doutrinariamente inteligíveis – o que nem de longe significa rigidez ou fanatismo ideológico. O segundo momento, ou função, é o que pedantemente se costuma chamar de governabilidade. Assim como devem ajudar a organizar a opinião pública, os partidos devem também organizar as correntes parlamentares, incutindo nelas a altivez necessária para defender a instituição legislativa, mas também flexibilidade para colaborar com o Executivo no que este tiver de sério a propor.
Isto posto, volto à ideia de enviar aos nossos representantes um breve exercício de cidadania. Não incluiria nele os cidadãos sinceramente satisfeitos com a situação atual: os que se sentem bem servidos com o funcionamento atual da representação proporcional e do pluripartidarismo. Aos insatisfeitos e aos que se encontram em dúvida, eu proporia algumas indagações. Dada a complexidade do tema, limitaria minha enquete a detentores de diplomas universitários em nível de pós-graduação.
Primeira indagação: indique os nomes de metade (16) das 32 siglas registradas. Segunda: descreva (genericamente...) as ideologias ou os interesses que as referidas 16 se propõem a representar. Terceira: as principais lideranças de cada uma.
Meu teste nada tem de malicioso. Se a razão de termos 32 siglas registradas e outras tantas na linha de montagem é a necessidade de dar voz a ideologias, interesses ou projetos consistentes, parece-me razoável indagar se pelo menos a faixa mais escolarizada do País as conhece. Caso contrário, não estará na hora de adotarmos cláusulas legais fortemente redutoras, que nos ajudem a construir um sistema político mais sério?
Bolívar Lamounier é cientista político, sócio-diretor da Augurium Consultoria. É membro da Academia Paulista de Letras

