O Estado de São Paulo
O jogo político não tem sido tão descontraído e festivo quanto as disputas que animam as galeras nos 12 estádios que sediam o maior espetáculo esportivo mundial. Na arena eleitoral, as batalhas se acirram com a entronização dos candidatos nas convenções partidárias, incentivando espadachins a desferir golpes em todas as direções.As estocadas recíprocas se revestem de surpreendente e contundente expressão, a revelar que o pleito antecipado (legalmente só poderá chegar às ruas em 6 de julho) já mostra ser o mais virulento da contemporaneidade.
Trata-se, afinal, não apenas de uma guerra entre três candidatos competitivos, mas uma luta esganiçada pela continuidade ou mudança de rumos na condução do país a partir de 2015. Enquanto os contendores se engalfinham, os torcedores se comprazem, confraternizando-se com torcidas estrangeiras, fruindo as performances dos atletas em exuberantes arenas e com o apito pronto para evitar que se chute a bola de candidatos nos campos do futebol.
Essa, aliás, é a primeira explicação para apupos às autoridades nos eventos esportivos. A massa, sem distinção de classes, abomina misturar política, futebol e religião. Sabe guardar cada coisa em seu lugar. E conhece bem a primeira regra dos estádios: não há limites para as expressões, mesmo as chulas, reveladoras de deseducação cívica, como as que se ouviram no jogo inaugural da Copa.
O distanciamento entre a sociedade e a esfera política é um real fenômeno que pode ser avaliado por muitos instrumentos: índice de abstenção, votos nulos e brancos (ultrapassando hoje à casa dos 30%) e um desinteresse geral pela eleição (em torno dos 50%).
O imenso vazio aberto é ocupado por novos polos de poder, uma estrondosa tuba de ressonância que dá vazão ao clamor de grupos organizados. Como atrair o interesse de eleitores de todas as faixas, que tendem a nivelar por baixo todos os representantes e demonstram esgotamento com os atores políticos? Eis o nó da questão. Em torno dele se debruçam candidatos, portavozes e cabos eleitorais, cada qual buscando a melhor mensagem para o momento.
No plano dos discursos, o PT se esforça para dar credibilidade a um escopo ideológico, que ainda causa receio à parcela ponderável do eleitorado. É um partido que enxerga, muito assustado, a corrosão de sua identidade, que era a mais confiável há 20 anos. Teme ser desalojado do primeiro andar do poder. Sente que já não tem tanto respaldo popular quanto nos dourados anos da era Lula, de quem espera papel de vanguarda na estratégia de continuidade.
Por isso, Luiz Inácio, valendo-se do conhecido instinto, desenvolvido ao longo do contato direto com as massas, resgata o velho axioma de guerra: “a melhor defesa é o ataque”. Ataque contra a imprensa; ataque contra as elites; ataque contra quem cospe no prato em que comeu; ataque contra o ex-presidente Fernando Henrique (que teria “comprado” apoio no Congresso ao projeto da reeleição).
O tiroteio, vale frisar, tem o mérito de fazer recuar exércitos adversários, obrigando-os à defesa. O ex-metalúrgico é um mestre na arte da prestidigitação. Antes de ontem, era o João Ferrador; ontem, era o Lulinha Paz e Amor; hoje, volta a ser o gigante Ferrabras.
Lembrando: em 1972, Lula vestia a camiseta do João Ferrador, personagem criado pelo jornalista Antônio Felix Nunes para apresentar as reivindicações dos metalúrgicos. O bordão do raivoso Ferrador era: “hoje eu não tô bom”. Em 2002, adotou o slogan “Lulinha paz e amor”, contrapondo-se ao perfil combativo e sisudo das eleições de 1989, quando recebeu de Leonel Brizola a alcunha “sapo barbudo”. Passou a ecoar o slogan: “a esperança vencerá o medo”. Foi um tento.
Hoje, tenta recompor o dito sob nova roupagem: “a esperança vencerá o ódio”. Nesse ponto, emerge a dissonância. O ódio faz parte da estratégia lulista, quando procura resgatar a polarização entre petistas e tucanos, identificando os primeiros com os ricos e os segundos com os pobres. A questão, porém, é mais complexa.
Os habitantes do meio da pirâmide e parcelas das bordas já estão vacinados contra os refrãos carcomidos pela poeira do tempo. O slogan das ruas é outro: “mais e melhores serviços públicos”. Não acreditam que estatutos como o Bolsa Família serão extintos qualquer que seja o futuro presidente.
Aos tucanos, por sua vez, interessa acender a tocha da polarização, crentes de suas chances no pleito deste ano. Fernando Henrique decide ir à trincheira: “Lula vestiu a carapuça”, resposta à crítica de que teria “comprado” apoios para aprovar a reeleição.
Depois de ter brilhado na constelação da ética, o PT aparece nas pesquisas como o ente que mais encarna o vírus da corrupção. Mesmo assim, aposta na dualidade “nós e eles”, o bem e o mal. E continua a desprezar os parceiros partidários da aliança governista, alargando seu império na administração federal. E haja sofisma, a denotar um duplo padrão ético que lembra a resposta do rei africano sobre o bem e o mal, dada ao pesquisador Carl Jung: “O bem é quando roubo as mulheres do meu inimigo; o mal é quando o inimigo rouba minhas mulheres”.
Nessa toada, a campanha eleitoral, já começada, se cerca de grandes interrogações. A aposta maior é a de que os rumos finais serão ditados pelo andar da carruagem econômica: maior inflação, aumento do desemprego, barrigas roncando, massas apertando o cerco, pior para a presidente Dilma, melhor para as oposições; a recíproca é verdadeira.
As manias e manhas que marcam as práticas eleitorais e o marketing – a execração recíproca, a autoglorificação de perfis, o disfarce e o embuste, as promessas mirabolantes - começam a disseminar com o fito de projetar imagens positivas e negativas para uns e outros.
O eleitor continua arredio. Sua visão se concentra nas arenas esportivas e não nas praças da guerra eleitoral. Uma certeza é cristalina: o clima de 2014 é bem diferente da temperatura de 2010. Estreita-se o espaço da mistificação.
Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação. Twitter@gaudtorquato