terça-feira, 30 de novembro de 2021

Combustível do futuro, hidrogênio verde é aposta do mundo para controlar o aquecimento global

 Com três vezes mais energia do que a gasolina, o hidrogênio tem a capacidade de se tornar uma  fonte limpa para o transporte de carga e para a indústria; Brasil pode ser um dos principais produtores



Para atender a demanda, Brasil teria de aumentar em 180 GW a capacidade instalada atual só com energia renovávelJF DIORIO/ESTADÃO

Elemento mais abundante do universo, o hidrogênio virou a última fronteira energética para um futuro neutro em gás carbônico (CO2) e já movimenta bilhões de dólares entre empresas e investidores. Um levantamento feito pela consultoria McKinsey mostra que, até julho, havia cerca de 359 projetos para a produção de hidrogênio verde em grande escala no mundo, o que somava US$ 150 bilhões em investimentos. Mas esses números mostram apenas o começo de uma revolução no mercado global de energia, que teria o Brasil como um dos líderes.

Embora possa ser encontrado em grande quantidade, o hidrogênio na Terra só existe na combinação com outros elementos. Ele está na água e nos hidrocarbonetos, como gás, carvão e petróleo. Para consegui-lo na forma pura, é preciso separá-lo. Esse processo já é conhecido no mundo na produção do hidrogênio marrom, cinza e azul, que usam combustíveis fósseis - as cores indicam o tipo de combustível é usado  Atualmente são produzidos mais de 60 milhões de toneladas por ano do produto para refinarias, siderúrgicas e fabricantes de amônia, entre outros.

A revolução, no entanto, vem do hidrogênio verde, considerado o combustível mais limpo do mundo. Não gera gases poluentes nem durante a combustão nem durante a produção. A aposta do mundo para limitar o aquecimento global até 2050 está num método criado há quase 200 anos pelo químico e físico britânico Michael Faraday. Trata-se da eletrólise da água, que separa o hidrogênio do oxigênio por meio de uma corrente elétrica. Para ser considerado verde, a energia elétrica tem de ser de uma fonte totalmente renovável, como a eólica e a solar - ainda não está claro se as hidrelétricas seriam consideradas verdes por causa do impacto ambiental durante a construção.

A solução é vista como a principal alternativa ao petróleo – até mesmo para as petroleiras. Para não ficar para trás, a maioria delas tem estudos e projetos para a produção de hidrogênio verde. Na BP, por exemplo, o presidente da multinacional britânica, Mario Lindenhayn, afirma que o desenvolvimento do combustível está em estudo em sete centros da companhia, na Europa e na Austrália. Shell e Petrobras também seguem o mesmo caminho, assim como as empresas de energia elétrica e terminais portuários, que estão de olho nas exportações futuras.

A multinacional alemã Thyssenkrupp é outra companhia ativa no desenvolvimento de projetos mundo afora para produção do hidrogênio. A empresa é fornecedora de tecnologia e constrói toda a planta de eletrólise para a quebra das moléculas. A companhia participa de projetos na Alemanha, no Canadá, na Austrália e na Arábia Saudita. No Brasil, alguns negócios em discussão devem ser fechados nos próximos meses, diz o presidente do grupo para América do Sul, Paulo Alvarenga.

A efervescência no setor foi captada pelo banco de investimento Goldman Sachs, que calcula que até 2050 o mercado de hidrogênio no mundo ultrapassará US$ 11 trilhões. Tamanha euforia se deve ao potencial do produto. O hidrogênio tem três vezes mais energia do que a gasolina com a vantagem de ser uma fonte limpa. “Essa é uma tendência sem volta. O que está em jogo não é a competição (de empresas e países), mas a sobrevivência mundial”, diz o coordenador geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJNivalde de Castro.

Ele lembra que no ano passado a Alemanha já havia anunciado leilões para compra de hidrogênio verde. O objetivo é se antecipar e garantir o fornecimento do produto. Nessa corrida, o Brasil pode ser um dos grandes beneficiados. Com amplo potencial para geração eólica e solar, o País teria capacidade de produzir hidrogênio verde para consumo próprio e para exportação.

