sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

'A grande ideia de Nikolas', por Edilson Salgueiro

A caminhada improvisada de 250 quilômetros até Brasília colocou na estrada milhares de brasileiros que saíram da apatia e perderam o medo de lutar pela liberdade


Nikolas Ferreira durante a Caminhada pela Liberdade. O trajeto foi de Paracatu (MG) até Brasília | Foto: Vitor Liasch/Gabinete do vereador Lucas Pavanato 


C omo levar novamente o povo para as ruas? A ideia de organizar uma ampla manifestação popular surgiu pela primeira vez em julho do ano passado, quando o deputado federal Nikolas Ferreira refletia sobre a escalada do autoritarismo judiciário no país. Naquele momento, dois anos e meio depois dos protestos de 8 de janeiro de 2023, o debate público parecia travado, as mobilizações de rua haviam perdido eficácia e os brasileiros davam sinais de apatia e esgotamento político. 

Mas foi só poucos dias atrás que a proposta de uma marcha até Brasília ganhou forma. Não haveria palanque, caminhão de som nem aparato profissional de mobilização. Tampouco haveria custos, verbas partidárias ou negociações com autoridades para viabilizar o evento. Nikolas decidiu simplesmente ir. E, em 19 de janeiro, ele foi.

Vestindo camiseta branca, calça jeans clara e tênis preto, Nikolas pisou na BR-040 junto com o nascer do sol. Aquele foi o primeiro passo da jornada de 250 quilômetros que o levou da cidade de Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, até a Praça do Cruzeiro, mirante de onde se avistam o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Começou quase sozinho, ao lado de poucos assessores e sem grandes preparativos. Aos poucos, moradores das cidades cortadas pela rodovia passaram a se juntar ao cortejo. Depois, vieram caravanas improvisadas e gente sozinha. Políticos de partidos de oposição também decidiram aderir ao grupo — alguns logo no início, outros apenas nos quilômetros finais. 

Em 25 de janeiro, um domingo, quando chegou ao destino, Nikolas estava acompanhado de cerca de 50 mil pessoas de todas as partes do Brasil. O foco do protesto, que acabou se consolidando como uma das maiores mobilizações populares da história recente do país, foi o pedido de liberdade para o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso e condenado pela suposta tentativa de golpe nas eleições de 2022.


. Dr. Simon Goddek @goddek · Seguir Remember the scene where Forrest Gump starts running and thousands of people end up following him? The future Brazilian president @nikolas_dm did something similar. He started a protest by walking alone all the way to Brasília: against the left, corruption, communism, and Mostrar mais 




Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro participaram da Caminhada pela Liberdade e Justiça, liderada pelo deputado Nikolas Ferreira - Foto: Reuters/Mateus Bonom


O percurso revelou desafios pouco captados nos registros editados das redes sociais. Nos primeiros dias, o desgaste físico se impôs rapidamente. Vestidos com roupas comuns, inadequadas para longas caminhadas, muitos participantes ajustaram o passo à medida que o corpo dava sinais de exaustão. Com o avanço da marcha, surgiram dificuldades de organização. Crianças e idosos tentavam acompanhar o grupo; apoiadores buscavam aproximação constante. Em alguns trechos, foi necessário interromper a caminhada para improvisar cordões humanos e evitar acidentes na rodovia. Houve dias de chuva, frio e cansaço acumulado. Oeste acompanhou a manifestação in loco (clique neste link para saber os detalhes). 

Ao longo da caminhada, Nikolas passou a receber manifestações públicas de apoio das principais lideranças conservadoras. A exprimeira-dama Michelle Bolsonaro, por exemplo, divulgou vídeos para elogiar a iniciativa e Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, destacou o simbolismo do ato. Em Minas Gerais, o governador Romeu Zema endossou publicamente a marcha até Brasília. Já o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, gravou vídeos para parabenizar a mobilização, enquanto o ex-vereador Carlos Bolsonaro, pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, participou da marcha. A caminhada cessou ao menos temporariamente as rusgas entre os representantes da direita e os uniu em torno de um objetivo comum. 