"O pós-PT e o retorno da política", por Alberto Aggio

O Estado de São Paulo

É preciso avaliar uma nova concertação que empreenda reforma histórica do Estado

A conjuntura política do País segue normalmente seu curso, sem contramarchas, desde a admissão do processo de impeachment pelo Congresso, o afastamento de Dilma Rousseff e a assunção de Michel Temer ao comando interino do governo da República. Malgrado temores de uns e desejos de outros, não há recuo no sentido que se impôs ao processo. Apesar das críticas e das indefinições iniciais do governo interino, das ocupações de prédios públicos e das manifestações de rua, nenhum abalo expressivo foi produzido. Aguardam-se para agosto os lances finais do processo de impeachment e poucos são os que creem na volta da presidente afastada. Crescem a aprovação do governo interino e a esperança na recuperação econômica, enquanto é visível o isolamento político de Dilma e do PT.
As avaliações do cenário político feitas pelos intelectuais petistas, salvo raras exceções, reiteram ad nauseam o paradigma do “golpe de novo tipo” (Opinião, 8/6). Algumas delas, sem nenhuma razoabilidade, beiram a alucinação. A favor do novo governo também houve manifestações destoantes de impaciência, desconsiderando as condicionantes da governabilidade nesta fase de interinidade.
Mesmo premido por uma herança dramática, Temer tomou iniciativas administrativas importantes. As medidas econômicas de restrição de gastos, de difícil implementação, ainda dependem de aprovação do Congresso. Elas compõem um ajuste fiscal de perfil estrutural, necessário e realista para recolocar o País nos eixos. Dilma tem argumentado que tais medidas não foram aprovadas pelas urnas e jamais seriam caso fossem apresentadas. Trata-se de uma crítica vazia e sem sustentação, uma vez que Dilma abandonou seu discurso eleitoral para adotar um ajuste fiscal mitigado, que não se concretizou por tibieza sua e por oposição do seu próprio partido. Traindo a si mesma e ao País, Dilma cometeu um “estelionato eleitoral” que lhe custou a confiança da sociedade. Agora, o País precisa enfrentar a crise sem tergiversações.
As mudanças mais significativas verificaram-se, contudo, no âmbito político. A renúncia de Eduardo Cunha e a eleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara dos Deputados são sinais de um “retorno da política” e apontam para uma valorização da representação, para a superação das crispações decorrentes da clivagem “nós versus eles” e para mais autonomia, articulação política e eficiência do Parlamento.
A renúncia de Cunha e suas derrotas subsequentes nas Comissões de Ética e de Constituição e Justiça da Câmara jogam por terra mais uma falácia petista. Afirmava-se que o afastamento de Dilma levaria a um governo Temer/Cunha e aprovar o impeachment era colocar Cunha na Presidência da República, razão por que o ex-presidente da Câmara havia posto em pauta o processo de impeachment, “vingando-se” de Dilma. Mas essa fábula se foi e Cunha, neste mesmo agosto, poderá perder o mandato de deputado.
Os primeiros lances do “retorno da política” exigiram que o PT negociasse seus votos na eleição para presidência da Câmara, mesmo com a condenação de alguns de seus intelectuais e parlamentares, evidenciando mais uma vez sua crise de orientação. O PT ainda não é capaz de admitir que sua decaída, cristalina pelo fracasso de Dilma e pela montanha de casos de corrupção, é a base da imagem negativa que o partido criou para si mesmo, uma consequência que não pode ser enfrentada com escapismos do tipo “o PT é atacado por suas virtudes, e não por seus erros”.
É uma situação dramática para um partido que, longe de ser revolucionário, promoveu um reformismo débil e instrumental com o objetivo de se perpetuar no poder. O PT fracassou porque não conseguiu combinar reformismo social e democracia política de maneira progressista, o que lhe bloqueou a possibilidade de se tornar uma esquerda simultaneamente “transformadora” e “de governo”. A consequência foi a perda da vocação majoritária e a regressão a um discurso de “resistência” a tudo: ao suposto “golpe”, ao governo Temer, ao imperialismo e ao capitalismo. Somado ao pragmatismo de sempre, o PT vive hoje envolto pela sedução de um regresso a posições remotas da esquerda do século 20, em companhia desajeitada daqueles que creem num “movimentismo” permanente.
No mundo político fora do PT, os resultados da débâcle petista são diferenciados. Um deles foi o ressurgimento de um anticomunismo anacrônico e obtuso, idêntico ao seu objeto de rechaço. O outro foi abrir espaço para o liberalismo voltar a ocupar o centro da cena e, renovado, apostar suas fichas num programa para sair da crise e retomar o crescimento. Na bússola do liberalismo constam a contração do Estado e o estímulo à economia privada, que parecem convencer o conjunto da sociedade.
Embora divididos, os liberais passaram a ser tratados como o núcleo de articulação de uma nova proposta hegemônica. Em nossa História contemporânea, a aliança entre esquerda e liberais operou em defesa das liberdades: foi assim no Estado Novo e na luta contra o regime militar. Não há razão para que ela não seja perenizada e ganhe novos patamares, novos direitos.
Luiz Sérgio Henriques publicou neste espaço artigo sobre a crise do PT e a possibilidade de uma “outra esquerda”, democrática e reformista, fundada nos valores da Constituição de 1988 e no Estado Democrático de Direito. Certamente, ela deverá também buscar uma maneira justa e progressista de combinar reformismo social e democracia política. Assim, além de perenizar a aliança com o liberalismo em defesa das liberdades, na quadra que atravessamos será preciso avaliar os termos de uma nova concertação que possa empreender uma reforma histórica do Estado brasileiro, rompendo privilégios e corporativismos, sem eliminar sua presença reguladora, solidária e em defesa da cidadania. Seria um grande desafio e um belo destino.
Alberto Aggio é historiador, é professor titular da Unesp

"O peso das imagens de Dilma e Lula", editorial do Estadão

O PT já se deu conta de que mal poderá arcar com o peso negativo da própria imagem

