sábado, 1 de agosto de 2020
"Pandemia deve reconduzir Trump à reeleição", por Carlo Barbieri
O presidente dos EUA, Donald Trump tem reafirmado seu discurso nacionalista de campanha pautado no jargão ‘América primeiro’. Nos EUA, diversas ações do Presidente americano estão confirmando o tom nacionalista que Trump adotou em suas políticas públicas durante todo seu mandato. Mais americanos devem aderir à ideia de proteção de empregos, uma prioridade defendida por Trump, o que deve influenciar o voto dos eleitores.
Examinando os resultados econômicos alcançados pelo presidente americano, avalio que a recuperação econômica célere dos EUA pós-pandemia deve servir como mola motriz de sua campanha à reeleição. De modo geral, acredito que o sentimento positivo dos investidores impulsionado pelo aumento recorde na geração líquida de postos de trabalho nos EUA em junho, é um forte sinal de que a recuperação econômica no país está em pleno curso.
A economia norte-americana criou, em termos líquidos, 4,8 milhões de empregos em junho deste ano, de acordo com o Departamento do Trabalho, 1,8 milhão a mais do que o esperado por analistas, e um segundo recorde consecutivo na geração de vagas. Observei que a taxa de desemprego nos Estados Unidos surpreendeu no mês passado, e recuou para 11,1%, segundo dados do Departamento do Trabalho.
Em maio, a taxa de desemprego já havia caído a 13,3%, após atingir em abril o maior patamar pós-Segunda Guerra Mundial (14,7%). Penso que um número cada vez maior de americanos não estará disposto a querer uma mudança política neste momento de crise. Embora não tão popular, os resultados alcançados por Trump em áreas historicamente problemáticas nos EUA deverão pesar em favor à sua reeleição.
A economia dos Estados Unidos criou empregos em ritmo recorde neste momento pós-pandemia. Houve diminuição da recessão e a recuperação rápida já é sentida pelo mercado financeiro. O eleitor americano considerará os resultados de Trump na concretização de suas promessas de campanha e não deverão buscar mudança neste momento em que o país se recupera da pandemia.
Presumo que alguns pontos deverão fazer a diferença no resultado da corrida eleitoral americana este ano. Antes da pandemia o governo americano alcançou a marca histórica do menor desemprego no país em 50 anos, estimado em 3,5% – estado de pleno emprego. E em julho deste ano, o relatório do Departamento de Trabalho dos EUA informou que a criação de vagas de trabalho fora do setor agrícola dos EUA chegou a 4,8 milhões, maior salto desde que o governo começou a manter registros, em 1939.
Essas manobras econômicas adotadas pelo Presidente Trump geraram resultados concretos na vida dos americanos antes e agora no pós-pandemia. Agora, a rápida assistência financeira às empresas e pessoas, além de estímulos para recontratação, estão fazendo as pessoas passarem por esse momento de forma a sentirem-se menos desesperadas e com mais confiança que o Governo conseguirá gerenciar economicamente a crise.
Com discurso de proteção aos empregos para americanos, o Presidente Donald Trump adotou medidas para restringir a emissão de vistos de trabalho a estrangeiros, o que agradou americanos. Dados da Casa Branca, mostraram que entre fevereiro e abril de 2020, mais de 17 milhões de empregos nos Estados Unidos foram cedidos a pessoas que solicitaram vistos H-2B, H-1B e L – usualmente estrangeiros.
Desde o início de seu mandato, o endurecimento das normas imigratórias e tolerância zero para imigração ilegal foi uma das principais metas de Trump. A pandemia facilitou a tomada de decisões concretas para diminuir a imigração ilegal, fomentar a imigração documentada e aumentar a arrecadação do país neste setor. Porém, mesmo com a diminuição da emissão de vistos, o país não deixou de arrecadar.
A barreira burocrática para a tramitação de vistos tem aumentado constantemente desde o início do mandato de Trump e em contrapartida o presidente aumentou os custos do green card para investidores nos EUA como no caso do EB-5, que exigia um investimento de US$ 500 mil (mais de R$ 2,5 milhões e foi reajustado para US$ 900 mil (quase R$ 5 milhões). Além disso houve aumento das taxas de imigração. De modo gera o país está em vantagem.