Essa capacidade de mobilização se traduz em cenas recorrentes no cotidiano do Congresso. O gabinete de Nikolas, no sétimo andar do Anexo IV da Câmara, é ponto de passagem para candidatos de diferentes regiões do país. Há relatos de filas que ultrapassam quatro horas apenas para a gravação de um vídeo curto ou para uma fotografia ao lado do parlamentar. Quando a agenda de votações o mantém no plenário, os interessados o acompanham pelos corredores. O roteiro é sempre o mesmo: Nikolas olha para a câmera do celular, menciona o nome do candidato, pede voto e segue para o próximo. Em eventos públicos, a dinâmica se repete em escala ampliada. Em uma única passagem por Belo Horizonte, o parlamentar gravou mais de 200 vídeos de apoio em um mesmo dia. Mas não são só apoiadores anônimos que se beneficiam dessa popularidade: deputados como Luciano Zucco e Filipe Barros, ambos com trajetória consolidada na política, relatam ter usado a influência de Nikolas para gravar dezenas de mensagens de apoio. O parlamentar virou ativo de campanha dentro do Partido Liberal (PL).


Em nome do pai 

Nascido em Belo Horizonte, em 1996, Nikolas cresceu na região da Cabana do Pai Tomaz, uma das maiores favelas da capital mineira. O bairro, marcado pela forte presença de igrejas evangélicas, funciona como espaço de convivência comunitária, onde atividades religiosas e familiares estruturam a vida social. Nesse contexto, o pai de Nikolas, pastor Edésio de Oliveira, teve papel central na formação religiosa e moral do filho. A rotina era marcada por cultos e leituras bíblicas. Hoje, Nikolas costuma dizer que a formação familiar o forjou para a vida real. Sob orientação do pai, aprendeu a falar em público, a sustentar argumentos e a confrontar ideias distintas. 

Antes de se dedicar integralmente à vida religiosa, Edésio, que vem de uma família de 12 irmãos, construiu trajetória no setor industrial. Começou a carreira como of ice-boy em empresas ligadas ao grupo Fiat e, posteriormente, passou a atuar na New Holland, fabricante de tratores. Ao longo dos anos, ascendeu a funções técnicas e de gestão. Chegou a começar a graduação em engenharia mecânica e, mais tarde, prestou vestibular para psicologia, ao mesmo tempo em que mantinha atuação como obreiro na Assembleia de Deus. Em 2008, Edésio assumiu um setor da New Holland com escritório instalado na França. 

A mudança levou a família a viver nos arredores de Paris por cerca de um ano. Nesse período, Nikolas e a irmã mais velha estudaram em colégio bilíngue, com ensino em francês e inglês. A experiência no exterior terminou quando Edésio decidiu retornar ao Brasil para atender ao que descreve como um chamado pessoal: dedicar-se integralmente à Comunidade Evangélica Graça e Paz, igreja que havia fundado anos antes. A família retornou para a mesma casa onde morava em Cabana do Pai Tomaz.


Nikolas, com a filha Aurora no colo, ao lado do pai, Edésio, e da mãe, Ruth - Foto: Reprodição/X



A educação formal de Nikolas ocorreu em escolas particulares, com bolsas de estudo. Mais tarde, cursou Direito na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Ali, a vida mudou. O episódio que o projetou nacionalmente ocorreu em 2013, quando tinha 17 anos. Incomodado com uma prova de sociologia que abordava identidade de gênero, o então universitário escreveu um texto crítico no Facebook. Encerrou a publicação com uma frase do escritor Nelson Rodrigues: “Sou reacionário, sim. Reajo contra tudo que não presta”. 

O texto viralizou, foi reproduzido por sites conservadores e chamou atenção do movimento Escola Sem Partido e de integrantes da família Bolsonaro. Ainda na PUC-MG, Nikolas participou ativamente de eventos acadêmicos e debates públicos. Em uma dessas ocasiões, pediu a palavra em um encontro universitário que contava com a presença do teólogo comunista Leonardo Boff, criticou os participantes e acabou retirado do local.

Sob influência do filósofo Olavo de Carvalho, Nikolas decidiu ampliar o repertório intelectual e passou a ler autores associados à esquerda, como Karl Marx e Antonio Gramsci. A ideia era compreender o que interpretava como a presença de um projeto ideológico na educação, na cultura e na produção artística. Esse percurso intelectual contribuiu para o desenvolvimento de uma visão crítica sobre a atuação da mídia, do entretenimento e das instituições educacionais. 

Durante a passagem pela universidade, Nikolas era descrito por colegas e professores como um aluno participativo, que questionava conteúdos em sala de aula sem recorrer a confrontos pessoais. Em debates sobre temas científicos e filosóficos, como a teoria da evolução, expunha discordâncias a partir de convicções religiosas. Fora da sala de aula, mantinha rotina discreta. Frequentava encontros com amigos, mas evitava consumo de álcool e dizia ter o desejo de se casar antes de iniciar a vida sexual, posicionamento que apresentava como coerente com a educação recebida em casa.