O desespero cresce à medida que se aproxima o impeachment e, com isso, Dilma Rousseff vai perdendo a noção do ridículo. A mulher dita honesta, acuada pela sanha golpista dos inimigos do povo e confinada na solidão de um palácio de mentirinha, volta-se, explicitamente, contra seu próprio partido, a quem atribui a responsabilidade por qualquer malfeito que tenha sido cometido nas duas bem-sucedidas campanhas eleitorais de que participou. Mas o sentimento de rejeição é recíproco: está aberta nas hostes lulopetistas a discussão sobre a conveniência de manter Dilma Rousseff afastada da campanha municipal. O PT já se deu conta de que mal poderá arcar com o peso negativo da própria imagem. Dispensa o abraço de afogado.
Para a presidente afastada, a confissão de seu ex-marqueteiro oficial de que recebeu via caixa 2 pelos serviços prestados na campanha presidencial de 2010 não a atinge: “Ele diz que recebeu isso em 2013. Ora, a campanha começa em 2010 e até o final do ano, antes da diplomação, ela é encerrada. A partir do momento em que ela é encerrada, tudo o que ficou pendente de pagamento da campanha passa a ser responsabilidade do partido”.
Equivoca-se a mulher honesta. Mesmo que o cipoal legislativo que regula a matéria dê margem a eventuais interpretações pontuais discrepantes, o bom senso impõe a observância do princípio da responsabilidade solidária de candidatos e partidos sobre os gastos eleitorais, principalmente quando se trata de pleito majoritário. No caso, o marqueteiro João Santana, responsável pelo marketing eleitoral de Dilma em 2010, só conseguiu receber US$ 5 milhões que lhe eram devidos – na verdade, US$ 500 mil a menos – em 2013, depositados em conta no exterior.
Ninguém imagina que um candidato à Presidência da República seja obrigado a cobrir gastos de campanha. Mas é óbvio que ele é responsável, solidário com o partido, por esses gastos, inclusive do ponto de vista da legislação eleitoral. É, aliás, exatamente por essa razão que está sendo julgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma ação movida pelo PSDB contra a chapa Dilma-Temer, relativa aos gastos de campanha de 2014. É simplesmente ridícula, portanto, a alegação da presidente afastada de que, como a campanha de 2010 foi encerrada antes de o pagamento ser feito ao marqueteiro, a responsabilidade exclusiva por esse pagamento é do PT.
De resto, essa atitude revela, no mínimo, o desapreço que Dilma tem pelo partido pelo qual se elegeu duas vezes presidente da República. O que suscitaria a questão – se é que ela acredita realmente que possa voltar ao Palácio do Planalto – de saber com o apoio de quem ela contaria para recompor seu governo.
Ao tentar transferir para o PT toda a responsabilidade pelos golpes eleitorais que alavancaram suas eleições, Dilma nada mais fez do que imitar o comportamento de seu criador e mestre, Lula da Silva. Mentor e maior beneficiário do mensalão e do petrolão, peças do mesmo esquema de corrupção com os quais procurou em vão consolidar seu projeto pessoal de poder, o hóspede contumaz do famoso sítio de Atibaia passou oito anos na Presidência da República comportando-se como se qualquer suspeita de seu envolvimento em trambiques fosse crime de lesa-majestade. A diferença entre Dilma e Lula é que este, muito mais esperto, não perdia oportunidade de passar a mão na cabeça de quem operava o jogo sujo para ele.
Hoje, a agenda dos restos do PT concentra-se na sua sobrevivência política, o que passa necessariamente por um desempenho se possível um pouco mais do que medíocre no pleito municipal de outubro. A estratégia eleitoral a ser adotada divide suas lideranças. Por um lado, os que preferem a uma abordagem mais “ideológica” insistem que o mais adequado é a “nacionalização” da campanha, levando para os palanques municipais o tema do “golpe” de que o PT estaria sendo vítima com o impeachment de Dilma. De outra parte, os mais pragmáticos entendem que, numa eleição de prefeitos e vereadores, o que garante voto são as questões locais.
Seja qual for a estratégia, predomina entre as lideranças petistas, nos âmbitos federal, regional e municipal, a convicção de que, com a exceção talvez do Nordeste, as presenças nos palanques de Lula e, principalmente, de Dilma, não são desejáveis. São as voltas que a política dá.

A vida no mundo dos juros negativos

Jamil Chade - O Estado de São Paulo


Em países como Suíça e Dinamarca, correntistas pagam para deixar o dinheiro no banco e são orientados a não quitar suas dívidas