*Carlo Barbieri é analista político e economista. Presidente do Grupo Oxford, consultoria brasileira nos EUA
O Estado de São Paulo
"Bolsonaro é aclamado em dois extremos do país: O fato e a narrativa da mídia do ódio", por Lucia Sweet
Presidente Bolsonaro é aclamado do Oiapoque ao Chuí, do nordeste ao sul do país.
É cercado pelo carinho popular, um reconhecimento merecido, embalado ao som dos gritos de “mito”.
Como não resisto a uma curiosidade, uma expedição oficial contestou e provou que o ponto geográfico mais setentrional (norte) do país não fica localizado no município de Oiapoque, no Amapá, mas no Monte Caburaí, em Roraima. Já Chuí é, sim, o ponto mais extremo ao sul.
Tudo isso para comentar o despeito da mídia de esquerda que, revoltada com a popularidade sem mortadela do Presidente, em vez de dizer que Bolsonaro foi aclamado pela multidão, diz que o Presidente “volta a causar aglomeração e a exaltar a cloroquina”.
Seria muito engraçado se jornais fossem programas humorísticos. Mas não são.
Seus jornalistas levam-se a sério e acreditam que formam opinião.
Essa gente de esquerda tem idéias falsas sobre a realidade.
Lucia Sweet
Jornalista
Jornal da Cidade
Lei de Gerson na guerra fria, defende Marcelo Tognozzi
Vivemos a Segunda Grande Guerra Fria. Com uma diferença fundamental: a China não é a antiga União Soviética. Nunca será. A briga não é movida por ideologia, mas por mercados e, principalmente, alimentos. Estados Unidos e a China disputam uma liderança mundial com meios e métodos muito distintos daqueles tempos do pós-guerra.
Nos anos 1950 e 1960, auge da cortina de ferro, o Brasil não era visto nem percebido como player do mercado mundial de alimentos. Vendia café, açúcar, minérios. Agora o país está entre os três maiores produtores de alimentos. Com uma população de 210 milhões de habitantes, é capaz de produzir comida para 1,5 bilhão de seres humanos. Comparado ao Brasil de hoje, aquele de 60, 70 anos atrás não passava de uma quitanda.
O salto de qualidade e produtividade do Brasil no agro começou no fim dos anos 1960, se expandiu durante as décadas seguintes pelas mãos da Embrapa até chegarmos ao século 21 transformados em provedores essenciais de alimentos. O Brasil é um dos três players globais mais relevantes do agronegócio, ao lado dos Estados Unidos e da China.
Esta condição influi tanto na economia quanto na diplomacia. Theodore Caplow no seu best seller “Dois contra um: teoria das coalisões nas tríades”, lançado nos anos 1950, mostra como um país com menor capacidade bélica e menor poder econômico pode tirar vantagem da briga de dois gigantes ora pendendo para um lado, ora para o outro.
Os negócios do Brasil com a China são 7 vezes maiores do que os com os Estados Unidos. Enquanto a China comprou US$ 34 bilhões em produtos do agro brasileiro em 2019, os Estados Unidos ficaram com U$ 5 bilhões.
O que pode fazer um país na situação do Brasil? Aplicar nossa famosa lei de Gerson e tirar vantagem nas relações com os dois lados usando toda a habilidade e conhecimento acumulado pela diplomacia profissional do nosso Itamaraty nos últimos 2 séculos. Não estou falando de neófitos, mas de profissionais da estirpe de Paulo Tarso Flecha de Lima, que revolucionou nosso comércio exterior.
O Brasil sempre foi ousado sem ser exibido. É uma herança que vem de Rio Branco, Joaquim Nabuco e Oswaldo Aranha. Reconheceu a independência de Angola e Moçambique, reatou com Cuba na primeira oportunidade e tentou abrir caminho rumo ao mercado chinês ainda no governo Jânio, que renunciou quando seu vice João Goulart estava em Pequim tentando iniciar um namoro Mao Zedong.
Não faz sentido o Brasil adotar uma política externa de alinhamento automático aos Estados Unidos com um discurso contra a diplomacia ideológica dos governos do PT, quando na realidade estão repetindo a receita. Este tipo de diplomacia serve ao governo e não ao Estado.