Segundo o sócio da McKinsey João Guillaumon, o Brasil pode se tornar um dos líderes mundiais na produção do hidrogênio verde. Cálculos da consultoria mostram que até 2040 a receita com esse combustível limpo ficará entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões, sendo 70% do montante no mercado doméstico. Entre as principais aplicações estão o uso no transporte de carga e na siderurgia, por exemplo. “Essa é a solução mais eficaz para a indústria que hoje tem dificuldade na descarbonização”, completa o sócio sênior da McKinsey, Wieland Gurlit, um dos autores do estudo “Hidrogênio verde: uma oportunidade de geração de riqueza com sustentabilidade, para o Brasil e o mundo.

Segundo ele, para o País conseguir se aproveitar desse mercado, será necessário investir algo da ordem de US$ 200 bilhões para formar a indústria e produzir o hidrogênio. O volume de energia elétrica terá de ser elevado em 180 gigawatts (GW) apenas com renováveis. Isso significa dobrar a capacidade atual da matriz elétrica brasileira, que hoje inclui hidrelétricas, térmicas, eólica, solar e nuclear. A fonte eólica, por exemplo, tem cerca de 20 mil megawatts (MW) instalados e a solar, 10 mil MW. Ou seja, para pensar na produção de hidrogênio verde é preciso expandir exponencialmente essas fontes de energia.

PRODUÇÃO EM LARGA ESCALA PRECISA SUPERAR DESAFIOS

Apesar de ser a grande aposta do mundo, a produção em larga escala do produto terá de superar uma série de desafios. O uso intensivo da energia é um deles. Uma planta de eletrólise de 90 MW, por exemplo, produz 11.100 toneladas de hidrogênio. E estamos falando em uma demanda de milhões de toneladas. Só a Alemanha quer comprar inicialmente 5 milhões de toneladas.

Essa questão da energia é um dos temas estudados pela professora do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos Lucia Helena Mascaro. Ela trabalha em tipos de catalisadores capazes de reduzir o consumo de eletricidade no processo de separação do hidrogênio. A platina, diz a professora, seria um bom material, mas é caro e escasso. “Estamos buscando metais que tenham comportamento similar à platina, mas que sejam abundantes e baratos. Estamos avançando”, afirma. Entre os produtos que têm apresentado boa performance estão ligas de níquel, sulfetos e fosfetos. “Hoje, a demanda de energia para produzir 2,4 milhões de toneladas seria de 3.600 terawatts-hora. Isso significa consumir toda a energia produzida na Europa na produção de hidrogênio durante um ano.”

“Estamos buscando metais que tenham comportamento similar à platina, mas que sejam abundantes e baratos, para serem usados como catalisadores que reduzam o consumo de energia na produção do hidrogênio”

Lucia Helena Mascaro, professora do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos

Para Lucia Helena, outro desafio é a segurança do produto, pois é altamente inflamável e explosivo. Como um dos usos esperados para o hidrogênio é no transporte, o armazenamento tem de ser feito com muito cuidado. Isso leva à questão do transporte do hidrogênio, sobretudo para exportar, destaca o também professor da Universidade Federal de São Carlos Ernesto C. Pereira.

Um dos métodos avaliados pelo mercado – por ser mais maduro e promissor – é transformar o hidrogênio em amônia e transportá-la em navios por grandes distâncias. No destino, a amônia verde pode ser usada diretamente na indústria, como na fabricação de fertilizantes, ou transformada novamente em hidrogênio. O produto também pode ser transportado na forma de gás comprimido ou liquefeito. Na Europa, há expectativa de que seja desenvolvida uma rede de dutos para transporte de hidrogênio gasoso.

Mas há outro desafio: baratear o custo do produto. Hoje o preço do quilo do hidrogênio cinza é US$ 2. O verde está entre US$ 5 e US$ 8. O objetivo é que, até 2040, esse valor esteja abaixo de US$ 1. No Brasil, segundo a Mckinsey, o preço do quilo estaria em US$ 1,5 em 2030. “O hidrogênio será como o computador, o notebook e o telefone. Quando foram lançados, eram (produtos) apenas para uma elite e hoje estão popularizados. A massificação da produção vai reduzir os preços”, diz Paulo Alvarenga, da ThyssenKrupp.