Foto: Reuters
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Na Suíça, em vez de receber por suas poupanças, grandes correntistas precisam pagar para deixar o dinheiro aplicado nos bancos
“Madame, venha! Aqui é mais barato que grátis.” A frase é ouvida nos mercados populares árabes e africanos com a insistência própria de vendedores tentando atrair clientes. Agora, no mundo das finanças, a expressão ganha contornos de realidade com a introdução de taxas de juros negativas pelos bancos centrais, na esperança de relançar economias.
Dos empréstimos para pequenas empresas aos correntistas de bancos, de hipotecas de casas a empréstimos para pagar carros, o mundo dos juros negativos mudou o cenário comercial de alguns países europeus e inverteu a relação entre credor e devedor. Quem empresta não recebe mais pelo risco de dar dinheiro. Quem só poupa, corre o risco de sair perdendo.
Na Suíça, por exemplo, os clientes do banco BAS receberam no fim do ano passado uma carta surpreendente. Em vez de ganharem dinheiro com taxas de juros ao depositarem suas economias na instituição, eles perderiam. Na prática, o correntista precisa pagar para deixar o dinheiro no banco.
Depois que o Banco Central local passou a praticar taxas negativas, a instituição financeira informou aos seus correntistas com mais de 100 mil francos suíços que passaria a retirar de suas contas 0,125% ao ano. Para as empresas, a taxa começa a valer a partir de 1 milhão de francos. Em todas as outras contas, incluindo a poupança, a taxa de juros é zero. A carta ainda sugeria aos clientes: procurem seus gerentes para avaliar alternativas.
Outros bancos, não querendo anunciar a novidade dessa forma aos clientes, passaram a criar taxas de serviços que, na prática, servem para compensar os juros negativos.
O UBS indicou em maio que poderia também introduzir taxas negativas para seus clientes “ultrarricos”, aqueles com ativos acima de US$ 10 milhões. Aos grandes clientes comerciais, a taxa negativa já foi instaurada pelo maior banco da Suíça desde 2015, com um “imposto” de 0,75% sobre o valor dos ativos depositados. O mesmo caminho foi adotado pelo banco Lombard Odier.
Mais saques. As consequências já começam a ser notadas. No país dos bancos, as instituições registraram um aumento nos saques dos correntistas que não estavam dispostos a pagar. No país, circulam notas de mil francos, o que facilita a retirada de grandes somas por correntistas sem fazer volume. Os clientes passaram a alugar cofres para guardar o dinheiro vivo. No ano passado, chegou a faltar cofres nos bancos do país. O Banco Central também admitiu que, desde 2012, a circulação de notas de mil francos aumentou 40%.
Outro levantamento da consultoria Capgemini aponta que os clientes de alta renda na Suíça (com ativos acima de US$ 1 milhão) estão diversificando a forma de guardar suas fortunas por conta das taxas negativas. Desse grupo de milionários, apenas 21% mantêm seus ativos em dinheiro nos bancos. No ano passado, o número era de 28%. “Como não estão recebendo nenhum juro por esses depósitos, esses correntistas estão procurando alternativas para investimentos”, diz o relatório da Capgemini.
Imobiliário. Outra consequência tem sido no mercado imobiliário. Com a taxa negativa fixada pelo Banco Central na Suíça, bancos têm feito empréstimos a clientes que queiram adquirir uma casa a taxas que podem chegar a 0,8% ao ano, dependendo das condições propostas e do pagamento inicial. Para uma hipoteca de dez anos, por exemplo, a média de juros é de 1,5%.
Agências imobiliárias usam justamente esse “dinheiro barato” para convencer clientes a sair às compras. E ainda sugerem: não antecipem o pagamento de suas dívidas.
Na pitoresca cidade de Vevey, os conselheiros do escritório da Imobiliária Naef, uma das maiores da Suíça, insistem que esse é o momento para comprar imóveis. “As taxas de juros estão em níveis historicamente baixos”, afirma a empresa. Um dos conselheiros indicou que, pela lei, uma entrada de 20% é exigida para qualquer compra. “Mas, depois disso, é de interesse fixar uma taxa de juros nesse momento em que elas estão em seu patamar mais baixo”. Em reação, os bancos têm se mobilizado para tentar limitar a duração de alguns dos empréstimos.
As novas condições de empréstimo levaram a professora primária Stephanie Birchmeier a optar por abandonar um aluguel e se aventurar na compra de um apartamento de 65 metros quadrados no bairro de Servette, em Genebra. Com 32 anos, ela não tinha planos de comprar um imóvel neste momento. Mas, diante dos juros baixos e da possibilidade de não ter de acelerar pagamentos, optou pela aquisição.
“Pago o mínimo possível por mês na hipoteca. Não há motivo para tentar se desfazer imediatamente da dívida. É quase como pegar algo emprestado e não ter de pagar ou pagar muito pouco por isso”, explicou. Ela paga 1,1% em juros.
Dinheiro de volta. Na Dinamarca, essa realidade de juros negativos acabou criando uma outra situação inusitada. Famílias que haviam pego empréstimos a taxas variadas acabaram recebendo dinheiro de volta em 2015 por conta dos juros negativos. No total, 758 clientes do Realkredit acabaram recebendo um desconto no valor que precisariam pagar mensalmente em suas hipotecas.
Na Holanda, em abril, a decisão de uma agência reguladora de produtos financeiros, a Kifid, estipulou que bancos teriam de pagar retroativamente aos clientes que tinham hipotecas pelo fato de que não acompanharam a queda de taxas de juros.
O risco, porém, tem sido o de um aquecimento exagerado do mercado imobiliário, criando as condições para uma eventual bolha. Os fundos de pensão na Suíça também têm aplicado seus recursos no setor de construção, na esperança de não perder dinheiro. Com 40 bilhões de francos em liquidez, os fundos acumulam ativos de 730 bilhões de francos no país. Sem um investimento que gere algum tipo de ganho, as pensões poderiam perder cerca de 300 milhões de francos em apenas um ano.
O crédito ao consumo também viu suas taxas despencarem. Por lei, as autoridades em Berna reduziram o teto máximo de juros de 15% para 10% ao ano. Mas alguns bancos chegam a praticar 4,9%.