A paz social na China depende do abastecimento. Seria impossível controlar 1,3 bilhão de chineses esfomeados. O país cresceu demais, produziu riqueza demais e isso gerou uma demanda cada vez maior pela universalização do acesso à comida e alimentos de qualidade. Quem já foi à China sabe que os mercados são fartos. No mercado de carne de Shangai, por exemplo, os produtos brasileiros são conhecidos pelo número do SIF. Ali se pode comprar desde carnes nobres até pés de galinha, uma iguaria local, sem um defeito sequer e com unhas parecendo saídas de uma manicure.
Vale a pena ler o livro China-Brazil: partnership on agriculture and food security, que pode ser baixado de graça. Editado pela Escola de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), China Agricultural University e College of Economics and Management, estas 2 últimas instituições chinesas. O livro é um banho de realidade para quem vive este momento em que verdades e mentiras se confundem na luz baça das redes sociais e dos interesses difusos das ideologias de plantão. É possível entender como e por que comercio agrícola entre os dois países aumentou nada menos que 20% ao ano nos últimos 20 anos. Mostra de forma clara e objetiva como o crescimento da população urbana chinesa e o mergulho da China na produção de tecnologia abriu as portas para um Brasil de oportunidades geradas a partir de necessidades cotidianas.
Dos U$$ 100 bilhões exportados pelo agro brasileiro, pelo menos US$ 70 bilhões são produtos que competem diretamente com aqueles produzidos nos Estados Unidos. Enquanto a economia americana se fecha sob o argumento de preservar empregos, a China não para de comprar comida brasileira. Nossa soja em grão, café, algodão e celulose entram sem restrições na China. Com o crescimento econômico e as melhorias nas condições de vida dos chineses, eles passaram a comprar mais celulose do Brasil – no ano passado foram US$ 3,3 bilhões – porque, entre outros motivos, estão consumindo mais papel higiênico.
Nesta Segunda Grande Guerra Fria não existem mocinhos ou bandidos, mas competidores em geração de conhecimento e tecnologia de ponta, seja para a produção de celulares e redes móveis ou vacinas e cosméticos. Se deixar os profissionais da diplomacia trabalharem, o Brasil pode se colocar na situação daquele dono do saloom dos filmes de faroeste: os brigões sempre vão dar uma parada ali para comer e beber alguma coisa e, assim, ele ganha dos dois lados.
O maior talento do Brasil é produzir comida. É o que tem nos segurado ao longo das últimas décadas, independente da competência do governante de plantão e sue equipe econômica. O agro brasileiro ainda vai crescer mais e influir mais na política e na economia. Isso é inexorável. O que se percebe, nestes tempos em que nossa política externa não é tem ido muito além de bater continência para os americanos, é que nossos aliados do norte conseguiram neutralizar o potencial brasileiros de tirar proveito da tríade com movimentos pendulares.
O anticorpo para esta situação já está sendo criado pelos próprios produtores: um movimento discreto de uma diplomacia paralela, porém responsável, que ignora bobagens cometidas pela oficial, numa luta para ampliar mercados, receita e ao mesmo tempo manter o Brasil como ator relevante no jogo de poder mundial, não pela capacidade de ameaçar, é claro, mas pela capacidade de prover.
Poder360
Produção da vacina de Oxford no Brasil custará R$ 1,8 bi por acordo e estrutura
O Ministério da Saúde está pretendendo investir R$ 1,8 bilhão para começar a produzir a vacina da farmacêutica AstraZeneca contra o novo coronavírus, cujos testes são conduzidos pela Universidade de Oxford. Desse valor, R$ 522 milhões irão para a estrutura da unidade da Fiocruz que produz imunobiológicos, a Bio-Manguinhos, e R$ 1,3 bilhão é de despesa referente a pagamentos previstos no contrato de encomenda tecnológica.
Em nota à imprensa divulgada nesta sexta-feira, 31, o ministério informou que foi assinado um documento que “dará base para o acordo entre os laboratórios sobre a transferência de tecnologia e produção de 100 milhões de vacinas contra a covid-19, caso seja comprovada sua eficácia e segurança”. A pasta disse que esse entendimento é o passo seguinte nas negociações realizadas pelo governo federal, a embaixada do Reino Unido e a AstraZeneca.