Portos brasileiros querem virar central de hidrogênio e exportar produto

De olho no mercado internacional, os portos brasileiros já se articulam para criar centrais de distribuição de hidrogênio com a participação de empresas estrangeiras. O movimento ainda está em fase de estudos e de conclusão de acordos entre Estados, portos e empresas, mas tem potencial para deslanchar uma série de projetos nos próximos anos, sobretudo por causa do potencial eólico e solar.

Porto de Suape, em Pernambuco, assinou um memorando de entendimento com a multinacional francesa de energia Qair Brasil para a construção de uma planta de eletrólise de água num total de US$ 3,8 bilhões de investimentos – a empresa investe em energia renovável no Nordeste. O projeto já tem terreno definido para as obras e está em fase de engenharia, diz o secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Geraldo Julio.

“Essa é uma grande oportunidade para o Brasil, que pode se tornar um fornecedor para a Europa. Nesse cenário, o Nordeste aparece com vigor para novos investimentos”

Geraldo Julio, secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco

Segundo ele, a expectativa é a de que a construção do empreendimento tenha início em 2022. A previsão é de que um primeiro módulo seja concluído em 2025. O projeto completo terminaria em 2030. “Essa é uma grande oportunidade para o Brasil, que pode se tornar um fornecedor para a Europa. Nesse cenário, o Nordeste aparece com vigor para novos investimentos”, diz o secretário de Pernambuco, que afirmou que negocia com outras empresas a instalação de mais plantas para produzir hidrogênio.

A companhia francesa também tem acordo com o Porto de Pecém, no Ceará , outro candidato a virar um centro de hidrogênio no País. O projeto prevê o uso de energia elétrica gerada pelo Complexo Eólico Marítimo Dragão do Mar e de um parque de energia eólica offshore (nas águas do mar), segundo o complexo portuário. O investimento total previsto é de US$ 6,95 bilhões.

O porto tem acordo com outras empresas para desenvolver projetos de menor porte, como o da portuguesa EDP. O empreendimento faz parte do programa de Pesquisa e Desenvolvimento da UTE Pecém, instalada em São Gonçalo do Amarante (CE). A planta de eletrólise será abastecida por uma usina solar de 3 MW. O objetivo é criar um guia com análises e cenários para aumentar a escala da produção do hidrogênio, diz a empresa.

Avanço da energia solar deve ajudar a tornar o hidrogênio mais competitivoFELIPE RAU/ESTADÃO

Ainda sem acordos firmados, o Porto do Açu, no Rio de Janeiro, também corre para fechar parcerias. O complexo, da empresa Prumo, chegou a assinar um memorando de entendimento com a Fortescue Future Industries para desenvolver projetos industriais verdes baseados em hidrogênio no Estado. Mas, por enquanto, os planos não foram adiante.

O grupo decidiu iniciar um novo estudo sobre a produção de hidrogênio. “Estamos conversando com investidores e empresas para fazer um megaestudo”, diz o diretor de Desenvolvimento de Negócios da companhia, Mauro Andrade. Segundo ele, o objetivo é definir modelos econômicos e de engenharia. “O Brasil consome hoje 400 mil toneladas de hidrogênio cinza (poluente). Com o produto renovável, podemos contar uma nova história.”

Ele explica que, com o hidrogênio e a possibilidade de transformá-lo em amônia, o País teria capacidade de tornar viável uma indústria de fertilizantes. Hoje, apesar do tamanho do agronegócio brasileiro, boa parte do produto usado é importado.

‘Não adianta ter programa ambicioso e não conseguir tirar do papel’, diz diretor de planejamento energético

De olho no potencial do mercado, o governo federal lançou em agosto deste ano o Programa Nacional de Hidrogênio (PNH2), que tem o objetivo de mobilizar setores público e privado, academia e órgãos internacionais para acelerar o desenvolvimento de um mercado de hidrogênio em larga escala e competitivo. Foram definidos seis eixos de trabalho: o fortalecimento das bases tecnológicas, capacitação de mão de obra, planejamento energético, legislação, demanda e competitividade e cooperação internacional.

