sexta-feira, 14 de agosto de 2026

'Revolução cultural e esporte feminino', por Ana Paula Henkel

 Liberdade exige domínio sobre os próprios impulsos e o reconhecimento de uma realidade que existe independentemente de nossos desejos



Foto: Montagem Revista Oeste/IA EDIÇÃO 33


D urante décadas, discussões sobre a guerra cultural americana foram frequentemente tratadas como disputas abstratas, confinadas a universidades, livros, movimentos políticos ou debates filosóficos sobre o significado de liberdade, identidade e natureza humana. Nesta semana, porém, dois ex-jogadores da NBA encontraram uma maneira bastante concreta de obrigar uma das maiores ligas esportivas femininas do mundo a enfrentar algumas dessas perguntas. 

Enes Kanter Freedom e, em seguida, Royce White anunciaram formalmente sua intenção de participar do draft da WNBA, a liga profissional americana de basquete feminino, de 2027. Ambos decidiram utilizar as próprias regras e o discurso de inclusão da liga para colocar diante dela uma questão que deveria ser elementar para qualquer competição esportiva feminina: se o sexo biológico deixa de estabelecer a fronteira da categoria, qual é exatamente o critério que define quem pode competir entre mulheres?


Enes Kanter Freedom e, em seguida, Royce White anunciaram formalmente sua intenção de participar do draft da WNBA de 2027-| Foto: Reprodução/Redes Sociais

A iniciativa foi recebida por alguns como uma provocação, mas reduzi-la a um embate político ou ideológico apenas significa perder aquilo que a tornou relevante. Kanter e White construíram uma espécie de experimento lógico, perspicaz é absolutamente necessário.

Em vez de escreverem manifestos contra a participação de “atletas trans” — homens — em competições femininas, decidiram levar determinadas premissas culturais às últimas consequências. A resposta da WNBA tornou a contradição ainda mais evidente. A liga condenou o que classificou como iniciativas de “má-fé”, afirmou que atualmente não existe uma questão concreta de elegibilidade envolvendo atletas transgêneros e reiterou seu “compromisso com a competição justa e a inclusão”. 

Ao mesmo tempo, o acordo coletivo determina que a WNBA seja disputada por mulheres sem apresentar uma definição detalhada de identidade de gênero aplicável à categoria. A questão ultrapassa em muito duas antigas estrelas do basquete. A WNBA só existe separadamente da NBA por uma razão que, durante praticamente toda a existência do esporte moderno, pareceu dispensar explicações: homens e mulheres são biologicamente diferentes, e essas diferenças possuem consequências relevantes para a competição atlética. Se isso não fosse verdade, a própria existência de uma categoria feminina seria desnecessária. 

O esporte para as mulheres nasceu precisamente do reconhecimento de que igualdade de dignidade não significa identidade física e de que proteger uma categoria feminina exige reconhecer diferenças que nenhuma decisão administrativa ou ideologia pode eliminar A WNBA só existe separadamente da NBA por uma razão, homens e mulheres são biologicamente diferentes .


A WNBA só existe separadamente da NBA por uma razão, homens e mulheres são biologicamente diferentes - Foto: Reuters

As principais vítimas dessa confusão não são os homens que “se sentem como mulheres” e que desejam competir conosco, nem mesmo os que fazem do tema um experimento político. São as atletas, reais mulheres, que dedicaram anos de treino a uma categoria que existe precisamente para protegê-las da desigualdade física inerente ao sexo. Quando essa proteção é relativizada em nome da inclusão, o que se perde não é apenas uma regra: é a própria razão de ser do esporte feminino.

O episódio poderia terminar aí como mais uma controvérsia americana de 2026, não fosse uma coincidência particularmente interessante do calendário. Neste sábado, 15 de agosto, completam-se 57 anos do início de Woodstock, o festival realizado em uma fazenda em Bethel, no Estado de Nova York, que reuniu centenas de milhares de jovens e se tornou um dos símbolos mais poderosos da contracultura dos anos 1960. Mais de 400 mil pessoas passaram pelo local para assistir a artistas como The Who, Janis Joplin, Santana, Jefferson Airplane, Creedence Clearwater Revival e Jimi Hendrix. Woodstock foi anunciado como uma experiência de três dias de paz e música e acabaria eternizado como a grande fotografia de uma geração que pretendia transformar muito mais do que o gosto musical dos Estados Unidos. 

