A história começa a expor verdades incômodas sobre a pandemia
E m março de 2020, quando a Revista Oeste publicou suas primeiras reportagens, o mundo entrava numa das maiores crises sanitárias da história contemporânea. Pouco se sabia sobre o comportamento do novo coronavírus, sua letalidade, as melhores formas de tratamento ou as consequências que a pandemia teria para a economia, a educação e a vida social de bilhões de pessoas.
Diante de tantas dúvidas, seria natural que cientistas divergissem, estudos chegassem a conclusões diferentes e autoridades públicas revisassem recomendações. É assim que a ciência funciona. Hipóteses são formuladas, confrontadas, corrigidas e, muitas vezes, abandonadas. O problema começou quando a incerteza deixou de ser apresentada como parte do método científico e foi substituída por uma narrativa de infalibilidade. Questionar determinadas decisões deixou de ser tratado como parte legítima do debate público e passou a ser considerado uma ameaça à própria ciência.
Nenhuma figura simbolizou essa transformação de maneira tão evidente quanto Anthony Fauci. Durante décadas, Fauci construiu sua carreira como diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos. Na pandemia, ele ultrapassou a condição de burocrata especializado para se transformar numa das figuras mais influentes do planeta. Seus pronunciamentos passaram a orientar presidentes, governadores, prefeitos, universidades, empresas, organismos internacionais e veículos de comunicação. O que começava como uma coletiva de imprensa em Washington rapidamente se transformava em políticas públicas adotadas em dezenas de países.
Fauci tornou-se uma autoridade praticamente incontestável. A imprensa contribuiu decisivamente para essa transformação. Em vez de exercer a função de questionar o poder, grande parte dos veículos preferiu apresentar Fauci como a personificação da própria ciência. Discordar dele passou a significar, para milhões de pessoas, discordar do conhecimento científico. Foi nesse ambiente que nasceu a Oeste.
Enquanto boa parte da imprensa brasileira repetia as narrativas das grandes redações internacionais, Oeste insistia em fazer perguntas que deveriam ter sido feitas desde o primeiro dia. O vírus poderia ter escapado de um laboratório? Os lockdowns realmente apresentavam os benefícios anunciados? O fechamento prolongado das escolas produziria consequências irreversíveis para uma geração inteira? Havia conflitos de interesse na condução das pesquisas? Era correto censurar médicos cientistas e jornalistas simplesmente por apresentarem interpretações diferentes das autoridades sanitárias?
Levantar essas questões bastava para que qualquer pessoa fosse rotulada como negacionista, conspiracionista ou inimiga da ciência. Seis anos depois, a história começa a oferecer respostas incômodas. E a Oeste, mais uma vez, demonstra que sua maior premissa nunca foi defender uma narrativa, mas perseguir a verdade.
Foi essa convicção que nos levou a fazer perguntas quando quase ninguém mais aceitava fazê-las, a desconfiar do poder quando a maioria preferia reverenciá-lo e a lembrar que nenhum cientista e nenhuma autoridade está acima do escrutínio jornalístico. A verdade não pertence a governos, especialistas ou veículos de comunicação, e sim aos fatos. E é aos fatos que o jornalismo deve lealdade.
No último fim de semana, o senador americano Rand Paul tornou públicas mais de mil páginas do diário pessoal de Anthony Fauci, escritas entre dezembro de 2019 e dezembro de 2022. Os documentos passaram a integrar oficialmente a investigação conduzida pelo Senado americano e foram divulgados poucos dias antes de Fauci prestar depoimento diante da Comissão de Segurança Interna.
O que deveria ter ocupado manchetes em praticamente todos os jornais do mundo recebeu, no Brasil, um silêncio quase absoluto. E esse silêncio talvez seja tão revelador quanto o conteúdo dos documentos.
Poucos dias antes de deixar a Casa Branca, Joe Biden concedeu a Anthony Fauci um perdão presidencial preventivo. A medida chamou atenção justamente por seu caráter incomum. Perdões costumam ser concedidos depois de condenações ou, ao menos, quando há acusações formais. No caso de Fauci, tratava-se de uma proteção antecipada para eventuais crimes federais que viessem a ser investigados. Uma pergunta passou a ser feita por milhões de americanos: se não havia nada a temer, por que a necessidade de uma proteção tão ampla antes mesmo da conclusão das investigações?
As anotações de Fauci mostram que, ainda em janeiro de 2020, ele registrava que o mercado de Wuhan não parecia ser a origem da pandemia, mas apenas um local que amplificava a transmissão do vírus. Também documentam discussões internas sobre a possibilidade de uma origem laboratorial da covid-19 — questionamento absolutamente proibido durante e logo depois da pandemia.
Durante anos, essa hipótese foi considerada uma teoria conspiratória incompatível com a ciência. Redes sociais removeram conteúdos e derrubaram perfis, jornalistas foram silenciados, pesquisadores foram desacreditados e milhões de pessoas aprenderam que determinadas perguntas simplesmente não poderiam ser feitas. Hoje sabemos que essas perguntas estavam sendo feitas, desde o início, dentro do próprio círculo de Anthony Fauci.