A assinatura definitiva do acordo agora tem previsão para ocorrer na segunda semana de agosto, quando será garantido o acesso a 100 milhões de doses do insumo da vacina, “das quais 30 milhões de doses entre dezembro e janeiro e 70 milhões ao longo dos dois primeiros trimestres de 2021”, detalhou o ministério.
O investimento na estrutura de Bio-Manguinhos terá o objetivo de ampliar a capacidade nacional de produção de vacinas. “Demos mais um passo importante para a formalização do acordo entre os laboratórios. Essa ação do governo federal significa um avanço para o desenvolvimento de tecnologia nacional e de proteção da população brasileira”, afirmou na nota Camile Giaretta, diretora de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde.
O ministério informou que a a Fiocruz recebeu informações técnicas da AstraZeneca que necessárias para a “definição dos principais equipamentos para o início da produção industrial”. “Com sua larga experiência em produção de vacinas, a instituição também colocará à disposição sua capacidade técnica a serviço dos esforços mundiais para a aceleração do escalonamento industrial da vacina junto a outros parceiros”, declarou a pasta.
O governo disse ainda que a vacina produzida por Bio-Manguinhos será distribuída pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), que atende o Sistema Único de Saúde (SUS).
Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo
Sem acordo com sindicato, Latam decide demitir pelo menos 2,7 mil aeronautas
Depois de fracassar nas negociações com os tripulantes para redução permanente dos salários da categoria, a Latam confirmou que vai demitir “no mínimo” 2,7 mil pilotos, copilotos e comissários. Os cortes, que correspondem a 38% dos tripulantes da companhia (no total, são 7 mil), vão começar por meio de um processo de demissão voluntária até o dia 4 de agosto. Depois disso, a empresa vai fazer os desligamentos por conta própria.
Enquanto Gol e Azul negociaram com o Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA) uma proposta de redução temporária de salários e jornada até dezembro de 2021, a Latam colocou na mesa uma cláusula que determinava a nulidade do acordo caso a categoria não quisesse negociar uma redução permanente. Quase 90% dos tripulantes disseram não.
Em uma nova votação, nesta sexta-feira, 31, os tripulantes foram questionados se aceitariam que o SNA iniciasse uma negociação com a aérea sobre o corte permanente. Dos comandantes, 74% disseram não à proposta da aérea. Entre os copilotos e comissários, os porcentuais foram de 71% e 79%, respectivamente.
Em nota, a Latam disse que, após a confirmação do resultado da assembleia, iniciará o processo de redução do quadro. “A empresa abrirá o processo de pedido de demissão voluntária que deverá ocorrer até 4 de agosto, após essa data será iniciado os desligamentos de no mínimo dois mil e setecentos tripulantes.”
Segundo a companhia, a pandemia da covid-19 representa a maior crise de saúde pública da história e afeta drasticamente toda a indústria mundial da aviação. “A Latam é a maior e mais antiga das três empresas que atuam no Brasil e é a que mais remunera os tripulantes em voos domésticos e internacionais.”
A empresa disse ter a necessidade de equiparar seu modelo atual de remuneração às práticas do setor, “haja visto que, historicamente, esta pauta foi objeto de negociação da empresa com o SNA e a atual crise da pandemia torna esta medida ainda mais imprescindível para a Latam”.
“Ficou muito claro para o sindicato no final da negociação que o objetivo da Latam era reduzir permanentemente o salário dos tripulantes. Por outro lado, o objetivo da categoria era garantir os empregos temporariamente por meio de uma redução de salário”, disse o presidente da SNA, comandante Ondino Dutra.
O cenário é complexo para as aéreas no Brasil. Em junho, a demanda por voos no mercado doméstico (medida em passageiros quilômetros pagos) teve queda de 85% na comparação com junho de 2019, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A oferta de voos no mercado doméstico (calculada em assentos/quilômetros ofertados) caiu 83,6% em igual comparação. A ajuda do governo via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ainda é uma incógnita no setor. A própria participação da Latam no pacote é incerta, uma vez que o braço brasileiro do grupo entrou em recuperação judicial nos Estados Unidos.