Na Atra Automobiles, em Genebra, leasings são propostos para marcas como BMW a uma taxa de 5,5% de juros ao ano. Segundo a concessionária, essa é a taxa mais baixa em anos. “Normalmente, a taxa era de 8% ou 9%”, confirmou um dos vendedores.

Cláudia Trevisan: "Democratas usam lemas de Reagan, ícone dos republicanos, contra Trump"

Com O Estado de São Paulo


Menções à religião, demonstrações de patriotismo, defesa de valores familiares e outros pontos normalmente frequentes na agenda republicana foram utilizados na convenção que consagrou Hillary para apontar bilionário como um usurpador da legenda de Lincoln


Ícone dos conservadores americanos, o republicano Ronald Reagan foi usado na convenção do Partido Democrata como antídoto para o cenário sombrio dos EUA promovido pelo adversário Donald Trump. Alguns dos principais oradores do evento fizeram referências à visão luminosa do ex-presidente em relação ao futuro do país e a sua crença na absoluta supremacia americana.
Reagan não foi o único símbolo republicano apropriado pelos democratas recentemente. Demonstrações de patriotismo, menções à religião e a defesa de valores familiares também ganharam espaço no evento realizado na Filadélfia, em um esforço para atrair moderados republicanos que não se identificam com Trump e o veem como um usurpador do partido de Reagan e de Abraham Lincoln.

Foto: AFP PHOTO / Nicholas Kamm
Doug Elmets ex-assessor de Reagan, discursa em convenção democrata
Doug Elmets ex-assessor de Reagan, discursa em convenção democrata
O candidato a vice-presidente na chapa de Hillary, o senador Tim Kaine, deixou de lado a sutileza e foi bastante explícito no convite aos órfãos republicanos: “Se algum de vocês estiver procurando pelo partido de Lincoln, vocês têm um lar aqui mesmo, dentro do Partido Democrata”.
O presidente Barack Obama e Hillary Clinton, candidata à sua sucessão, incluíram em seus discursos referências a Reagan, historicamente desprezado por muitos democratas com a mesma paixão demonstrada por seus devotos republicanos.
“Ronald Reagan chamava a América de ‘uma luminosa cidade na colina’. Donald Trump a chama de uma ‘dividida cena de crime’ que só ele pode consertar”, disse Obama. Hillary usou o slogan da campanha de Reagan de 1984 para atacar as posições de seu adversário: “Ele levou o Partido Republicano muito longe, da “Manhã na América” para a “Meia-noite na América”.
Em campanha. O cientista político Norman Ornstein, do American Enterprise Institute, disse ao Estado que a convenção democrata foi marcada por um tom otimista e patriótico ao estilo de Reagan. O alvo eram os republicanos moderados e os independentes – a parcela do eleitorado que não se identifica com nenhum dos dois partidos e poderá definir o resultado da disputa presidencial em novembro.
“A convenção realizada na Filadélfia deixou claro que haverá um esforço dos democratas durante a campanha presidencial para que republicanos e independentes se sintam confortáveis com um eventual voto em Hillary Clinton”, afirmou Ornstein, autor do livro It Is Even Worse Than It Looks (É ainda pior do que parece), no qual analisa a crescente polarização da política americana.

Artistas, personalidades e peculiaridades marcam convenção democrata na Filadélfia


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Ainda assim, de acordo com ele, o mais importante fator na definição do voto da maioria dos republicanos será o comportamento de Trump até o dia 8 de novembro, data das eleições.
Refletindo o desconforto de muitos seguidores do partido com o bilionário, dois republicanos participaram da convenção democrata e declararam o voto em Hillary. “Eu conheci Ronald Reagan. Eu trabalhei para Ronald Reagan. Donald Trump, você não é Ronald Reagan”, afirmou Doug Elmets, republicano que foi assessor do ex-presidente Reagan na Casa Branca.
Diretora para políticas de saúde da poderosa Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Jennifer Pierotti Lim declarou ter votado em candidatos conservadores durante toda sua vida.
“Eu acredito nos valores fundamentais do Partido Republicano: liberdade, igualdade e a ideia de que há direitos individuas que não podem ser subtraídos”, observou Jennifer. “E porque o Partido Republicano abandonou esses valores neste ano, esta republicana votará em Hillary Clinton.”
As menções positivas dos democratas em relação ao partido adversário foram além de Reagan. O candidato a vice-presidente mencionou também Barbara Bush, uma das mais queridas ex-primeiras-damas dos EUA e matriarca da família que viu um de seus filhos, Jeb, ser derrotado por Trump nas primárias eleitorais.