Registra entrevistas concedidas, capas de revistas, participações na televisão, elogios e homenagens, encontros com personalidades e a repercussão de suas aparições públicas na pandemia. Chama atenção o encantamento com a própria projeção pública num período em que milhões de pessoas enfrentavam as consequências das decisões controversas tomadas pelas autoridades.
Enquanto pequenos empresários fechavam definitivamente as portas de seus negócios, crianças permaneciam meses longe das salas de aula, idosos morriam isolados sem a presença da família e trabalhadores eram obrigados a escolher entre seus empregos e procedimentos médicos impostos por empregadores, Fauci era apresentado pela imprensa como uma celebridade.
A histórica audiência no Senado Americano Dias depois da divulgação dos diários, veio outro episódio simbólico e igualmente ignorado pela imprensa no Brasil. Convocado para prestar depoimento ao Senado americano, Fauci apresentou uma breve declaração inicial. Em seguida, invocou a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos 111 vezes. A Quinta Emenda garante o direito de não produzir provas contra si mesmo. Fauci passou anos afirmando que não tinha nada a esconder e cooperaria com qualquer investigação.
Quando finalmente teve a oportunidade de responder às perguntas dos representantes eleitos da população, recusou-se a responder absolutamente a todas elas.
O senador Josh Hawley chegou a perguntar a Fauci qual era a cor de sua gravata e qual era a cor do carpete à sua frente. A resposta foi a mesma em todas as outras perguntas: “Com base na orientação de meus advogados, respeitosamente me recuso a responder com fundamento nos direitos garantidos pela Quinta Emenda da Constituição.”
Outros senadores questionaram Fauci sobre as mudanças de orientação em relação às máscaras, sua influência na adoção dos lockdowns, possíveis conflitos de interesse envolvendo pesquisas financiadas com recursos federais, prêmios em dinheiro recebidos durante a pandemia e sua participação nas discussões relacionadas ao famoso artigo The Proximal Origin of SARS-CoV-2, utilizado durante anos como uma das principais referências para desacreditar a hipótese da origem laboratorial. Nenhuma dessas perguntas recebeu resposta.
O senador Ron Johnson questionou Fauci sobre a avaliação da eficácia de medicamentos como a ivermectina e a hidroxicloroquina, e apresentou centenas de páginas de estudos clínicos para sustentar que evidências relevantes haviam sido ignoradas, descartadas e até reprimidas ao longo da pandemia. Johnson também levantou questionamentos sobre a forma como essas pesquisas foram analisadas e comunicadas ao público pelas autoridades de saúde, como se fossem uma afronta às recomendações de Fauci e uma ameaça à saúde. O médico também se recusou a responder a essas perguntas.
O episódio torna ainda mais difícil sustentar a imagem construída durante anos por parte da imprensa internacional. Afinal, Anthony Fauci nunca foi apenas um cientista oferecendo opiniões técnicas. Ele ocupava um cargo público, administrava bilhões de dólares em recursos federais, influenciava decisões políticas de enorme impacto econômico e social e exercia uma autoridade sem precedentes sobre o debate público.
O papel da verdadeira imprensa A pandemia expôs como uma parcela significativa da imprensa abandonou uma de suas funções mais importantes: desconfiar do poder. Em vez de investigar, muitos veículos passaram a proteger determinadas autoridades.
Em vez de estimular o debate, ajudaram a reduzir o espaço para discordâncias. Em vez de reconhecer que a ciência avança justamente pela contestação permanente de hipóteses, apresentaram interpretações provisórias como verdades definitivas e ajudaram a silenciar dissidentes políticos do sistema.
É justamente por isso que causa espanto o silêncio de boa parte da imprensa brasileira diante dos acontecimentos das últimas semanas, que deveriam ocupar espaço privilegiado em qualquer cobertura jornalística minimamente comprometida com o interesse público. Ignorar esses fatos não protege a ciência, a democracia e muito menos o jornalismo.
O papel de Anthony Fauci na pandemia continuará sendo debatido durante décadas. Mas talvez seu maior legado não esteja nas decisões que tomou ou deixou de tomar, e sim na maneira como sua trajetória revelou a facilidade com que sociedades livres podem transformar servidores públicos em autoridades imunes ao questionamento e como parte da imprensa pode abandonar sua vocação de fiscalizar o poder para se tornar sua principal defensora.
A Revista Oeste nasceu justamente quando essa transformação começava.
Seis anos depois, muitos dos questionamentos que lhe renderam ataques, censura e acusações infundadas deixaram de ser tratados como heresia. Voltaram a ser o que sempre foram: perguntas legítimas. Jornalismo puro.
A verdade pode demorar. Pode ser ridicularizada, censurada ou simplesmente ignorada por algum tempo. Pode até parecer derrotada diante da força de narrativas cuidadosamente construídas e amplificadas por governos, instituições e parte da imprensa. Mas ela possui uma característica que nenhuma narrativa consegue eliminar para sempre cedo ou tarde, volta a exigir que todos prestem contas. Quando esse momento finalmente chega, não importa quantas manchetes tenham sido escritas, quantas reputações tenham sido protegidas ou atacadas, ou quantas perguntas tenham sido silenciadas.
Os fatos permanecem. E é deles — sempre deles — que a história acaba se encarregando de fazer o julgamento final.
Ana Paula Henkel - Revista Oeste