Seria historicamente absurdo afirmar que Woodstock produziu as disputas sobre identidade de gênero do nosso tempo. Seria igualmente absurdo observar as transformações culturais ocorridas nos últimos 57 anos sem reconhecer a importância da revolução da qual aquele festival se tornou a vitrine mais conhecida. Woodstock não inventou a contracultura, a revolução sexual, o movimento hippie ou a rebelião contra as instituições tradicionais. Tudo isso já estava acontecendo. O festival ofereceu, porém, palco, música, juventude e uma narrativa extraordinariamente poderosa a uma mudança cultural que questionava a autoridade, a moral sexual, a religião, a família e muitas das convenções herdadas pelas novas gerações. A oposição à Guerra do Vietnã, as lutas pelos direitos civis, os assassinatos políticos da época e a profunda desconfiança em relação às instituições faziam parte daquele ambiente, e seria intelectualmente desonesto ignorar que muitos daqueles jovens possuíam razões legítimas para questionar determinados aspectos da sociedade em que viviam.

O problema começou quando a correção de abusos passou progressivamente a se confundir com uma revolta contra a própria existência de limites. Uma autoridade podia ser injusta, mas disso não decorria que toda autoridade fosse opressiva. Algumas tradições podiam precisar de correção, mas disso não decorria que toda tradição fosse um instrumento de dominação. A moral podia ser utilizada hipocritamente, mas disso não decorria que toda restrição moral fosse inimiga da liberdade. A família podia apresentar falhas, como qualquer instituição humana, mas disso não decorria que a família tradicional precisasse ser desconstruída. 

A revolução cultural avançou justamente nessa fronteira, transformando a libertação de determinadas injustiças numa suspeita cada vez maior em relação às próprias estruturas que estabeleciam deveres, responsabilidades e limites. A liberdade sexual foi uma das expressões mais evidentes dessa transformação. Drogas foram romantizadas como instrumentos de expansão da consciência. A rejeição de convenções tornou-se demonstração de autenticidade. A transgressão ganhou prestígio cultural precisamente por ser transgressão. 

Woodstock não foi responsável por cada uma dessas ideias, mas tornou-se inseparável delas e ofereceu ao mundo uma imagem sedutora de uma sociedade que poderia abandonar antigas restrições e descobrir uma forma mais autêntica de existência. Era uma promessa poderosa, especialmente para uma geração jovem que havia aprendido a desconfiar daqueles que lhe diziam como viver.


Neste sábado, 15, completam-se 57 anos do Woodstock, o festival realizado em uma fazenda em Bethel, no Estado de Nova York = Foto: Reprodução/Redes Sociais


Cinco décadas e meia oferecem uma vantagem que os participantes de qualquer revolução jamais possuem: a possibilidade de observar os frutos. 

A contracultura não permaneceu numa fazenda em Bethel. Aqueles jovens cresceram, e muitas das ideias que representavam rebelião contra o establishment passaram gradualmente a ocupar o próprio establishment. Elas entraram nas universidades, no entretenimento, na publicidade, na imprensa, nas empresas e nas instituições responsáveis pela formação das gerações seguintes. Conceitos que haviam começado como desafios à cultura dominante passaram, em muitos ambientes, a definir a própria cultura dominante. 

A grande ironia dos anos 1960 é que uma geração que se orgulhava de desafiar as instituições conquistou enorme influência sobre as instituições que entregaria aos seus filhos e netos.

Nesse processo, uma mudança particularmente importante ocorreu na compreensão da liberdade. Para grande parte da tradição ocidental, liberdade nunca significou simplesmente ausência de limites. A liberdade exigia também domínio sobre os próprios impulsos, responsabilidade pelas próprias escolhas e reconhecimento de uma realidade que existe independentemente de nossos desejos.

O indivíduo livre não era aquele que podia transformar qualquer vontade em direito, mas aquele capaz de governar a si mesmo. Quando essa compreensão começa a desaparecer, o limite deixa de ser visto como condição para o exercício responsável da liberdade e passa a ser tratado como inimigo a ser derrotado.

A contradição fica ainda mais aguda quando se observa que a mesma cultura que celebrou a libertação do indivíduo agora exige que instituições, ligas esportivas, escolas e empresas reconheçam e validem “identidades fluidas” como se fossem fatos objetivos. 