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Hillary acena para eleitores de Bernie e ataca Trump
Moderados. Em seu discurso no encontro da Filadélfia, Hillary também elogiou o senador John McCain, um republicano moderado, adversário de Obama em 2008, que passou cinco anos e meio como prisioneiro de guerra no Vietnã.
Em razão de torturas a que foi submetido, ele perdeu parte da mobilidade de seus braços. Logo depois de lançar sua candidatura, há pouco mais de um ano, Trump desqualificou a reputação de McCain como herói de guerra. “Eu gosto das pessoas que não foram capturadas”, disse o bilionário.
Na sexta-feira, a neta do senador, Caroline McCain, anunciou que votará em Hillary. “A lealdade ao partido nunca pode triunfar sobre a lealdade ao país. E lealdade ao partido não significa nada quando o partido foi envenenado”, disse Caroline.

"A grande aposta democrata", por Fareed Zakaria - The Washington Post

Com O Estado de São Paulo

Diferentemente do tempo de Reagan, hoje os democratas irradiam confiança e os republicanos são mais críticos 

Vim para os EUA em 1982, atraído pelo país e interessado em sua política. Eram dias de trauma econômico (uma recessão profunda) e medo pela segurança nacional. E eu vinha da Índia, onde a população de modo geral pendia para o antiamericanismo e para um quase socialismo. No entanto, fiquei fascinado por Ronald Reagan e seu Partido Republicano. Reagan parecia incorporar o espírito dos EUA - era otimista, generoso, amante da liberdade.
Os democratas eram bem-intencionados, mas ao apontar as deficiências domésticas e falhas na política exterior, pareciam ignorar o quadro geral - de que os Estados Unidos, não a União Soviética, representavam o futuro. Como as convenções dos dois partidos mostraram nas últimas semanas, o mundo político virou de cabeça para baixo. Hoje são os democratas que irradiam confiança, e os republicanos os críticos de seu país.
As convenções de 1984 foram as primeiras que tive chance de observar. Estava quase hipnotizado. Ficava acordado até tarde num salão da faculdade para ouvir cada discurso. A fala de que melhor me lembro foi uma feita na convenção republicana em Dallas.
Reagan havia designado embaixadora na ONU uma democrata de longa data, Jeane Kirkpatrick, formada na Universidade Georgetown. Ela subiu ao pódio e falou num tom cuidadoso, incisivo, fustigando os democratas com argumentos que hoje se aplicariam facilmente... aos republicanos. Jennifer Rubin, do Washington Post, escreveu recentemente sobre a repercussão desse discurso.
Jeane Kirkpatrick explicou que admirava democratas como Harry Truman porque não se envergonhavam de ver os Estados Unidos como “uma grande nação”. Mas os “democratas de San Francisco”, disse ela, haviam perdido aquela fé instintiva (a convenção democrata daquele ano foi nessa cidade).
Quando Moscou se mostrava hostil, prosseguiu Jane, os democratas preferiam não acusar o Kremlin, mas culpar os EUA. “Eles sempre culpam primeiro os EUA”, afirmou.
Quando americanos foram mortos por terroristas no Líbano, lembrou Jane, os democratas “não culparam os terroristas... culparam os EUA”. E repetiu: “Eles sempre culpam primeiro os EUA”. A frase virou um bordão da campanha. Era exagero, como toda retórica desse tipo, mas capturava um pouco da realidade, como ocorre hoje se aplicada a Donald Trump. Ao falar dos chineses, de ataques terroristas ou de Vladimir Putin, ele não os critica. Em vez disso, tende a apontar falhas americanas - fraqueza, estupidez e ingenuidade de Washington.
A crítica mais séria de Jeane Kirkpatrick naquele discurso cairia ainda melhor sobre o indicado republicano. Ela descreveu o Partido Democrata como se comportando “menos como pombo ou falcão que como avestruz, convencido de que os EUA podem se isolar do mundo escondendo a cabeça na areia”. Jeane rejeitou taxativamente essa atitude. “Os EUA não poderão continuar sendo a sociedade aberta e democrática se forem deixados sozinhos - um Estado se defendendo de um mundo hostil.” Ela perguntou o que aconteceria à Europa se os EUA retirassem sua proteção. “Precisamos de amigos e aliados com os quais possamos compartilhar os prazeres e a proteção de nossa civilização”, afirmou.
O sucesso de Reagan, explicou ela, vem de três fatores: “confiança na legitimidade e sucesso das instituições americanas; confiança na decência do povo americano; e confiança na relevância de nossa experiência para o restante do mundo”.
O partido de Trump é diferente, caracterizado por dúvidas, sentimento de decadência e medo do futuro. “Este país é uma desgraça. Estamos afundando rapidamente”, diz ele. Em contraste, um equilibrado e confiante presidente Obama e sua mulher, Michelle, lembraram a seu partido, a seu país e ao mundo que “os Estados Unidos já são grandes”.
Especialistas em pesquisas e analistas assinalam que uma grande maioria acha que o país está “no caminho errado” e, nessas circunstâncias, otimismo não funciona. Essa sensação de desânimo explicaria o sucesso de Trump, e também de Bernie Sanders.
Mas Hillary Clinton e Barack Obama estão apostando pesado em que essa tendência não é nem profunda nem permanente. Eles investem na esperança de que os americanos não estejam raivosos a ponto de abraçar uma política de declínio e divisionismo. Estão seguindo o caminho de Franklin Roosevelt. Mesmo no auge da Depressão, e às vésperas da guerra, Roosevelt sempre acreditou que a maioria dos americanos queria um país assertivo quanto a seus propósitos e confiante no futuro. Esse era o Partido Democrata que Roosevelt construiu e, na maior parte, o que esteve no palco na Filadélfia em julho.
É preciso lembrar que nos últimos 44 anos, como apontou Dean Obeidallah, houve apenas três breves períodos em que a maioria dos americanos entendeu que o país estava no rumo certo. Em 1980, por exemplo, uma grande maioria achava que as coisas estavam despencando. Quatro anos depois, estava convencida de que os EUA vinham despertando. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Rodrigo Maia lança Temer à reeleição em 2018: 'Será o candidato do nosso campo'

