sexta-feira, 6 de novembro de 2026

'Alvo preferencial', por Eugênio Esber e Sarah Peres

 Senadores contrários ao regime têm a chance de afastar Alcolumbre, assumir o comando do Congresso e empurrar o STF de volta para o leito constitucional


Presidente do Senado Federal, senador Davi Alcolumbre (União-AP), discursa no Palácio da Alvorada, com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o presidente da Câmara dos Deputados, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) ao seu lado - Foto: Pedro Gontijo/Senado Federal


O s brasileiros que ainda conservam um fio de esperança na reanimação da trôpega democracia do país têm um encontro marcado com a angústia no dia 1º de fevereiro, quando 81 senadores da República depositarão, em segredo, os votos que elegerão o presidente da casa — e do Congresso Nacional — pelos dois anos mais tormentosos do país, caso se cumpram as previsões de deterioração aguda do ambiente de negócios e das condições de vida dos brasileiros sob a batuta de um governo sem compromisso com seriedade na gestão das contas públicas. 

No plano jurídico-moral, o cataclismo anunciado é tão devastador quanto a debacle econômica de Lula 4, e está muito mais próximo. Logo ali, em setembro, será eleito o novo presidente do Supremo Tribunal Federal. E a toga master do STF, a instituição que lançou o Poder Judiciário brasileiro no descrédito perante as Supremas Cortes do mundo livre, será colocada sobre os ombros de Alexandre de Moraes, o ministro que os Estados Unidos designaram como violador global de direitos humanos e que está implicado, por robustos indícios de corrupção, no maior escândalo do sistema financeiro nacional. 

Nada pode deter o desfile triunfal da impunidade, do autoritarismo e da irresponsabilidade, a não ser a vitória da oposição na eleição para o comando do Congresso Nacional. Pela voz das ruas, na eleição de outubro, seriam favas contadas. Mas o regime PTSTF tem seu candidato neste páreo. E ele não é, embora pareça, um pangaré.

Davi Alcolumbre, que tentará em fevereiro seu terceiro mandato como presidente do Senado, ocupa uma cadeira cujo alcance ultrapassa em muito a modesta expressão de seu Estado. O Amapá significa 0,3% do PIB brasileiro e deu a ele, em 2022, menos de 200 mil votos — votação que em outros Estados rende no máximo um mandato de deputado federal. Colegas que chegam ao Senado com milhões de votos submetem-se, impotentes, aos caprichos do nanossenador que se agigantou dentro deste manicômio que é a distorcida representação popular no Congresso brasileiro. 

O voto do amapaense tem peso equivalente a quase 60 vezes o voto de um paulista, em termos relativos. Aplique-se o princípio ao conjunto de Estados menores da federação e se começa a compreender a dominância de figuras como Alcolumbre. Mas há, claro, algo de único na trajetória que o tornou o sustentáculo de um consórcio de poder que amassa a oposição, persegue a dissidência e locupleta os aliados, como Oeste mostrou na reportagem “O padroeiro dos poderosos”.

De estatura mediana, roliço na forma física e de ginga malemolente, como mostrou no camarote do Boi Garantido em Parintins, Alcolumbre é um operador de conchavos que dança conforme a música. Com um tremendo instinto de ocupação de espaços, chegou à presidência do Senado pela primeira vez em 2019 ao surfar na onda de resistências a Renan Calheiros.

Chegou a atuar com alguma boa vontade em relação a demandas iniciais do governo Jair Bolsonaro, mas logo farejou mudança nos ventos e ajustou as velas ao perceber que a fonte do poder saía das mãos dos representantes eleitos pelo povo para os gabinetes do Supremo Tribunal Federal, uma usurpação que só ele, como presidente do Senado, poderia conter, caso desse passagem aos crescentes pedidos de impeachment contra ministros que violavam a lei e a Constituição para impor suas vontades. Preferiu o conluio. Engavetou os pedidos, fez de Rodrigo Pacheco um sucessor fiel à orientação de blindar os ditadores de toga e, voltando ao posto, em 2025, reassumiu a condição de gerente de um regime espúrio.


