sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

'Imprensa velha adormecida', por Elizário Goulart Rocha

 Os "veículos tradicionais" só se interessaram pela caminhada liderada por Nikolas Ferreira quando um fenômeno da natureza abriu as portas para notícias negativas


Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução Globo/Freepik/IA

E nquanto o deputado federal Nikolas Ferreira liderava uma marcha de 250 quilômetros, os chamados “veículos tradicionais” fingiam não ver a mobilização dos brasileiros cansados do atual cenário nacional. A Caminhada pela Liberdade, que saiu do município de Paracatu, em Minas Gerais, com destino a Brasília, não despertou o devido interesse de quem costuma nada enxergar onde tudo há para ver. Milhares de vozes ecoando o bordão “Acorda, Brasil!”, ao longo de uma semana, por vezes sob sol inclemente ou chuva torrencial, não bastaram. 

O assunto só chamou a atenção da imprensa velha adormecida quando um fenômeno natural ofereceu a oportunidade de abordá-lo de forma negativa. No domingo, 25, o programa Fantástico, da TV Globo, acabara de exibir uma reportagem sobre a queda de um raio na Praça do Cruzeiro, em Brasília, que atingiu dezenas de participantes da caminhada, muitos dos quais tiveram de receber atenção hospitalar. 

Na sequência, entrou no ar a imagem das apresentadoras Maju Coutinho e Poliana Abritta, que anunciaram matéria sobre os 60 anos de carreira do ator Antônio Fagundes. 

Seria normal que ambas exibissem um sorriso protocolar ao falar da homenagem a um colega. No entanto, Maju parecia tentar disfarçar um riso excessivo para quem acabara de assistir a uma notícia dramática e que poderia ter se convertido em tragédia.

Ainda que a risada não tivesse relação com o raio, qualquer pessoa com um mínimo de experiência em televisão — ou de bom senso — sabe que apresentadores devem se manter sérios antes, durante e depois de uma notícia negativa. E Maju tem quase 20 anos de Globo. Entre os que estão fartos do governo Lula, do atual STF e do Legislativo de sempre, pegou muito mal. Já os que acham que está tudo certo no Brasil, maravilha da propaganda oficial, nada viram de mais. Ao contrário, sentiram-se representados. Vibraram com o raio como se comemorassem um gol. O comportamento da imprensa velha atende às expectativas de quem, entre seres humanos e um raio, torce pelo raio.

A GloboNews também aproveitou para criticar os organizadores da caminhada. “As lideranças do evento, especialmente o deputado Nikolas Ferreira, deveriam ter suspendido o evento, para dar segurança aos liderados”, disse Gérson Camarotti, um dos principais comentaristas da emissora. Aproveitou para falar dos perigos de caminhar ao longo de uma rodovia, e até mesmo de uma eventual aproximação da área da Papudinha: “Tinha um grupo que achava que poderia chegar até lá”, afirmou, condenando algo que não aconteceu.


GloboNews - As lideranças do evento, especialmente o deputado Nikolas Ferreira, deveriam ter suspendido o evento, para dar segurança aos liderados”, diz @gcamarotti. Raio deixou 34 manifestantes feridos, sendo oito em estado em grave. Assista na #GloboNews: glo.bo/39WjXAu Assista no X 6:26 PM · 25 de jan de 2026 2,8 mil Responder Copiar link para o post Ler 2,2 mil respostas 30/01/2026, 11:56 


Depois de visitar os feridos no hospital, Nikolas foi cercado por repórteres das mais variadas origens. A cena deveria ter sido comum ao longo da caminhada e poderia ser celebrada como um bom sinal, ainda que tardio, caso a pauta dos jornalistas ali presentes fosse dar eco ao grito por liberdade dos milhares de manifestantes. Só que não. Na grande maioria, estavam ali pelo raio. “Eu não vi muitos de vocês na caminhada, durante sete dias, e agora, quando acontece um incidente natural, aí vocês aparecem”, disse o deputado. “É muito previsível o que essa parte da mídia faz, porque no fim das contas é querer destruir a imagem de um movimento que foi muito sério, muito bonito.” 

Oeste, conforme tem feito desde sua criação, viu o que tinha de ser visto e realizou ampla cobertura da caminhada, desde os preparativos até o encerramento, bem como segue acompanhando as repercussões. Além de abordar o tema em todos os seus espaços, durante cinco dias, o repórter Gabriel de Souza e o cinegrafista Gabriel Nery Reis marcharam lado a lado com os manifestantes, o que rendeu inúmeras entradas ao vivo na programação do canal no YouTube, matérias no site e postagens nas redes sociais da revista.


Gabriel de Souza - Está na chuva, é para se molhar Um pouco da minha cobertura na Revista Oeste sobre a caminhada do Nikolas Ferreira pela liberdade


Além de Oeste, poucos veículos cumpriram seu papel de mostrar as coisas como as coisas são. O site Metrópoles acompanhou a caminhada de perto, o SBT se fez presente, Gazeta do Povo e Jovem Pan também deram cobertura. Uns poucos passaram a noticiar apenas quando a marcha se aproximava da capital federal, ou quando o ministro do STF Alexandre de Moraes proibiu manifestações e acampamentos próximos à Papudinha, onde o ex-presidente Jair Bolsonaro está preso. O restante, de modo geral, ignorou o movimento ou o relegou a pequenas notas sem destaque até a natureza abrir as portas para manchetes supostamente negativas para a caminhada e seus organizadores.

Se a “grande” mídia ignora ou minimiza eventos que não interessam à sua agenda, veículos de variados portes espalhados pelo país, bem como influenciadores por meio de seus canais no YouTube e nas redes sociais, ajudam a dar voz a grande número de brasileiros. Também colaboram para desnudar este círculo de omissão. “O silêncio da mídia tradicional revela um tratamento desigual e levanta questionamentos sobre pluralidade e liberdade editorial”, questionou, por exemplo, a Rádio Liberdade de Água Boa, Mato Grosso.




A maioria da mídia tratou com frieza, ou relegou ao mínimo espaço possível, a Caminhada pela Liberdade, deixando evidente, mais uma vez, a discrepância entre a mobilização registrada nas ruas e o que ganha destaque nos noticiários. Em tempos já difíceis para veículos de comunicação tradicionais devido às facilidades oferecidas pela internet, onde cada um pode ter e ser seu próprio canal, os avanços das redes sociais, a inteligência artificial e tudo o mais que vem por aí, ignorar milhões de vozes será cada vez mais um péssimo negócio. 

A recusa em enxergar a manifestação como fato político relevante não é descuido jornalístico, mas escolha editorial, e revela, mais uma vez, que a imprensa velha não dorme por cansaço, mas por conveniência. Mas o menosprezo não muda os fatos. O Brasil real segue caminhando enquanto parte da mídia insiste em dormir. 


Elizário Goulart Rocha - Revista Oeste