Luiz Maklouf Carvalho - O Estado de São Paulo


Para presidente da Câmara, se governo for efetivado e aprovação crescer, peemedebista será levado a disputar a eleição de 2018 ‘quer queira, quer não’





O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente em exercício Michel Temer podem disputar o segundo turno da eleição presidencial de 2018 – e Temer vencerá. A previsão, ou premonição, a ver, é do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que amanhã reabre os trabalhos depois de duas semanas de recesso. “Se o Michel for confirmado presidente, e o governo chegar a 50% de ótimo e bom, ele é que será o candidato do nosso campo, quer queira, quer não”, disse. “Nesse caso, há uma forte tendência de ir para o segundo turno e ganhar de Lula.”
Maia botou a carroça na frente dos bois em entrevista aoEstado, na segunda-feira da semana passada, na cafeteria de um hotel em São Conrado, bairro valorizado em que também mora, na zona sul do Rio. Ele sabe que Michel – como sempre se refere ao presidente em exercício – já declarou e reiterou que não é candidato à reeleição, sabe que há três emplumados tucanos afiando os bicos e que até o seu DEM, caso a presidência da Câmara o faça brilhar, pode almejar remotissimamente a candidatura presidencial em 2018.
“Tudo isso será nada se o Michel estiver muito bem, como eu acredito que pode estar; o caminho natural, então, é que os partidos da base construam entre si o pedido para que ele possa continuar”, afirmou o deputado. “Eu sei que ele vai brigar comigo por estar dizendo isso, mas, olhando o cenário de hoje, e projetando 2018, o Michel vai ter dificuldade em negar esse pleito por parte dos partidos que compõem a base. É a única candidatura que pode unificar a base do governo.” Maia tem dito, reiteradamente, estar “convencido” de que a presidente Dilma Rousseff não voltará. “Mas é óbvio, se eu estiver errado, que não serei hostil a governo algum.”
O presidente da Câmara chegou ao hotel de São Conrado no final de uma manhã friorenta, a bordo de um vistoso e robusto utilitário de luxo, um dos veículos à sua disposição. O outro vinha atrás, com a segurança que o acompanha, para onde ele vá, desde a primeira hora em que ganhou a eleição, na madrugada de 14 de julho. “É um cargo de muito poder, e muda tudo”, disse. “Opiniões que eu já tenho, há tempos, passaram a ter um outro valor (risos).”
Agenda. A entrevista era seu terceiro compromisso daquela manhã. De lá, sem almoçar, ele iria para mais um – um encontro com o governador em exercício do Rio, Francisco Dornelles (PP), e depois, às 17 horas, voaria para Brasília, no avião oficial a que também tem direito, com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. “Não vou abusar do avião oficial”, disse Maia no banco de couro do utilitário que o transportava. “Sempre que for possível, vou usar avião de carreira”, afirmou.
O voo com Meirelles foi uma coincidência fortuita, para otimizar o uso do avião. Aproveitaram, claro, para afinar a sintonia dos desafios respectivos, decisivos para ambos, especialmente nas primeiras semanas em que Maia vai testar o seu poder. “Vamos ter dois meses de dificuldades para ter quórum, por causa das eleições, mas mesmo assim vamos ter de trabalhar e produzir, dois ou três dias por semana”, disse.
