sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Adriano Pires: ‘Há ingerência de Lula na Petrobras'

Especialista no setor de energia aponta ‘sanha intervencionista’ do governo, critica política de subvenção aos combustíveis e defende capitalização da companhia nos moldes da Eletrobras


Adriano Pires, sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE)-| Foto: Divulgação/CBIE 


E m pleno ano eleitoral, o governo Lula não se constrange em interferir cada vez mais na Petrobras e continua apostando em uma política “equivocada e populista” de subsídios aos combustíveis para segurar a alta dos preços, principalmente da gasolina e do diesel. A avaliação é do economista Adriano Pires, sóciofundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e um dos maiores especialistas do país no setor de energia. 

Em entrevista a Oeste, Pires afirma que as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio mudaram profundamente o funcionamento do mercado de petróleo, levando a um “novo normal” caracterizado por forte oscilação na cotação da commodity e maiores riscos inflacionários. “Claramente, há uma ingerência do Lula na Petrobras e isso é muito grave. Ele não está preocupado com o acionista da empresa. Está preocupado com o governo dele e em se reeleger”, critica. 

Pires diz que o modelo de empresa de capital misto da Petrobras, que combina participação de Estado e mercado — no qual o governo detém a maioria das ações com direito a voto e comanda o negócio, mas que permite que qualquer pessoa possa comprar papéis da companhia na Bolsa de Valores —, está esgotado, não gera riqueza ao país e precisa ser reformulado.


Foto: Roberto Rosa/Agência Petrobras


O Preço médio do barril de petróleo tipo Brent, referência para o mercado internacional, teve alta de 54% no segundo trimestre de 2026 e atingiu US$ 104. Até onde ele pode chegar? 

O mundo está vivendo um “novo normal” que se caracteriza por grandes mudanças na geopolítica do mercado de petróleo. Essas mudanças começaram com a guerra entre Rússia e Ucrânia. Os russos são grandes produtores de petróleo, gás natural e fertilizantes. Houve uma série de sanções para a Rússia não vender mais gás e diesel para a Europa. A partir daí, ocorreu uma reorganização do mercado. O gás natural começou a ser mais direcionado ao mercado asiático, principalmente para a China. As sanções à Rússia mostraram que o gás deixou de ser mera fonte de energia e se tornou insumo estratégico para a produção de fertilizantes. Qualquer interrupção no abastecimento energético pode prejudicar a produção agrícola e fazer a inflação de alimentos acelerar. Em seguida, tivemos o conflito entre EUA e Irã, que já dura seis meses e ninguém sabe quando vai terminar. Passamos a ter oscilações muito grandes do preço do petróleo, dependendo basicamente das negociações entre norte-americanos e iranianos em torno do Estreito de Ormuz, canal marítimo estratégico pelo qual passa cerca de 20% a 30% do petróleo mundial. No fundo, o conflito é logístico. Não falta petróleo. Falta rota para transportá-lo. É um cenário ruim porque a inflação aumenta, a taxa de juros sobe e a economia tem crescimento menor. Não se sabe ao certo onde isso vai parar. Vamos continuar vivendo nessa gangorra.


De que forma isso impacta a economia brasileira? 

Esse processo afeta o mundo todo, mas o Brasil tem algumas características peculiares. O petróleo, hoje, é o principal produto da pauta de exportação brasileira, superando a soja. Significa que o petróleo caro não é de todo ruim para o Brasil. Você consegue aumentar o saldo da balança comercial e também a arrecadação de royalties. O lado negativo é que o Brasil é também importador de diesel e gasolina. O preço mais alto desses produtos no mercado internacional tem impacto inflacionário no país.


Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA


O governo federal liberou R$ 3,4 bilhões para financiar subvenções à produção e à importação de combustíveis. Isso funciona? 

O governo está numa encruzilhada. Esse “novo normal” faz com que os preços oscilem muito. Enquanto não chegar a eleição, o governo vai manter ou até aumentar o subsídio. Depois que passar a eleição, é outra história. Até lá, o governo quer que o preço na bomba pelo menos se estabilize. É uma sanha intervencionista de quem quer fazer populismo barato com a gasolina. O governo do PT acha que é possível jogar uma lona sobre o Brasil e o país estará protegido de qualquer crise. E começa a fazer políticas de subsídios para a gasolina e o diesel, onerando ainda mais as contas fiscais. Assim, como não aumenta o preço de diesel e gasolina, você gera uma defasagem muito grande dos preços do Brasil em relação ao mercado internacional. É uma política completamente equivocada e populista em ano eleitoral. 

No fim de julho, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o diesel importado subiu 13% e atingiu média de R$ 5,279 por litro, o maior valor em dois meses. O senhor vem alertando sobre a ameaça de desabastecimento no país. Esse risco existe?

Em tese, sim. Quando o petróleo chegou a US$ 100, a defasagem entre o preço praticado aqui e lá fora chegou a quase 70%. Com uma defasagem tão grande, ou a Petrobras assume a importação total do diesel e gera um prejuízo grande para o acionista da empresa, ou haverá desabastecimento. Quando a empresa mantém os preços internos abaixo da paridade internacional, os importadores privados e distribuidores reduzem as compras externas para evitar prejuízos na revenda. O Brasil importa de 25% a 30% do diesel consumido no país porque a produção interna das refinarias não é suficiente para suprir a demanda. Se o Brasil funcionasse como o mercado dos EUA, em que não há nenhuma possibilidade de controle de preço, já teríamos tido desabastecimento de diesel.


Presidente Lula, com as mãos sujas de petróleo, nas instalações da plataforma do Pré-Sal em Anchieta (ES) (15/07/2010) | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Somente no primeiro semestre, Lula participou de anúncios de investimentos de R$ 120 bilhões bancados pela Petrobras ou suas subsidiárias. O governo está interferindo politicamente na companhia? 

Sim, esta é uma prática do PT: usar a Petrobras como instrumento de política econômica. E também para ajudar a eleger os candidatos do governo. Quando o Lula estava em campanha contra o Bolsonaro, em 2022, ele já falava que o preço do combustível no Brasil era dolarizado, que o brasileiro não poderia pagar etc. Pura retórica eleitoral. Aliás, vamos convir que é um absurdo você subsidiar a gasolina, um produto que nem é tão consumido pela baixa renda, que não tem carro. No início do governo Lula, antes de explodir a guerra no Irã, ele deu sorte porque o mercado do petróleo andou muito estável. Então, não tivemos tanta intervenção no preço. Depois da guerra, no entanto, começamos a ver o governo fazer o possível e o impossível em benesses eleitorais. Claramente, há uma ingerência do Lula na Petrobras e isso é muito grave. Ele não está preocupado com o acionista da empresa. Está preocupado com o governo dele e em se reeleger. Para não perder o costume, o PT governa a Petrobras pelo para-brisa, fazendo as mesmas políticas que não deram certo e nunca darão. Infelizmente, a gestão da Petrobras faz aquilo que o governo manda fazer. Para quem tem memória curta, é sempre bom lembrar que o PT quebrou a Petrobras no governo Dilma Rousseff. Pela forma como eles tratam a empresa, sempre há o risco de que essa sina se repita. 


A Petrobras deveria ser privatizada?

O modelo de empresa de capital misto que tem o governo como sócio majoritário já deu o que tinha que dar. É muito ruim para a empresa você mudar de acionista principal a cada quatro ou oito anos. Também não é bom que os presidentes da Petrobras tenham mandatos tão curtos, como acaba acontecendo hoje, porque quando fazem algo de que o presidente da República não gosta, o governo vai lá e demite. Se um dia esse modelo gerou riqueza para o país, hoje não gera mais. Está na hora de discutirmos um novo formato, talvez fazendo com a Petrobras o que foi feito com a Eletrobras no governo Bolsonaro, um processo de capitalização que abriu caminho para a privatização. A capitalização da Petrobras é uma discussão que está madura para ser feita no Congresso Nacional. Quanto mais tempo levarmos para capitalizar a Petrobras, menos dinheiro a sociedade vai arrecadar.


O que um eventual quarto mandato de Lula representaria para a Petrobras e para o setor de energia no Brasil? 

Sob o governo Lula, o Brasil andou para trás no setor de energia. A Petrobras voltou a ser comandada mais por interesses políticos do que empresariais. O setor elétrico ficou quase quatro anos sem fazer um leilão de capacidade, que é o processo de contratação feito pelo governo para que usinas fiquem prontas e disponíveis para gerar energia nos momentos de maior demanda, focando a potência elétrica e não a quantidade de energia consumida. Nossas tarifas estão entre as mais caras do mundo e voltamos a sofrer com risco de apagão. O governo aumentou o subsídio do setor elétrico para mais de US$ 50 bilhões, a principal razão para a tarifa mais cara. O gás natural só subiu de preço, enquanto a demanda por ele caiu em função dos valores elevados causados pelo monopólio da Petrobras. Não houve nenhum avanço significativo e, o que é pior, tivemos uma volta ao passado. Na área de energia, como em outros segmentos, Lula governa olhando para o retrovisor. Os governos petistas trazem insegurança jurídica e regulatória ao setor, o que afasta investimentos. Um eventual quarto mandato de Lula aprofundaria todo esse retrocesso.


Fábio Matos - Revista Oeste