A ascensão política 

Nos anos seguintes, Nikolas aproximou-se de movimentos conservadores em Minas Gerais e ajudou a organizar encontros com jovens lideranças políticas. O coletivo Direita Minas, do qual era integrante, participou das manifestações pelo impeachment da expresidente Dilma Rousseff, em 2016. Antes de disputar cargos eletivos, Nikolas atuou como assessor parlamentar do deputado federal Junio Amaral, que havia conhecido nos anos de militância política. 

A experiência durou dois anos, de 2018 a 2020. Depois, seguiu voo solo e elegeu-se vereador em Belo Horizonte. No mandato, obteve visibilidade por meio de discursos incisivos, confrontos em plenário e projetos ligados a pautas culturais. Mais tarde, em 2022, tornou-se deputado federal com votação recorde, a maior do país naquele pleito. Em Brasília, manteve a estratégia que o havia projetado: comunicação direta, temas de forte apelo popular e presença constante nas redes sociais.


Nikolas Ferreira ao lado de Bruno Engler, atualmente deputado estadual por Minas Gerais, e do ex-deputado estadual paulista Douglas Garcia - Foto: Arquivo Pessoal 


Nikolas consolidou-se como um dos políticos com maior alcance digital. Seus perfis somam milhões de seguidores e alto engajamento, principalmente entre jovens e evangélicos: Instagram (20 milhões), TikTok (8,5 milhões), X (5,5 milhões), Facebook (3,3 milhões) e YouTube (2,5 milhões). A leitura estratégica das redes acompanha sua atuação institucional. São vídeos curtos, com linguagem simples e timing ajustado ao noticiário. 

Em janeiro de 2025, por exemplo, diante da iminência do monitoramento do Pix pelo governo Lula, o deputado divulgou um vídeo em todas as plataformas para denunciar a nova cruzada petista contra os pobres. Foram 200 milhões de visualizações em 24 horas — audiência superior à verificada em publicações do marqueteiro Sidônio Palmeira, chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom); de todos os telejornais do Grupo Globo somados, incluindo as transmissões da TV fechada e do streaming; e até mesmo as postagens da cantora Anitta. 

A caminhada até Brasília também se encaixa nesse método. Nikolas apostou em uma manifestação contínua, capaz de gerar narrativa diária e manter atenção constante dentro e fora do ambiente virtual. Não por acaso, a manifestação uniu diferentes segmentos da direita em torno de um mesmo propósito, ainda que temporariamente. Influenciadores, parlamentares e líderes religiosos compartilharam imagens da marcha. 

Fora da internet, Nikolas é um brasileiro comum. Torcedor declarado do Cruzeiro Esporte Clube, acompanha futebol com entusiasmo. Na música, tem preferência pelos astros norte-americanos Michael Jackson e Whitney Houston. Casado com a modelo Lívia Bergamim Orletti, Nikolas é pai de duas meninas. Apesar da intensa atividade no universo digital, evita expor a vida privada. 

Paralelamente à atuação política, Nikolas investiu na produção editorial. É autor de O cristão e a política: descubra como vencer a guerra cultural, obra em que defende a participação ativa de cristãos na vida pública e sustenta que disputas políticas contemporâneas passam sobretudo por valores morais e culturais. Mais recentemente, lançou Criando filhos para o amanhã, escrito em parceria com os pais, Edésio de Oliveira e Ruth Ferreira, no qual aborda temas ligados à educação familiar, à formação moral e à transmissão de princípios religiosos às novas gerações. Nikolas também investiu na produção editorial destinada às famílias e às crianças. 

Em parceria com a deputada estadual catarinense Ana Campagnolo, lançou os livros infantis Ele é Ele e Ela é Ela, publicados pela Editora Vida. As obras foram concebidas como material de apoio para pais e educadores interessados em abordar temas ligados à identidade e à formação moral a partir de valores cristãos. 

Aos 29 anos, Nikolas deve se reeleger como deputado federal nas eleições de outubro. Em razão da idade, está impedido de disputar uma vaga no Senado. A escalada será possível apenas em 2034, quando terá mais de 35 anos. Se depender das lideranças do PL, contudo, o voo será ainda mais alto. O partido quer elegê-lo presidente da República.



Nikolas Ferreira ao lado da mulher, Lívia, e das duas filhas pequenas - Foto: Reprodução/Instagram