1,230 likes bahianoticias O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, foi flagrado curtindo o Festival Folclórico de Parintins, na Ilha Tupinambarana, neste sábado (27). Meio as prévias do recesso parlamentar e enfrentando rumores acerca de relações com Daniel Vorcaro, o líder do Congresso assistiu as apresentações dos bois Caprichoso e Garantido. Segundo informações do BNC Amazônia, o senador se empolgou no show do Garantido: cantou, dançou e entrou no ritmo da toada Perrecheologia,

demonstrando uma preferência pelo “perreché”. Ele chegou a assistir os desfiles no camarote do senador Omar Aziz. A cena também resgatou lembranças da visita de 2024, quando, nos bastidores do festival, Omar Aziz o apresentava como futuro presidente do Senado — previsão que se confirmou meses depois. 📲 Siga o @bahianoticias e fique bem informada(o) 📷 BNC Amazônia View all 1,049 comments


Em sua mesa, acumula-se um total de 109 pedidos de impeachment — a maioria contra Alexandre de Moraes (55), Gilmar Mendes (15), Dias Toffoli (12) e Flávio Dino (8). Em troca, Alcolumbre recebe do STF a garantia tácita de que nenhuma investigação prospera contra ele, e são várias. A mais grave envolve a Amapá Previdência (Amprev), que investiu R$ 400 milhões em títulos do Banco Master sem documentação técnica, uma operação consumada em 20 dias sob a liderança do presidente da Amprev, Jocildo Lemos, ex-tesoureiro de campanha de Alcolumbre. O conselho que aprovou a decisão de torrar a poupança dos servidores do Amapá em títulos do Master era integrado por Alberto Alcolumbre, irmão do senador. Uma reportagem da revista Veja sustentou que Daniel Vorcaro teria incluído, em sua segunda tentativa de delação premiada, a informação de que depositou US$ 30 milhões para Alcolumbre em uma conta secreta no exterior. 

Apesar de toda a cobrança pública, Alcolumbre barrou a formação de uma CPI do Caso Master no momento em que vinham à tona as ligações de Vorcaro com Dias Toffoli e, principalmente, Alexandre de Moraes, agraciado pelo dono do banco com um inexplicável contrato de R$ 131 milhões firmado com o escritório jurídico de sua família. 

Dono da pauta do Senado, Alcolumbre trabalhou, em conjunto com o STF, para tolher o trabalho da CPMI que investigou os descontos fraudulentos de aposentadorias e pensões do INSS, negando acesso a registros de visitas que o lobista Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, fez a gabinetes de parlamentares. A comissão não conseguiu quebrar o sigilo de um exassessor de Alcolumbre, Paulo Boudens. Providências para investigar o irmão de Lula e Lulinha, filho mais velho do presidente, também pararam na barragem Alcolumbre-STF. O acordo de mútua proteção inaugurado em 2019 permaneceu incólume. 

É esta fortaleza de abuso, corrupção e impunidade que poderá ruir na eleição para a presidência do Senado, em 1° de fevereiro, se a oposição marchar unida. Com a expressiva maioria conquistada nas urnas pelos candidatos de direita e de centro-direita, o PL terá 29 senadores e o Novo, três. Mesmo que os 32 votem juntos, serão necessárias outras nove adesões para alcançar os 41 votos exigidos para eleger o presidente da Casa. A batalha passa, portanto, por parlamentares de outras legendas que criticam a atuação do Supremo e defendem a tramitação de pedidos de impeachment. 

Mais uma vez, o centrão será o fiel da balança para definir se o voto popular que rechaçou a ditadura do Judiciário se traduzirá em uma força que impeça a recondução de Alcolumbre, hoje um entulho a ser removido para garantir a independência dos Três Poderes e devolver o STF ao estrito papel de Corte de apelação constitucional que lhe cabe. Para bater Alcolumbre, o PL oficializou Rogério Marinho (RN). Líder da oposição e ex-coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, o senador potiguar tenta reunir uma maioria que ultrapasse as fronteiras partidárias. 

A decisão marca o enfrentamento ao atual presidente e frustra a tentativa de Alcolumbre de construir uma composição com a legenda por meio de promessas de anistia aos presos do 8 de janeiro ou de indulto a Jair Bolsonaro — uma barganha repulsiva por envolver a liberdade e a dignidade de famílias destroçadas por um tribunal de exceção, como demonstrou, em um voto histórico, o ministro Luiz Fux.

Em busca dos nove votos que faltam para se eleger presidente do Senado, Marinho parte de uma base promissora. Uma sondagem preliminar a partir de iniciativas e manifestações públicas identifica que, para além dos 32 integrantes do PL e do Novo, há outros 14 parlamentares com cadeiras previstas para 2027 que têm registros de apoio ao impeachment ou à tramitação dos pedidos. Cinco são do Republicanos: Alan Rick e Mara Rocha, do Acre; Damares Alves, do Distrito Federal; Evair de Melo, do Espírito Santo; e Hamilton Mourão, do Rio Grande do Sul. Quatro pertencem ao PP: Tereza Cristina, de Mato Grosso do Sul, que também tem ambições de concorrer contra Alcolumbre; Dr. Hiran, de Roraima; Guilherme Derrite, de São Paulo; e Laércio Oliveira, de Sergipe. 

