Seitas jamais sobrevivem à partida do seu único deus
Q uando Lula morrer, o que restará do Partido dos Trabalhadores? Nada. Ou zero vezes zero, diria J. R. Guzzo. O PT nunca foi um partido. É uma seita que agrupa os praticantes do lulopetismo. Não são militantes. São devotos de um palanque ambulante promovido a único deus. Condenado por ladroagem em três instâncias, ele seguiu baixando ordens que os lulopetistas engolem sem engasgos e executam sem resmungos. É assim desde 1980, quando foi rezada a missa negra inaugural. E assim será enquanto estiver viva a divindade de botequim.
Da escolha do candidato a prefeito de Potirendaba ao novo ministro das Relações Exteriores, passando pelos tesoureiros das sucursais mais rentáveis do PT, tudo é decidido pelo primeiro presidente da República que fugia da escola com a velocidade de um Usain Bolt. “Não estudei por preguiça”, contou numa entrevista ao diretor de teatro Flávio Rangel. “Acho leitura pior que exercício em esteira”, confessou em outro vídeo. Como isto aqui é o Brasil, um Macunaíma que jamais leu um livro e não sabe escrever elegeu-se presidente da República. Três vezes.
Na cabeça baldia de Lula, nunca houve lugar para elaborações ideológicas, programas administrativos, projetos de país ou planos de governo. Há espaço de sobra para o mundaréu de ideias de jerico, vigarices eleitoreiras, alianças cafajestes e todas as formas de tapeação, concebidas para garantir o voto de milhões de brasileiros condenados à ignorância por um sistema de ensino mambembe e aprisionados pela dependência de adjutórios federais. Para a clientela do Bolsa Família, por exemplo, ser feliz é não morrer de fome — sem trabalhar.
“É o maior programa oficial de compra de votos do mundo”, constatou há anos o ex-governador de Pernambuco Jarbas Vasconcelos. Param por aí os sonhos dos desvalidos que ainda enxergam um Pai dos Pobres na mais gulosa Mãe dos Ricos (que, aos 80 anos, quer desfrutar por mais cinco dos palácios de Brasília). Os bolsistas do lulopetismo nem sabem que existe uma Nova York. Não sabem sequer para que serve um documento chamado passaporte. Não fazem ideia do que é zanzar entre nuvens nos jatinhos de amigos ricaços.
É improvável que saibam que o padrinho é o primeiro presidente
brasileiro preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Tampouco sabem que deixaram de existir nos anos em que a seita
esteve fora do poder. “Tirei 60 bilhões da pobreza em oito anos na
Presidência”, jurou numa discurseira recente. (Como há cerca de 8,3
bilhões na Terra, decerto buscou o resto em outros planetas. Não
revelou quais.) “Com o Bolsonaro no governo, os pobres voltaram”, foi
em frente. “Tive de tirar 30 milhões outra vez”. E os bilhões que
existiam na conta anterior? Ninguém sabe.
Quem faz uma coisa dessas não poderia ficar fora do elenco que anda fazendo o diabo no épico caso Master.
É o primeiro faroeste à brasileira com tempero pornopolítico. Junta banqueiros larápios, ministros do Supremo Tribunal Federal, mulheres, filhos, irmãos e cunhados de juízes do STF, advogados que cobram em dólares por segundo, garotas de programa, policiais federais que descobrem bandalheiras escondidas por um procuradorgeral que nada procura, jornalistas alugados, blogueiros que atiram nos inimigos do freguês e matam a gramática e a ortografia, surubas restritas à turma do grupo A e até um padre implorando por excomunhão.
O ministro Dias Toffoli faz bonito no papel de esconderijo de provas. Os episódios históricos mais relevantes atestam que o país foi construído sem povo e sem partidos de verdade. Durante o longo reinado de D. Pedro II, as diferenças entre ministérios formados por liberais e conservadores eram tão pálidas que, caso os dois partidos se fundissem num só, nem o imperador notaria. E o povo contemplava a paisagem política de longe e em silêncio, como um figurante sem direito a falas. Foi assim quando a monarquia foi trocada pela república. “O povo assistiu aquilo bestializado, como se fosse uma parada militar”, resumiu Aristides Lobo, jornalista e integrante do então esquálido Partido Republicano.
Sempre à espera do Homem Providencial, capaz de resolver sozinho e em pouco tempo os problemas passados, presentes e futuros do país, o eleitorado frequentemente forma agrupamentos cuja denominação deriva do prenome do líder. Tivemos o janismo, o brizolismo, o getulismo e outros “ismos”. Só os partidários de Getúlio Vargas conseguiram que o presidente suicida sobrevivesse politicamente à morte física e continuasse a influenciar disputas eleitorais quando haviam chegado os anos 1960. Ciumento como todo populista, Lula impediu o surgimento de possíveis herdeiros. E não seguiu o exemplo de Getúlio, autor da carta-testamento que serviu de guia para devotos. inconformados.
Como um bebê de colo, o octogenário Lula não sabe escrever.
Augusto Nunes - Revista Oeste