Para esta primeira semana, ele acha que dá para garantir a votação do projeto de regulamentação da dívida dos Estados, “que é o mais importante no curto prazo”. Como concorda com o essencial das principais propostas “do Michel” – novos impostos à parte, se vierem –, fica mais fácil para acelerar o ritmo. “Vamos estabelecer uma agenda e produzir o que for combinado”, disse.
Quórum existindo, entrará na roda o pedido de cassação do mandato do ex-presidente e deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Maia jogou no time dele – e vice-versa –, mas percebeu, há não muito tempo, a hora de pular da canoa. “O erro do Eduardo foi ter tido poder demais e não ter sido capaz de entender que tudo é transitório na vida”, disse, já à guisa de vá com Deus.
Disputa. O novo presidente contou, ajeitando incômodos cem quilos na cadeira – já foram 88, lá atrás – que estava pensando seriamente em voltar para a iniciativa privada ao final deste quinto mandato. “De repente vem uma oportunidade dessas, um poder que muda completamente a minha trajetória política, pelo menos eu vou trabalhar para isso”, disse.
Sua explicação para ter ganho a eleição contra Rodrigo Rosso (PSD-DF) – 285 a 170 – é “ter acreditado na tese dos deputados Orlando Silva [PC DO B-SP]e Carlos Sampaio[DEM-SP], de que eu era o único que podia agregar os votos de parte expressiva da oposição”. No domingo que antecedeu a eleição, Maia foi a Aécio Neves, o senador ainda algo presidenciável do PSDB. “Ou você decide me apoiar, já, ou o Centrão vai ganhar e 2018 está morto para todo mundo”, disse a ele, como contou. Aécio respondeu: “Fica tranquilo, está resolvido. Vou jantar com o Michel e informá-lo”. Michel foi informado, disse Maia.
Na terça-feira, véspera da eleição, houve um “almoço determinante” com Aécio e seus colegas senadores Agripino Maia (DEM) e Fernando Bezerra (PSB). Coube a este, em nome do senador tucano, ligar para o já postulante candidato de seu partido, Júlio Delgado, para dizer que não teria o apoio do PSDB. Maia ficou aliviado. Faltava enfraquecer a estratégia de Rosso – “criar um constrangimento para tirar o PT de mim”. Mais uma vez o presidente em exercício entrou na história: “Falei com o Michel, e ele disse que era muito bom conversar com a esquerda”, contou o deputado.
Maia acha que o governo passou a acreditar que ele ganharia a eleição na noite da terça-feira, ao constatar que os senadores procurados para interferir a favor de Rosso, na outra Casa, já estavam simpáticos à candidatura dele. A não ser que o Michel fechasse a questão – mas não foi o caso.
Ficha limpa. Maia não tem processos tramitando contra si – e nunca foi condenado por nada. Mas a Lava Jato descobriu, entre as mensagens do celular de Léo Pinheiro, sócio da empreiteira OAS, já condenado na primeira instância, uma mensagem em que ele pergunta ao empresário se “a doação de 250 vai entrar”. E outra, dois dias depois, em que estica a corda: “Se tiver ainda algum limite para doação, não esquece da campanha aqui”. Descobriu, também, que recebeu doação de uma empresa ligada à Odebrecht. Foi tudo para as mãos do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, que pediu mais informações a respeito ao Ministério Público Federal. “São doações de campanha, declaradas e perfeitamente legais”, disse o presidente deputado. Chances de acabar se enrolando? “Zero”, afirmou.