Mas a estratégia brasileira não está concentrada apenas no hidrogênio verde. Segundo o diretor da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) Giovani Machado, a ideia é focar no hidrogênio de baixo carbono. Isso inclui, além do verde, o hidrogênio azul (onde há a captura de boa parte do carbono) e turquesa (produzido pela pirólise do gás). Segundo ele, neste momento, esses tipos de produtos são mais competitivos do que o verde, que ainda custa muito caro. “Não estamos atrasados, mas não adianta ter planos ambiciosos e não conseguir tirá-los do papel. Isso não é uma corrida de 100 metros, mas uma maratona”, disse ele. A EPE é uma empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia e faz estudos e pesquisas para o planejamento do setor energético brasileiro.

Para Machado, produção de hidrogênio verde não é uma corrida de 100 metros, mas uma maratonaEPE

Machado afirma que neste momento é importante criar a fundação para ter uma economia de baixo carbono, e o hidrogênio verde faz parte dessa construção. A expectativa é que o produto só ganhe competitividade a partir de 2030 com o avanço e o barateamento das eólicas offshore e o aumento da escala de produção dos eletrolisadores. “Acreditamos no hidrogênio verde, mas temos etapas a seguir para que esse mercado funcione de forma adequada.”

“Acreditamos no hidrogênio verde, mas temos etapas a seguir para que esse mercado funcione de forma adequada”

Giovani Machado, diretor da EPE

Ele diz que tem acompanhado os anúncios de projetos privados feitos por grandes empresas e conversado com os investidores. Mas, na situação atual do País, com uma grave crise fiscal, não é possível dar nenhum tipo de subsídio para o desenvolvimento dessa indústria. Ele destaca, no entanto, que já há incentivo para as fontes renováveis e linhas de financiamento disponíveis.

O executivo afirmou que uma das frentes que o governo vai trabalhar é na criação de um site que reúna todas as legislações que de alguma forma estejam relacionadas com a produção do hidrogênio. Por exemplo, já há isenção de tributos na compra de eletrolisador, diz ele. “Queremos diminuir a assimetria de informações e esclarecer as dúvidas dos investidores.”

Outro ponto destacado por Machado é que o governo brasileiro tem reforçado incentivos e financiamentos à Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, ao investimento e inserção de inovações no mercado e à capacitação tecnológica e de recursos humanos em hidrogênio de baixo carbono. “São ações de diversas instituições do poder público ou publicamente orientadas em diferentes etapas da cadeia de valor do hidrogênio de baixo carbono.” A EPE tem dado assessoramento técnico ao Ministério de Minas e Energia na elaboração do Plano Nacional de Hidrogênio (PNH2), que aborda os desafios de hidrogênio de baixo carbono no Brasil.


Renée Pereira, Estadão

Além do etanol: diesel verde e querosene renovável são novas apostas do Brasil nos biocombustíveis

Empresas buscam ampliar a capacidade de produção de combustíveis menos poluentes para caminhões, carros e até aviões como forma de reduzir a emissão de carbono no País


Área no Paraguai onde a usina do grupo ECB será erguidaDIVULGAÇÃO/GRUPO ECB

A 35 quilômetros de Assunção, capital do Paraguai, em uma cidade de pouco mais de 35 mil habitantes chamada Villeta, o grupo brasileiro ECB (dono da fabricante de biodiesel BSBios) está investindo US$ 800 milhões (cerca de R$ 4,5 bilhões) em uma usina que produzirá combustíveis do futuro. Serão fabricados no local diesel verde (HVO) e querosene de aviação renovável. A planta deve começar a operar apenas em 2025, mas toda sua produção até 2030 já está vendida para a Shell e a BP.

Se estivesse operando hoje, a unidade elevaria a receita anual do grupo ECB em US$ 1,2 bilhão (R$ 6,7 bilhões). Em 2020, o faturamento do grupo foi de R$ 5,3 bilhões e, para 2021, estão previstos R$ 8 bilhões. “O comprometimento da sociedade (com a redução de carbono) em 2030 vai ser ainda maior. Então, a expectativa é que o negócio fique ainda melhor depois disso”, diz o presidente do EBC, Erasmo Carlos Battistella.