Em um primeiro momento, os aeronautas fecharam um acordo com as aéreas que trouxe estabilidade para abril, maio e junho. Com o fim do período, iniciou-se então um novo processo de negociação. No início de junho, a Gol conseguiu aprovação da categoria da sua proposta, que prevê 18 meses de estabilidade com reduções de salários. Do total, 25% dos tripulantes vão ficar com remuneração fixa de 50%, com redução de jornada em igual proporção. Já o restante entrará em um modelo de escalonamento trimestral de cortes na jornada e remuneração de 23% no terceiro trimestre de 2020, chegando a 3% no terceiro trimestre de 2021.
Já a Azul conseguiu o sinal verde dos aeronautas no dia 24 de junho. De forma bruta, a redução de salário será de 45% entre o terceiro trimestre de 2020 e o primeiro trimestre de 2021, quando o porcentual começa a cair. No quarto trimestre de 2021, a redução na remuneração será de 25%. Considerando a ajuda de custo, as reduções líquidas vão de 23% no terceiro trimestre de 2020 para 3% de queda no quarto trimestre de 2021.
Cristian Favaro, O Estado de S.Paulo
"Práticas ESG e seu impacto no setor de energia, por Adriano Pires e Pedro Rodrigues", por Adriano Pires e Pedro Rodrigues
No início do ano, a BlackRock, maior gestora do mundo, anunciou seu comprometimento em reduzir o aquecimento global. Em janeiro, a gestora passou a fazer parte da Climate Action 100+, uma iniciativa que propõe pressionar as grandes empresas poluidoras a aumentar seu comprometimento com o meio ambiente.
Com cerca de US$ 7 trilhões sob gestão, ela vem desde então realizando diversas medidas para modificar estruturas que comprometem o meio ambiente através da sua influência e poder financeiro como grande acionista em diversos setores da economia.
Neste mês, a BlackRock informou que votou contra o conselho de 53 companhias no mundo, principalmente do setor energético, devido à falta de progresso em relação a questão ambiental e aconselhou outras 191 companhias a tomarem alguma ação.
A decisão inédita da gestora demonstra uma tendência mundial de preocupação com o clima. O Brasil, com sua ampla riqueza, diversidade energética e um grande potencial de energias limpas e renováveis, se bem gerido, com políticas públicas adequadas pode se beneficiar desta tendência e entrar no mundo pós pandemia com uma grande vantagem comparativa. Atualmente, o país possui uma matriz energética mais limpa que a média mundial.
No mundo, há cerca de US$ 20 trilhões em fundos com critério ESG (Environmental, Social, and Governance), ou seja, investimento com o olhar em algum critério ambiental, social e/ou de governança e a expectativa é que esse número cresça no futuro.
Segundo um estudo do GSIA (Global Sustainable Investment Alliance), de 2018, o valor do mercado global de investimentos sustentáveis pode chegar a cerca de US$ 31 trilhões, ou seja, 36% dos ativos financeiros totais sob gestão no mundo. Segundo um estudo do Morgan Stanley, houve um crescimento de 144% no número de fundos ESG nos Estados Unidos entre 2004 e 2018.
CRESCIMENTO NO NÚMERO DE FUNDOS ESG
Os fundos ESG trazem um grau maior de confiança para o investidor com essa preocupação, pois seguem métricas relacionadas aos pontos em que atuam na defesa do meio ambiente e direitos humanos. Na questão social, as métricas colaboram para que o investidor possa entender as preocupações da empresa com os direitos humanos e com as relações trabalhistas condições de qualidade.
São levados em consideração a relação com a comunidade, responsabilidade com o consumidor, saúde, segurança e treinamentos dos colaboradores, atividades beneficentes e diversidade. Nesta questão, um dos quesitos que pode ser analisado, por exemplo, é a quantidade de mulheres e de homossexuais e de outras tendências sexuais, ou seja, zero de homofobia em cargos de liderança.
Já as métricas ambientais demonstram como as empresas exploram os recursos naturais, o seu nível de poluição e de emissão de resíduos e de carbono. Essa questão é de suma importância principalmente quando a empresa lida com recursos escassos ou poluentes, capazes de gerar um grande impacto no planeta como um todo.
