sexta-feira, 31 de julho de 2026

Guilherme Fiuza e 'A preferência pelo abismo'

 Para economistas que recomendaram o voto em Lula, parece haver um anestésico no ar


Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA


A rmínio Fraga fez duras críticas à conjuntura econômica sob Lula. Ou melhor: as críticas não são duras — dura é a realidade. Entre outras afirmações preocupantes, o ex-presidente do Banco Central (BC) disse esperar uma recessão em 2027. E informou que está recomendando a pessoas e empresas que não contraiam dívidas neste momento. 

Ou seja: um país com elevado nível de endividamento público e privado, com índices de inadimplência acima do aceitável numa economia sadia, marcha para uma situação de escassez que pode potencializar falências e insolvências. É um quadro grave. Mas não surpreendente.

O economista que salvou o Brasil na crise da maxidesvalorização do real em 1999 responsabilizou diretamente o presidente Lula (em quem ele votou) pela situação atual. Afirmou que nesta gestão, logo de saída, Lula “chutou o pau da barraca” do arcabouço fiscal. E destacou que problemas como a alta taxa de juros decorrem diretamente desse descompromisso com o controle do gasto público.




Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA


Economistas do quilate de Armínio Fraga têm falado pouco nos últimos três anos e meio. Para quem votou e recomendou o voto em Lula na última eleição — como fizeram os principais realizadores do Plano Real —, parece haver uma espécie de anestésico no ar. Se o “pau da barraca” foi chutado no início do mandato, seria de se esperar uma reação audível de figuras tão influentes diante do compromisso assumido. 

Antes da barraca do arcabouço ir ao chão, outro balde já tinha sido chutado: o do teto de gastos. Armínio e cia. certamente jamais se iludiram quanto às reais intenções de quem troca “teto” por “arcabouço” — até porque firula linguística nunca foi bom conselho de economia. De lá para cá, como todas as atas do Comitê de Política Monetária do Banco Central podem demonstrar, a coerência do governo foi férrea: gastar, tributar e gastar mais. Inflação sempre fora da meta, taxa de juros sem chance de queda consistente.

O quadro calamitoso que Armínio aponta agora veio sendo pintado ao vivo, pincelada por pincelada, desde 2023. Nenhuma surpresa — e menos ainda por serem todos conhecedores das obras completas do PT desde o início do século. Como assumir um compromisso público com uma tragédia anunciada? Segundo Armínio, seu voto em Lula não foi “econômico”. 

Ora, ele é conhecido e reconhecido como economista. Se o seu voto não foi econômico, seria de bom tom que ele tivesse avisado isso ao público, de forma bem clara e reiterada. Ou simplesmente ficado na dele, porque mesmo com um alerta desse tipo, a leitura de um voto anunciado por Armínio Fraga, Edmar Bacha, Persio Arida e cia. sempre será “econômica”. 


O economista Armínio Fraga, em audiência no Senado - Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado


Armínio disse que votou em Lula porque viu “sinais” preocupantes na política nacional. E diz que não se arrepende, dando a entender que repetiria o voto. Bem, se ele vê o país a caminho da ruína por desmandos do seu candidato e ainda assim não se arrepende, os tais “sinais” devem ser realmente terríveis. 

Prefiro o abismo — está dizendo o ex-presidente do BC. Para sustentar essa posição a dois meses da eleição, Armínio deve achar que os tais “sinais” monstruosos estão presentes na conjuntura atual. Seria interessante que pessoas inteligentes como ele passassem a mostrar concretamente onde está o perigo — não imaginado, mas visível a olho nu — porque ninguém está interessado em debater com fantasmas.

Guilherme Fiuza - Revista Oeste