Moraes, Dino e Toffoli têm de cair fora do Supremo
Ministros do STF, Flávio Dino e Alexandre de Moraes - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Para movimentar-se, por exemplo, poderia usar carros emprestados por parentes ou amigos. Em vez disso, preferiu requisitar um carro blindado pertencente à frota do Tribunal de Justiça do Maranhão. Testemunha dos passeios automobilísticos de Dino e familiares, o jornalista Luís Pablo fez o que deve fazer um profissional da imprensa: noticiou o atropelamento da lei por um juiz togado. Sei desde a infância que seres decentes não agem como Dino agiu.
Nos anos 50 do século 20, em seu primeiro mandato, Adail Nunes da Silva usava com exemplar moderação o Mercury preto do prefeito. Aos sábados e domingos, o carro ficava na garagem. Se o chefe do Executivo municipal estava descansando, não havia razões para desperdiçar combustível. Nos dias úteis, meu pai se instalava no banco do motorista e ligava a ignição só se tivesse de viajar para outra cidade ou visitar algum distrito do município. Ele preferia usar as próprias pernas para deslocar- se entre a casa e o gabinete na prefeitura. Esvaziada a fila formada por ordem de chegada, circulava a pé pelas ruas, conferindo o andamento das obras e das coisas da vida na cidade com 10 mil habitantes.
Nos três mandatos seguintes, mudaram o tamanho de Taquaritinga e a marca do carro. Os cuidados com o patrimônio do povo permaneceram. Meu irmão Tato Nunes, duas vezes prefeito, usou menos ainda o carro oficial. Nenhum ocupante do cargo se atreveria a fazer o que fez o ministro nomeado por Lula.
Esse comunista que adora brinquedões de capitalista radical fez mais que desperdiçar dinheiro de patrocinadores involuntários. Também fez de conta que criminoso é um jornalista criticar o comportamento de ministros do Supremo Tribunal Federal e chamou Alexandre de Moraes, que mobilizou a Polícia Federal, que cumpriu um mandado de busca e apreensão expedido pelo Carcereiro da Nação, que achou importantíssimo devassar o conteúdo dos celulares confiscados, que continham mensagens analisadas pela PF, que concluiu nesta semana a montagem do grupo de culpados, que inclui o delegado de polícia aposentado Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão, ex-deputado estadual e, nos últimos tempos, principal informante do jornalista que enxergou o rasgão nos fundilhos do manto negro de Dino. Cutrim e Pablo foram imediatamente anexados ao Inquérito do Fim do Mundo, um monstrengo nascido em 2019 e batizado por seus parteiros de “Inquérito das Fake News”. Passados seis anos e meio, é uma espécie de AI-5 da ditadura da toga.
Segundo a Polícia Federal, Pablo deve ser punido porque suas reportagens danificaram interiormente a cabeça de Flávio Dino. Sem revelar o responsável pelo diagnóstico, o relatório enviado ao STF informa que, no momento, uma “perturbação do equilíbrio psicológico” afeta a vítima de notícias verdadeiras. “As publicações fazem parte de perseguição ao ministro”, afirma o documento.
“Atos considerados invasivos ou intimidatórios podem provocar medo, sensação de vigilância e abalo à tranquilidade da vítima.” Linhas adiante, o palavrório esclarece que “não é necessário haver dano físico ou material para a configuração do crime de perseguição”. Pelo que afirma o autor da sopa de letras, um juiz comunista é uma pessoa normal até que algum jornalista enxergue irregularidades no que a ilustre vítima assim resumiu: “Um carro blindado foi cedido a pedido da Secretaria de Segurança do STF. Eu e minha família fomos alvo de monitoramento ilegal”. Ao decretar que a busca e apreensão fosse estendida a Cutrim, Moraes estuprou a cláusula pétrea da Constituição que protege o sigilo da fonte. Ao transferir o julgamento do caso para o STF, o superjuiz violentou as normas que regem o foro privilegiado. Ele sabe disso. Mas faz qualquer negócio para desviar a atenção do país do contrato assinado por sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro bandido, que transformou a mulher do ministro na campeã mundial de honorários advocatícios não prestados. Teoricamente, a fortuna serviria para garantir por três anos os serviços da doutora.
Na prática, reduziu o marido a protetor de vigaristas cinco estrelas. A ofensiva da semana passada foi concebida para convencer o país de que a mais truculenta das togas ainda prende e arrebenta. Se ainda lhes restam algumas gotas de juízo, os integrantes da bancada chefiada por Gilmar Mendes andam insones. Ficou claro que o Brasil decente não suporta mais os abusos dos Dinos, dos Moraes, dos Toffolis. É hora de ressuscitar o Estado Democrático de Direito. Quem desonra a instituição tem de cair fora do Supremo.
Flávio Dino em sessão plenária do STF (13/08/2026) | Foto: Luiz Silveira/ST
Augusto Nunes, Revista Oeste