A revolução que começou desafiando autoridades externas terminou criando novas autoridades, apenas com premissas diferentes. É justamente nesse ponto que uma fazenda de 1969 e uma quadra de basquete de 2026 começam a pertencer à mesma conversa cultural.


Quando a liberdade encontrou a biologia. 

Entre Woodstock e a WNBA existem 57 anos de transformações, movimentos, ideias e disputas que jamais poderiam ser reduzidos a uma única linha causal. Existe, porém, uma continuidade intelectual que merece ser examinada. Se a liberdade é progressivamente compreendida como a capacidade de libertar o indivíduo de qualquer definição recebida, chega um momento em que a revolução encontra uma fronteira particularmente resistente: a própria realidade. 

O corpo humano passa então a ser tratado não como parte constitutiva de quem somos, mas como mais uma limitação diante da qual a vontade individual reivindica soberania — a última fronteira da revolução. O esporte tornou essa contradição impossível de esconder justamente por lidar com uma realidade mensurável. Cronômetros, força, velocidade, altura, massa muscular e desempenho não respondem a slogans. 

A categoria feminina existe para reconhecer diferenças físicas entre os sexos e permitir que mulheres tenham condições justas de competir. Defender essa categoria não diminui a dignidade de qualquer pessoa, assim como reconhecer diferenças biológicas não estabelece uma hierarquia de valor humano. Significa apenas aceitar que igualdade e diferença podem coexistir — uma conclusão perfeitamente normal até que a guerra contra os limites tornou o normal objeto de controvérsia. Biologia não é de esquerda ou direita.

Foi isso que Kanter e White perceberam. Ao anunciarem sua intenção de participar do recrutamento da liga feminina de basquete, eles retiraram a discussão do conforto das formulações abstratas e a entregaram a uma instituição que precisa estabelecer regras. Regras que deveriam proteger a realidade e não uma agenda ideológica ridícula que fere mulheres. Uma liga pode publicar manifestos sobre inclusão, organizar grupos de trabalho e condenar aqueles que considera agentes de má-fé, mas, em algum momento, precisa responder à pergunta objetiva sobre quem está autorizado a entrar em quadra. 

A WNBA anunciou que “continuará discutindo o tema com suas equipes”, enquanto as notícias provocadas pelos dois ex-atletas ganharam dimensão nacional.

Nada disso exige transformar Woodstock numa caricatura. A música foi extraordinária. A criatividade daquela geração é inegável. Muitos daqueles jovens desejavam sinceramente paz num país traumatizado.pela guerra, pelo conflito racial e pela violência política. 

Uma crítica conservadora séria não precisa fingir que tudo o que existia antes dos anos 1960 era bom para reconhecer que nem tudo o que foi destruído depois deles precisava desaparecer. Civilizações maduras são capazes de corrigir tradições injustas sem concluir que tradição é sinônimo de opressão, combater autoridades abusivas sem destruir a autoridade legítima e ampliar espaços de liberdade sem declarar guerra à responsabilidade, à natureza humana e à verdade. 

Esse talvez seja o ponto em que a coincidência entre Woodstock e a controvérsia da WNBA deixa de ser apenas uma curiosidade do calendário. Toda revolução contra os limites acaba, cedo ou tarde, encontrando um limite que não consegue abolir. Durante décadas, a cultura ocidental experimentou empurrar essas fronteiras cada vez mais longe. Agora, em alguns dos debates mais intensos do nosso tempo, chegou ao corpo humano. 

Os jovens que foram a Woodstock em 1969 queriam derrubar limites para descobrir quem realmente eram. Cinquenta e sete anos depois, duas antigas estrelas da NBA obrigaram uma instituição esportiva feminina a enfrentar uma pergunta que deveria ser infinitamente mais simples: o que é necessário para preservar uma categoria criada para mulheres? 

Woodstock prometeu liberdade sem fronteiras. Cinco décadas depois, a fronteira que se recusa a desaparecer é o corpo. E nenhuma liga esportiva, por mais inclusiva que pretenda ser, consegue abolir a biologia apenas por decreto. Woodstock não acabou. Só mudou de endereço. Agora que seus herdeiros encontram dificuldades até para explicar onde terminam a vontade individual e a realidade, talvez tenha chegado o momento de reconhecer algo essencial: nem todos os limites que aquela revolução derrubou eram, de fato, inimigos da liberdade.


 Ana Paula Henkel  - Revista Oeste