E a Cracolândia, quem diria?, agora virou ponto turístico da nobreza europeia. Chega a ser asqueroso! É o jeito como a esquerda trata a miséria…
Há coisas que são indecentes em si; que não têm conserto.
Príncipe Harry — o ruivo, que não lembra a Família Real Britânica — começa nesta
segunda uma visita ao Brasil. Trata-se, informa o Itamaraty, de uma viagem
privada, que começa por Brasília. Na cidade, ele vai conhecer o Centro
Internacional de Neurorreabilitação Sarah. Depois, assiste à partida entre as
Seleções do Brasil e de Camarões. Também passará por São Paulo. E, consta, a seu
pedido, pediu para ir à Cracolândia. O prefeito Fernando Haddad (PT) vai levá-lo
para conhecer o programa “Braços Abertos” — também conhecido como “Bolsa
Crack”.
Os príncipes são assim mesmo. Entediados
coma vida castelã, procuram terras ignotas para conhecer coisas estranhas. Que
bonito! O inferno de São Paulo agora virou ponto turístico para distrair a
nobreza europeia. Cuidado, hein!? Harry pertence àquele lado da Família Real que
tem, como a gente diz no interior, o “chifre furado”. Vai que se encante com
esse pedaço do território brasileiro que é regido por leis próprias, onde
bobagens como a Constituição e o Código Penal não valem…
Não conheço nada mais essencialmente imoral do que
miséria que se transforma em ponto turístico, sejam os morros do Rio, a
periferia de São Paulo ou, no caso extremo, a Cracolândia.
Por incrível que pareça, a esquerda e seus congêneres
regrediram moralmente. Já lhe falei aqui sobre essa canção e volto ao assunto.
Carlos Lyra e Giafrancesco Guarnieri compuseram um clássico da música de
protesto na década de 60 — acho que foi em 1964 mesmo. A música se chama “O
Morro”, mas ficou conhecida como Freio não é bonito. Vale a pena ouvi-la na voz
de Nara Leão. Volto em seguida.
Voltei
A
letra está aqui:
Salve as belezas desse meu Brasil
Com seu passado e tradição
E salve o morro cheio de glória
Com as escolas que falam no samba
Da sua história.
Salve as belezas desse meu Brasil
Com seu passado e tradição
E salve o morro cheio de glória
Com as escolas que falam no samba
Da sua história.
Feio, não é bonito
O morro existe
Mas pede pra se acabar
Canta, mas canta triste
Porque tristeza
E só o que se tem pra contar
Chora, mas chora rindo
Porque é valente
E nunca se deixa quebrar
Ah, ama, o morro ama
Um amor aflito, um amor bonito
Que pede outra história
Salve as belezas desse meu Brasil
Com seu passado e tradição
E salve o morro cheio de glória
Com as escolas que falam no samba
Da sua história
O morro existe
Mas pede pra se acabar
Canta, mas canta triste
Porque tristeza
E só o que se tem pra contar
Chora, mas chora rindo
Porque é valente
E nunca se deixa quebrar
Ah, ama, o morro ama
Um amor aflito, um amor bonito
Que pede outra história
Salve as belezas desse meu Brasil
Com seu passado e tradição
E salve o morro cheio de glória
Com as escolas que falam no samba
Da sua história
Feio, não é bonito
O morro existe
Mas pede pra se acabar
Canta, mas canta triste
Porque tristeza
E só o que se tem pra contar
Chora, mas chora rindo
Porque é valente
E nunca se deixa quebrar
Ah, ama, o morro ama
Um amor aflito, um amor bonito
Que pede outra história
O morro existe
Mas pede pra se acabar
Canta, mas canta triste
Porque tristeza
E só o que se tem pra contar
Chora, mas chora rindo
Porque é valente
E nunca se deixa quebrar
Ah, ama, o morro ama
Um amor aflito, um amor bonito
Que pede outra história
Pois é… Dá para perceber o sotaque de certa demagogia
redentora na letra, é inescapável. Mas ainda é mais decente do que a atual
abordagem que boa parte das esquerdas — em companhia dos deslumbrados
“progressistas” — dispensa à pobreza, que foi transformada num novo saber, numa
estética particular e até numa ética peculiar. O ponto alto dessa abominação na
TV é o tal “Esquenta”, de Regina Casé, a expressão mais rastaquera da
antropologia populista. É o asfalto endinheirado deitando seu olhar supostamente
tolerante e compossível sobre a pobrada. É asqueroso!
Para a “nova” esquerda brasileira, o feio é bonito, sim!
E tem de ser mostrado ao mundo, como acontece com os passeios turísticos de
estrangeiros pelas favelas pacificadas e, agora, com a visita do príncipe à
Cracolândia.
Com a devida vênia, uma ocorrência como essa é a
expressão mais acabada da falta de vergonha na cara. E
ponto!