O empresário pretende desenvolver um projeto semelhante no Brasil assim que o HVO for regulado no País - o assunto está em debate no Congresso. Adiantado-se a isso, a Brasil Biofuels, produtora de óleo de palma, anunciou na semana passada a construção da primeira unidade de HVO do País, que será instalada na Zona Franca de Manaus e receberá um aporte de R$ 1,8 bilhão.

HVO (sigla em inglês para óleo vegetal hidrotratado) emite até 85% menos gás carbônico que o diesel comum e pode ser usado em veículos a diesel sem que os motores precisem ser adaptados. Ele é produzido a partir de óleo de cozinha, de óleos vegetais, como óleo de palma, soja ou girassol, e de gorduras animais, que reagem com o hidrogênio.

Apesar de haver só um projeto anunciado para o País até agora e de a regulação ainda estar indefinida, o HVO - e outros biocombustíveis - tem grande potencial no Brasil, além de um mercado promissor que deve surgir com a descarbonização da economia. “O País tem potencial de ser o maior e mais importante produtor de biocombustível do mundo em 2050. Só precisamos de políticas públicas para chegar lá”, diz Battistella, do grupo ECB. “Precisamos começar a pensar em rota tecnológica, implementação de mercado, diversificação de matéria-prima, certificação de cadeia produtiva. Se fizermos o dever de casa, temos um potencial gigante, mas dependemos de os líderes organizarem isso.”

Demanda por diesel verde será ainda maior depois de 2030, diz BattistellaDIOGO ZANATTA

A experiência do Brasil com o etanol e a possibilidade de a agricultura oferecer matéria-prima para a indústria são os fatores que podem impulsionar o setor de combustíveis avançados por aqui, alavancando também o agronegócio. “Os combustíveis são mais um canal de absorção de produtos agrícolas, o que  vai exigir aumento da produção local. E a gente tem área já antropizada e tecnologia para produzir”, afirma Guilherme Bellotti, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA.

O potencial é tão latente e a demanda por combustíveis de baixa emissão é tão alta que empresas estrangeiras estão incentivando a exploração da indústria no País. O diretor-geral da Boeing no Brasil, Landon Loomis, por exemplo, afirma que o Brasil pode ser um dos principais parceiros da indústria aérea na produção de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês).

O SAF é fabricado a partir de resíduos, como óleo de cozinha usado e gordura animal, e pode reduzir em até 80% as emissões de carbono da aviação comercial. Hoje, a produção global de SAF é de 100 milhões de litros por ano, o que representa 1% da demanda por combustível do setor.

“Estamos olhando para o mundo para tentar aumentar a produção de SAF. Para mim, o Brasil é um parceiro muito atraente. Tem a segunda maior indústria de biocombustíveis do mundo, atrás apenas dos EUA, e já criou uma indústria de biocombustível do nada. Fez isso com o etanol nos anos 70 em reação à crise do petróleo”, diz Loomis.

O executivo destaca que, para garantir que o SAF não tenha sua origem em produtos agrícolas cultivados em terras com desmatamento ilegal, a Boeing está trabalhando com parceiros para construir uma base de dados de uso da terra. “O Brasil tem uma capacidade enorme para elevar a produção de matéria-prima sem prejudicar a segurança alimentar. Quando se fala em SAF, o S é de sustentabilidade. E ser sustentável inclui se preocupar com todo o ciclo do combustível.”

Para Loomis, da Boeing, Brasil pode ser parceiro da indústria aéreaWERTHER SANTANA//ESTADÃO

Na usina no Paraguai que o grupo ECB está construindo, haverá produção também de combustível para aviação. O querosene renovável que será fabricado no local deve ser composto por 5% de óleo de cozinha reciclado, 35% de gordura animal e 60% de óleo vegetal. O presidente da empresa acredita que, até 2030, os aviões possam estar operando com uma mistura de 10% de SAF e 90% de querosene tradicional. Hoje, a participação do combustível sustentável é de 1%.

No Brasil, uma oportunidade na área seria utilizar uma tecnologia chamada ATJ (álcool para jato, na sigla em inglês), que transforma o etanol em combustível de aviação, diz o professor Gonçalo Pereira, da Unicamp. “Com essa tecnologia, o Brasil poderia se transformar em um celeiro do produto, que tem um valor alto e é um grande negócio.”

