quarta-feira, 29 de agosto de 2018

'Eleição de Bolsonaro ou volta do PT seriam tragédias', diz Elena Landau

Recém empossada como presidente 

nacional do movimento Livres, que 

defende a pauta da liberdade na 

economia e nos costumes, a economista

 afirma que encara o atual cenário 

político com 'apreensão'



A economista e advogada Elena Landau, recém-empossada como presidente nacional do movimento suprapartidário Livres, de orientação liberal, afirmou nesta quarta-feira, 29, que a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) ou a volta do PT seriam "duas tragédias para o País". Landau, que foi uma das principais economistas do PSDB por 25 anos e se desligou do partido em 2017, assumiu a liderança do movimento em 21 de agosto e disse que encara o atual cenário político com "apreensão". Ela também criticou o populismo das campanha nas eleições 2018. 
Nos anos 1990, Landau colaborou com o Programa Nacional de Desestatização e, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, foi diretora do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), onde atuou de 1994 a 1996. Em agosto de 2017, Landau endereçou uma carta ao PSDB escrita em conjunto com os economistas Edmar Bacha, Gustavo Franco e Luiz Roberto Cunha anunciando o desligamento da sigla. A carta dizia que o PSDB deixou "vazio o centro político ético de que o País tanto precisa" porque foi "incapaz de se dissociar de um governo manchado pela corrupção". 
O Livres defende a criação de "bancadas da liberdade" ao redor do País, com a defesa de temas como a igualdade de oportunidades, a redução do tamanho do Estado, mais eficiência na máquina pública e a desburocratização da economia. O grupo se define como liberal "por completo", tanto em temas econômicos quanto nos costumes. 
A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado:
O movimento Livres tem interesse de se tornar um partido no futuro?
No momento, descartamos a ideia de ser um partido. Existe uma enorme barreira à entrada do novo na política. Começar do zero é muito caro. Nossos associados não têm o perfil de construir um partido. Para montar um partido é preciso dezenas de milhões de reais.
A lei eleitoral é feita para se retroalimentar. Quem tem mais bancada ganha mais dinheiro, quem tem mais dinheiro ganha mais tempo de TV e por aí vai. Hoje, a gente acredita que é até melhor ser um movimento suprapartidário. Muitos potenciais apoiadores têm nos procurado porque isso dá mais liberdade. Mas isso não significa que o Livres abriu mão da ideia de atuação política. Temos a intenção de, ao longo do tempo e começando por essa eleição, termos 'bancadas da liberdade' ao redor do Brasil. 
O que seriam bancadas da liberdade?
Se o Congresso tem a bancada da bala, a bancada do boi, queremos ter também as bancadas da liberdade, que defendem o combate à burocracia, que propõem um Estado eficiente, mais próximo da população, com igualdade de oportunidades e facilidades para os empreendedores de todas as rendas.
E também defendemos a liberdade nos costumes, uma pauta mais progressista, com liberdade de expressão, casamento homoafetivo e legalização da maconha. Deixamos de usar a palavra liberal porque ela ficou distorcida, já que muitos candidatos conservadores que não têm nada de liberal usam essa palavra. O Livres trabalha para dar ao cidadão a possibilidade de ser dono de seu destino. 

Elena Landau
A economista Elena Landau, presidente do movimento Livres
Foto: Marcos de Paula/Estadão

Quais as metas do Livres para as eleições 2018?
Estamos com muita expectativa. Temos cerca de 40 candidatos em todos os níveis de governo. Temos muita capilaridade e nosso foco serão nos deputados estaduais. Mas, para 2020, quando estivermos mais consolidados, com grupos estruturados de governança, de política pública, com um conselho acadêmico, teremos mais força. 
Após o processo eleitoral, quais os planos?
Vamos fazer uma série de eventos com os associados, conselheiros, debates e dar mais visibilidade (ao Livres). Nossa ideia é acompanhar a votação de projetos que sejam compatíveis com a agenda da liberdade. Vamos municiar parlamentares com análises de projetos, idas ao Congresso, participação nas assembleias e debater projetos que tenham a ver com o que defendemos. Não é só um grupo conceitual, teremos uma participação concreta. 
De onde vem a cor roxa do movimento Livres?
Em geral, as pessoas dizem que a pauta progressista está na esquerda, simbolizada pela cor vermelha. E tem um grupo de pessoas com ideias liberais na economia que são representadas pela cor azul. 
Como a sra. avalia o atual quadro político brasileiro? 
Encaro com muita apreensão porque vejo nos dois candidatos que lideram as pesquisas (Lula e Bolsonaro) a gravidade da situação fiscal. A volta do PT ou a eleição de Bolsonaro seriam duas tragédias. O Centro tem que se unir porque, caso contrário, vai acabar empurrando os extremismos para o segundo turno.
Depois de termos passado por Mensalão, Petrolão, pela recessão, achei que seria diferente, mas começou a campanha e virou populismo de novo. Ninguém quer ouvir quem fala a verdade. Aí surgem ideias mirabolantes como resolver a dívida pública vendendo todas as estatais.
Vem o Ciro Gomes (PDT) com a proposta de tirar todo mundo do SPC, mas alguém vai ter que pagar essa conta. São ideias falsas que dão errado. Se puxar de um lado, falta do outro. Depois, o PT vem com essa história de campanha de uma pessoa claramente inelegível aparecendo nas pesquisas. Isso confunde os eleitores.
O Fernando Haddad, que era considerado moderado, está falando as coisas mais impensáveis para se legitimar dentro do próprio partido. Então, eu estou muito pessimista.
Ao mesmo tempo, a sra. costuma defender uma agenda positiva da política...
Não adianta entrar na política com desprezo pela política, com esse discurso do "renova tudo, falando que nenhum político presta", cheio de ataques a adversários. Nem todo parlamentar é ruim e não precisa renovar tudo porque também tem muita gente boa no Congresso e na política. Defendemos uma agenda mais pragmática.

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo