O que o TCU e o Legislativo não conseguiram fazer em prol do Master, o Supremo Tribunal Federal (STF) está conseguindo com sucesso
“Q uando um órgão como o Tribunal de Contas da União (TCU) entra no caso, é porque tem coisa muito errada aí.” Foi assim que o influenciador digital Paulo Cardoso explicou para seus 4,4 milhões de seguidores o imbróglio do Banco Master. “Essa história está muito mal contada. A quem interessava uma liquidação tão rápida do Master?”, concluiu ele, dando a entender ao longo do vídeo de um minuto e dezessete segundos que o Banco Central (BC) tinha algo a esconder. Obteve 357 mil visualizações.
Poderiam ter sido mais cliques se não fosse a concorrência de outros 40 influenciadores digitais que postaram vídeos sobre o mesmo tema, no mesmo dia 19 de dezembro, na mesma hora, com o mesmo tom, e usando como fundo de tela a mesma matéria do portal Metrópoles, publicada poucas horas antes.
Ser consciente é sempre se perguntar quem está ganhando e quem está perdendo com isso… o sistema é foda meus amigos! Minha missão aqui é formar pessoas despertas, gente que consiga pensar e não se deixarem ser manipuladas. View all 920 comments Add a comment...
Uma verdadeira milícia digital que teria sido assoldada por duas agências de comunicação de Brasília. Os influenciadores, todos de direita, eram recrutados nas próprias redes sociais. Em troca de um valor que podia chegar até R$ 2 milhões, dependendo do número de seguidores, eles implementaram o chamado “Projeto DV”. Realizaram postagens atacando o BC, enaltecendo o TCU e, claro, falando o melhor possível do Master.
Casualmente, as iniciais DV são as mesmas de Daniel Vorcaro, ex-CEO e dono do Master, e provavelmente testa de ferro de Nelson Tanure no comando do banco. O Master acabou falindo também por causa dos bilhões de reais injetados ao longo de anos nas empresas de Tanure, quase todas em recuperação judicial, e que não foram devolvidos.
Vorcaro e Tanure — que em nota enviada a Oeste negou qualquer ligação com o Master — foram alvos no dia 14 de janeiro da segunda fase da Operação Compliance Zero, na qual a Polícia Federal investiga uma série de crimes como organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de capitais. E foi aberta uma investigação para apurar a atuação dos influenciadores digitais em favor do banco.
Da Faria Lima à Praça dos Três Poderes O aliciamento da tropa de choque cibernética do Master é apenas a ponta do iceberg do maior escândalo bancário da história do Brasil. Em pouco mais de cinco anos, Vorcaro criou uma teia de relacionamentos com a cúpula da política e do Judiciário em Brasília. Uma rede de amigos que hoje, no momento da dificuldade, está fazendo de tudo para ajudá-lo.
Tentando até mesmo o impossível, como revogar a liquidação administrativa decretada em novembro pelo Banco Central. Uma canetada que o ministro do TCU Jhonatan de Jesus estava muito próximo de dar, chegando a ventilar essa opção em despachos.
Os advogados de Daniel Vorcaro não perderam tempo e usaram o argumento para tentar evitar a falência do Master em um tribunal nos EUA. Por lá, não colou.
Mas as ligações familiares de Toffoli com o Master não se limitam a resorts de luxo no Paraná.
Mesmo assim, de Jesus ordenou uma inspeção no Banco Central para averiguar documentos sobre o Master. Um despudorado desafio à incompetência jurídica do Tribunal sobre prerrogativas da autarquia. O artigo 71 da Constituição Federal é muito claro: o TCU é um órgão auxiliar do Congresso Nacional, responsável por fiscalizar apenas as contas públicas. O Banco Master era um banco privado, e as fraudes foram cometidas com o dinheiro de particulares. Não existe jurisdição do Tribunal sobre o caso.
A investida do ministro Jhonatan de Jesus era tão indefensável que provocou a reação da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e de outras entidades representativas do setor bancário, notadamente discretas, que emitiram notas duríssimas em defesa do Banco Central. Até mesmo os outros membros do TCU se prepararam para reagir caso ele tivesse continuado a ação. Se assinasse a desliquidação, o plenário do Tribunal se reuniria imediatamente para desfazer o ato. Uma verdadeira estratégia de contenção de danos contra seu mais novo ministro.
Nomeado por Lula em março de 2023, aos 39 anos, o único mérito de Jhonatan é ser filho de um cacique de Roraima, Mecias de Jesus, além de ter acumulado três mandatos como deputado federal. Baixíssimo clero, sem nenhum conhecimento de contabilidade e mesmo com uma denúncia de corrupção durante a covid-19, ele foi escolhido pelos colegas parlamentares para ocupar a vaga no Tribunal. A fidelidade ao centrão falou mais alto.
O mesmo centrão que em várias ocasiões tentou agir para favorecer o Master. Muitas vezes de forma despudorada. Atuando como uma verdadeira tropa de choque de Daniel Vorcaro. Basta lembrar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) para aumentar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, iniciativa eternizada no Congresso como “Emenda Master”, e que acabou arquivada após aparecer nas manchetes dos jornais.
Não satisfeito, o centrão tentou novamente. Dessa vez, mandando o Banco de Brasília (BRB), banco público, pequeno e regional, apresentar uma proposta de compra do Master, banco privado, muito maior e internacional, além de falido. Tudo em completa violação do estatuto do BRB. Uma operação anunciada de uma forma tão atrapalhada que beirava o surrealismo. O BRB responde ao governo do Distrito Federal, liderado por Ibaneis Rocha (MDB) — governador afastado pelo STF na época dos acontecimentos do 8 de janeiro sob acusação de cumplicidade. Dois anos depois desse episódio, seu nome sumiu de qualquer inquérito sobre o suposto golpe de Estado.
O Banco Central não podia aprovar uma operação tão descabida como a do BRB. Mas o centrão não desistiu. Em setembro de 2025, o deputado Doutor Luizinho (PP-RJ) apresentou um projeto de lei que permite ao Congresso destituir presidentes e diretores do Banco Central. Algo inédito na história do mundo, já que não apenas acabava com a autonomia do BC, como concedia ao Legislativo o poder de alterar a composição de sua diretoria. Em nenhum país funciona assim.
É o Executivo que escolhe esses cargos. Mas o objetivo do projeto não era aprimorar a governança da autarquia, e sim intimidar diretores para que fizessem o que o centrão gostaria: autorizar a compra do Master pelo BRB. Não passou. E o BC fez o que deveria ser feito: rejeitou a compra.
Mesmo assim, o BRB repassou quase R$ 13 bilhões para o Master em troca de títulos que se demostraram podres. Uma avalanche de dinheiro em troca de papéis sem nenhum valor. Uma fraude. O Banco Central agiu, mandou liquidar o Master e Daniel Vorcaro foi preso pela PF no aeroporto de Guarulhos, prestes a sair do Brasil.
Foi nesse momento que seu telefone foi apreendido, e lá dentro descoberto um contrato de R$ 130 milhões entre o Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. Mesmo sendo extremamente generoso, o contrato não previa nenhuma causa específica, permitindo uma atuação extremamente vaga. Dos 77 mil processos do Master em andamento em todo o Brasil, o escritório trabalhou em apenas dois e perdeu ambos.
Mas uma atuação foi contundente: a do marido. Moraes fez lobby em favor do Master junto ao Banco Central. Em um só dia, chegou a ligar seis vezes para o presidente do BC, Gabriel Galípolo.
Em nota, o ministro negou ter falado do Master, limitando-se a tratar da aplicação da Lei Magnitsky. Ninguém acreditou. Galípolo assegurou que estava tudo documentado. Quando foi solicitada a exibição dos autos, decretou sigilo. Ineditismo puro na história do BC. E admissão involuntária de culpa.
Sempre teremos o Supremo
O que o TCU e o Legislativo não conseguiram fazer em prol do Master, o Supremo Tribunal Federal (STF) está conseguindo com sucesso. Poucas horas depois da prisão de Vorcaro, o ministro Dias Toffoli avocou para si toda a investigação, decretando sigilo total. Nem mesmo os advogados das partes teriam acesso aos autos. Um escândalo de tamanha proporção que até mesmo a Transparência Internacional criticou a medida, relembrando o “público e notório histórico do ministro relator com conflitos de interesses e múltiplas decisões monocráticas anulando processos de macrocorrupção solidamente comprovados”.
Como foi possível que ninguém do Fundo Garantidor de Créditos percebeu que o problema estava chegando a um tamanho insustentável?
Não deu outra. Um mês depois da censura de Toffoli, veio à tona que dois irmãos e um primo dele tiveram como sócio em um resort em Ribeirão Claro (PR) um fundo ligado ao Master. O Arleen Fundo de Investimentos comprou ações da Tayayá Administração e Participações, que pertencia em parte à família de Toffoli, e também participação direta na DGEP Empreendimentos, incorporadora imobiliária da mesma cidade, que tinha como um de seus sócios um primo do ministro.
O Arleen era administrado pela Reag, empresa que gerenciava fundos ligados a Vorcaro, e que foi investigada na operação Carbono Oculto por suspeita de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). No dia 15 de janeiro de 2026, a Reag foi liquidada administrativamente pelo Banco Central.
Atualmente, o resort Tayayá foi comprado por um dos advogados da JBS, grupo que foi beneficiado por uma decisão de Toffoli de suspender uma multa de R$ 10 bilhões. O Brasil se confirma o país das coincidências.
Mas as ligações familiares de Toffoli com o Master não se limitam a resorts de luxo no Paraná. A ex-mulher do ministro, Roberta Maria Rangel, tornou-se sócia, a partir de 2021, do escritório Warde Advogados, liderado por Walfrido Warde, advogado de Daniel Vorcaro. O nome de Roberta foi retirado do site do escritório há algumas semanas.
Quem também se revelou sócio de Warde foi o jornalista Reinaldo Azevedo, que chega a apresentar podcasts com o advogado. Não por acaso, tornou-se um guardião do Supremo. “Se quebraram ilegalmente sigilo fiscal de ministros do STF, o bicho vai pegar”, foi o comentário mais suave que Azevedo realizou nos últimos dias.
Em apenas um ano, o Master gastou meio bilhão de reais com quatro escritórios de advocacia. Entre eles, o de Warde. Fica fácil entender a razão de tanto fervor.
Trabalhadores pagarão o pato
Respeitando a tradição dos escândalos brasileiros, os maiores prejudicados serão os mais pobres.
E no momento mais frágil da vida:
a velhice. Pelo menos 18 fundos de pensão aplicaram cerca de R$ 2 bilhões no Master. Somente o fundo dos funcionários públicos do Rio de Janeiro, o Rioprevidência, que deveria cuidar dos recursos de mais de 400 mil servidores cariocas, aportou R$ 1,2 bilhão. Dinheiro entregue ao banco em troca de Letras Financeiras, um tipo de investimento que não tem garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre até R$ 250 mil em alguns produtos em casos de falências de financeiras. Ou seja, receberão rigorosamente nada.
O Ministério da Previdência salientou que a lei é clara: cada Estado e município tem responsabilidade sobre seus rombos, inclusive em fundos de pensão. Em unidades federativas falidas, como o próprio Rio de Janeiro, isso é o prelúdio para o caos financeiro. Algo muito parecido com o que ocorreu com os Correios. Quando o Postalis, o fundo de pensão dos funcionários da estatal, foi saqueado durante as gestões do PT, os aposentados sofreram descontos e os trabalhadores tiveram que aumentar suas contribuições.
A pergunta que fica é: os gestores desses fundos, que deveriam ser profissionais do mercado financeiro, altamente preparados e rigorosamente escolhidos, decidiram investir os bilhões de seus cotistas no Banco Master, sem proteção alguma do FGC, por erro de gestão ou por pressão política?
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) já começou a investigar e informou que o fundo de pensão dos servidores municipais de Cajamar (SP) fez investimentos milionários no Master sem estudos técnicos e de forma “açodada”. O instituto levou apenas seis dias para deliberar, autorizar e executar a ordem de investimento em Letras Financeiras do Master. No total, o instituto da cidade da região metropolitana de São Paulo, com 98 mil habitantes, aplicou R$ 87 milhões no banco. Não receberá nada.
A maioria dos prefeitos e governadores dos fundos de pensão que investiram no Master são do PP, MDB, PSD e PL. Os gestores dos fundos são indicados pelos mandatários.
Cadê o FGC?
Outra questão que permanece aberta é sobre a atuação do Fundo Garantidor de Créditos. O FGC perderá quase 30% de seu patrimônio no ressarcimento de 1,6 milhão de pessoas físicas que compraram CDBs do Master. Como foi possível que ninguém do fundo percebeu que o problema estava chegando a um tamanho insustentável? Além disso, dois meses depois da liquidação administrativa, por que ninguém recebeu seu dinheiro de volta?
Em vídeo publicado no início de 2025, a influenciadora digital Gabriela Prioli afirmou que não havia acusações concretas contra o Master, apenas “insinuações” de que algo poderia estar errado. E se disse preocupada com o efeito disso “entre pessoas comuns”, que passariam a se sentir “em risco sem estar efetivamente”. Ela mal consegue conter o riso durante a gravação. Gabriela nega ter recebido recursos do Master pela postagem. Duas semanas depois, contudo, o conteúdo foi retirado do ar.