Pereira afirma acreditar que o etanol pode ser uma opção melhor para o setor aéreo quando comparado a combustíveis feitos a partir de óleo, que é mais demandado globalmente. “O preço do óleo de soja, por exemplo, pode acabar inviabilizando que ele seja uma saída. O etanol tem o caminho mais aberto”, diz.

ETANOL DE SEGUNDA GERAÇÃO

Além da criação de combustíveis sustentáveis para o uso em caminhões, ônibus e aviões, a indústria também trabalha em uma tecnologia relativamente nova para os carros: o etanol de segunda geração (E2G). A Raízen, por exemplo, fabrica E2G em Piracicaba (SP) desde 2015 e, agora, está construindo sua segunda unidade do produto em Guariba (SP), que terá o dobro de capacidade da primeira.

Como é produzido a partir de resíduos da fabricação do etanol tradicional (palha e bagaço da cana-de-açúcar), o E2G não aumenta a necessidade de cultivo de cana. O vice-presidente comercial, de logística e distribuição da Raízen, Leonardo Pontes, destaca que o novo combustível é altamente atraente sobretudo na Europa, onde a produção de matéria-prima para biocombustíveis disputa espaço com a de alimentos.



A Raízen aposta tanto no E2G que promete ter 18 usinas capazes de fabricá-lo nos próximos dez anos. O projeto demandará uma quantia estimada entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões. Para alguns, no entanto, o investimento parece exagerado. Isso porque parte dos especialistas na área diz que o uso de biocombustíveis pode desacelerar conforme o carro elétrico seja popularizado.

O consultor dinamarquês Soren Jensen faz parte do grupo de céticos em relação ao aumento da demanda por biocombustíveis.Para ele, a procura pelo etanol no Brasil pode se manter estável ou crescer timidamente até 2030, mas, depois, deverá recuar. No cenário moderado, a queda seria de 40% entre 2030 e 2040; no pior, de 60%.

Na visão de Jensen, o etanol - de segunda ou primeira geração - não conseguirá competir com a eletricidade porque essa deverá ser a opção número um em todo o mundo para o setor automobilístico. “O Brasil é o único país que tem distribuição de etanol puro. Nos outros, ele é misturado à gasolina. O País vai manter um sistema de etanol sendo que o mundo todo, principalmente o economicamente desenvolvido, vai para o elétrico? Acho difícil conseguir ficar meio ilhado assim.”

Carro elétrico pode ser empecilho para crescimento dos biocombustíveisWERTHER SANTANA/ESTADÃO

O executivo da Raízen, no entanto, lembra que, além do setor automobilístico, o etanol deverá ver um aumento de demanda para atender as indústrias farmacêutica, química, de cosméticos e de bebidas, além do setor aéreo. Ele destaca ainda que vários países estão aumentando a quantidade de biocombustíveis que deve ser misturada à gasolina. A Índia, por exemplo, antecipou em dois anos a data prevista para a elevação da mistura do etanol para 20%, passando o prazo de 2025 para 2023.

O economista Guilherme Bellotti, do Itaú BBA, pondera que em muitos países, como a China, essa obrigação não é respeitada. Mas ele acredita que isso deve mudar com a discussão em torno da emissão de gases de efeito estufa, favorecendo a indústria do combustível e a produção de milho e cana-de-açúcar.

Vai haver necessidade de aumentar a oferta de produtos agrícolas. Os preços vão ficar acima das médias históricas. Será preciso aumentar produtividade. Aqui temos áreas disponíveis para isso. Áreas que já foram abertas, de pastagem degradada, que possibilitam a expansão da agricultura. O País tem condição de surfar nessa era.”

 Guilherme Bellotti, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA

O presidente da União da Indústria de Cana-de-AçúcarEvandro Gussi, traz outro elemento para refutar a ideia de que o carro elétrico vai acabar com o espaço do veículo a etanol. Para ele, os desafios para a descarbonização da economia são tão profundos e as metas tão desafiadoras que todo tipo de combustível sustentável será importante. “Vamos precisar de tudo e mais um pouco. Por isso, o etanol tem oportunidades no mundo da mobilidade sustentável.Não haverá uma solução única. Vamos precisar de complementaridade.”