Ademais, empresas que seguem métricas de boa governança costumam ser mais transparentes e confiáveis, por exemplo, evitando casos de corrupção. Nesse ponto, é levado em consideração também os direitos dos acionistas, a composição do conselho de administração e as políticas de remuneração. Estes critérios são flexíveis e podem variar de acordo com a realidade de cada país. Atualmente, as gestoras costumam seguir critérios de certificadoras, como a Morningstar, que definiram seus próprios critérios.
Dessa forma, os fundos ESG são relevantes não apenas para reduzir a desigualdade social ou os impactos ambientais, mas também para dar ao investidor mais clareza sobre os recursos alocados. Essas práticas evitam que o investidor venha a ser surpreendido com escândalos envolvendo empresas em que seus recursos estão investidos e, consequentemente, suas ações e ativos percam valor no futuro. No mundo, grandes empresas como a Apple, Amazon e Microsoft já estão aderindo a estas práticas.
O processo das empresas de implementação de boas práticas ainda deve levar um tempo. No entanto, seguindo a tendência global, grandes bancos e gestoras brasileiras anunciaram neste ano a criação de fundos ESG. O Santander, por exemplo, anunciou que através da sua gestora Santander Asset pretende incluir na sua sede brasileira, critérios ESG em todos os seus fundos.
Ademais, em janeiro, a XP divulgou que iria investir R$ 100 milhões em dois fundos voltados para empresas brasileiras que sigam estas práticas. Outras gestoras, como a Veritas, JGP, e a Mauá também já lançaram seus respectivos fundos ESG. A bolsa de valores brasileira (B3), conta ainda com alguns índices ligados a questão da sustentabilidade e governança, como:
o Índice Carbono Eficiente (ICO2), que promove um futuro de baixo carbono;
o Índice de Governança Corporativa (IGCT), focado em questões éticas;
o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), que foca em incentivar a aderência as práticas ESG.
No Brasil, empresas do mercado de energia já vem se adaptando a estas novas práticas. No caso do Petrobras, apesar de ainda ter um longo caminho pela frente, em um encontro com investidores no ano passado, a empresa se comprometeu a adotar práticas ESG e apresentou dez compromissos de sustentabilidade, que vem adotando como o crescimento zero das emissões operacionais de carbono até 2025 e a redução de 30% na captação de água doce da empresa no mesmo período.
Entre 2009 e 2019, a empresa aumentou em cerca de 40% a sua produção de óleo e gás, sem que fossem aumentadas as emissões absolutas nesta área. Ademais, a empresa se comprometeu junto com a Iniciativa Climática para óleo e gás (OGCI) a reduzir a meta da intensidade de emissão de carbono nas atividades de exploração e produção, da média de 23 kg de CO2/boe em 2017 para 20 kg a 21 kg de CO2/boe até 2025.
Com foco em se adaptar às práticas ESG, a Cosan lançou recentemente diversas medidas sustentáveis, como a redução de 15% nas emissões por tonelada por quilômetro rodado de suas locomotivas até 2025 e a redução da pegada de carbono do etanol da Raízen em até 10% até 2030. A empresa também se comprometeu em buscar formas de financiamento atreladas a critérios de sustentabilidade, como green bonds e social bonds.
Em relação a questão da governança, a Cosan divulgou uma proposta para gerar mais transparência através de uma estrutura societária mais simples e dar o mesmo direito de voto a todos os investidores.
As empresas brasileiras do setor de energia ainda possuem um longo caminho a percorrer, sobretudo aquelas ligadas ao setor de óleo e gás. No entanto, é essencial que se comprometam de fato com boas práticas ambientais, sociais e de governança para atrair recursos e investimentos nacionais e internacionais cada vez mais preocupados com as questões climáticas, sociais e de governança.
Esses fatores deixarem de ser somente uma preocupação de grupos ambientais e passaram a ser fonte determinante no fluxo financeiro dos maiores representantes do capitalismo. O Brasil, possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. No setor elétrico, grande presença da geração hídrica e com crescimento da geração solar, eólica e de biomassa.
Nos combustíveis líquidos, temos o biodiesel e etanol, responsáveis pelo fato de termos cidades, como São Paulo, com qualidade superior a da maioria dos países. Temos tudo para ser um grande polo de atração de investimentos ESG no mundo. Não posemos e não devemos deixar de aproveitar essa nossa vantagem comparativa que poderá nos levar a ser um grande player no mundo pós pandemia.
Poder360
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