Já em relação a substituição de ônibus a diesel (que poderia usar HVO para emitir menos gás carbônico) por ônibus elétrico, o presidente da Associação Brasileiras das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove)André Nassar, diz que ainda é preciso observar se os veículos pesados se adaptarão às baterias, dado que costumam fazer trajetos mais longos. “Para mim, a eletrificação de veículos pesados não é tão clara.”

Se aqueles que dizem que os biocombustíveis não terão espaço na economia eletrificada estiverem realmente errados, as possibilidades para o Brasil vão além de fabricar etanol, E2G, HVO e SAF. O País poderá exportar sua expertise na área, diz o ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio VargasRoberto Rodrigues.

Para Rodrigues, etanol dá ao Brasil oportunidade de exportar conhecimentoFELIPE RAU/ESTADÃO

“Se o etanol se transformar em matéria-prima exponencial, vamos ter um produto em que sempre seremos competitivos. Podemos ganhar ensinando as pessoas a pescar. Ensinar os outros a fazer algo que demoramos para aprender. Nos custou caro aprender a fazer etanol competitivo”, afirma.

Rodrigues acrescenta que prefere a ideia de exportar o conhecimento do que a cana-de-açúcar para a produção do etanol em si, dado que o primeiro tem maior valor agregado. “Podemos ensinar os países tropicais a plantar cana. Nosso grande negócio seria vender usina para o cinturão tropical do planeta inteiro.”

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Luciana DyniewiczEstadão

13º salário vai injetar 232 bilhões na economia

 Primeira parcela deve ser paga até o dia de hoje, terça-feira (30)


Classe trabalhadora fica com dois terços do montante pago como 13º salário
Classe trabalhadora fica com dois terços do montante pago como 13º salário | Foto: Reprodução/Mídias Sociais

O pagamento do 13º salário começa nesta terça-feira, 30. Cerca de R$ 232 bilhões serão injetados na economia brasileira por meio do benefício, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Todos os anos, o pagamento do 13º salário aquece a economia brasileira. O movimento do comércio cresce, principalmente, em razão das compras de Natal. O turismo também se beneficia com as viagens de fim de ano.

O montante de dinheiro que entra em circulação corresponde a 2,37% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. 83 milhões de brasileiros receberão o benefício, conforme a estimativa do Dieese.

O valor médio será de R$ 2,5 mil. Dos R$ 232 bilhões que serão pagos, um terço vai para aposentados e pensionistas. Os empregados com carteira assinada, incluindo os trabalhadores domésticos, ficam com os dois terços restantes. Outras formas de contratação de mão de obra não entram não conta, pois não têm o direito ao benefício previsto em lei.

Quem não recebeu antecipadamente, deve ter a primeira parcela do 13º salário paga até hoje. Seu valor mínimo corresponde a 50% da quantia total a que o trabalhador com registro em carteira tem direito. Assim, a segunda parcela precisa ser depositada até dia 20 de dezembro.

Artur Piva, Revista Oeste

Prazo se esgota e Procuradoria-Geral não denuncia Alcolumbre




A notícia-crime apresentada ao Supremo Tribunal Federal (STF) para denunciar o caso das rachadinhas do senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) foi enviada à Procuradoria-Geral da República (PGR) em 5 de novembro pelo relator da ação, ministro Luís Roberto Barroso. O Regimento Interno do STF fixa prazo de 15 dias para a PGR se pronunciar sobre a abertura de inquérito contra o político, acusado de embolsar mais de 90% dos salários de 6 assessoras do seu gabinete.

Duas semanas

O artigo 231 do regimento determina 15 dias para a decisão da PGR, mas esse prazo pode ser interrompido ou estendido.

‘Prazo impróprio’

A PGR considera o prazo “impróprio” e diz que o procurador-geral Augusto Aras até já tratou do tema com o presidente do STF, por ofício.

Caso é criminal

A PGR informa que o caso está sob análise e explica que “para atos de investigação criminal, não há prazo definido para o MP atuar”.

Outra briga

Alcolumbre é acusado de recrutar 6 mulheres pobres, na periferia de Brasília, que aceitassem receber apenas 10% do salário de R$14 mil.

Diário do Poder