Completam a relação Gracinha Caiado, de Goiás, e Professora Dorinha, do Tocantins, ambas do União Brasil; Alessandro Vieira, do MDB de Sergipe; Lucas Barreto, do PSD do Amapá; e Plínio Valério, do PSDB do Amazonas. Tem-se, então, 46 nomes nesse universo inicial de apoiadores de Rogério Marinho e Tereza Cristina. São cinco nomes a mais que o necessário para a vitória — se não houver deserções, claro, e Alcolumbre conta com sua máquina de aliciamentos que, segundo noticiado, envolveria até mesmo promessas de gabinetes bem situados. 

Sim, até este tipo de benesse está nas mãos da poderosa presidência do Senado. Um dos votos incertos do PL é o do senador Eduardo Gomes, do Tocantins, que estaria em conversações com Gilberto Kassab para ingressar no PSD. Gomes acaba de receber de Alcolumbre um presente: a relatoria da lei de diretrizes orçamentárias para 2027.


Líder da oposição no Senado Federal, senador Rogério Marinho (PL-RN) - Foto: Ton Molina/Agência Senado 

O sigilo que acoberta a eleição do presidente é um incentivo a traições. O regimento interno do Senado prevê votação secreta. Marinho defendeu a publicidade dos votos para permitir que os eleitores saibam como seus representantes se posicionam: “Acredito que qualquer cidadão brasileiro gostaria de saber como está votando o seu representante”. 

O eleitor não gostaria, não. O eleitor exige. Mas Marinho precisa ser contido em suas declarações, e o mesmo cerceamento é sentido por todos na casa. O relho ainda está nas mãos dos ministros do STF. E é sob este clima de chantagem velada, e para alguns muito explícita, que Alcolumbre move suas peças para, por exemplo, obter uma nota formal da federação formada por União Brasil e PP em apoio à sua reeleição. Ele está no encalço de senadores do MDB e do PSD, além, é claro, do PT, que é seu maior aliado. 

Afinal, Lula deve a Alcolumbre a aprovação, de afogadilho, pelo Congresso, do pacote de medidas eleitoreiras envolvendo perdão de dívidas de MEIs e o fim da escala de trabalho 6×1, entre várias outras matérias caça-voto. Estas cinco bancadas da base de Alcolumbre somam 33 cadeiras previstas para 2027. Mas as articulações das cúpulas não asseguram os votos de todos os senadores. É nessa distância entre a formalização do apoio partidário e a escolha individual que a oposição pretende avançar. E Alcolumbre também.

Os brasileiros deverão se mobilizar como jamais o fizeram para uma eleição de presidente do Senado. Eles não votam, mas seus representantes sim. E a cadeira na qual Davi Alcolumbre está sentado, como chefe do Poder Legislativo, é importante demais para o saneamento da democracia brasileira. Quem preside o Senado convoca e dirige sessões, define a ordem do dia, escolhe os presidentes das comissões, distribui matérias aos colegiados, delibera sobre questões de ordem e conduz as discussões em plenário, inclusive sobre orçamento e vetos do presidente da República. É quem tem a responsabilidade de zelar pelas prerrogativas das instituições e pela proteção das imunidadesdos senadores, que aliás foram tão pisoteadas nos últimos anos pelos ministros do STF sob o olhar cúmplice de Alcolumbre.

Hoje, o Brasil não tem um governo, mas um regime tão fadado à promiscuidade institucional e à corrupção quanto o de Nicolás Maduro, o sindicalista que comandou a Venezuela capturando o parlamento e a Suprema Corte, e que termina seus dias em uma prisão nos Estados Unidos. A última trincheira para resistir à cooptação total do país por um grupelho que sequestrou as instituições está em jogo. 

Se senadores traírem a confiança popular e derem a vitória a Alcolumbre, não é difícil imaginar como o despachante das demandas de Lula e do STF fará sua comemoração, e quem brindaria efusivamente com ele. Um dos convidados será Alexandre de Moraes, que até agora segue blindado das suspeitas de corrupção, advocacia administrativa e obstrução de justiça e, em setembro, assume, para estupor do Brasil e do mundo, a cadeira de presidente do Supremo Tribunal Federal. Alcolumbre e Moraes têm uma rotina de encontros e conversas privadas. 

Outro conviva esperado é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que festejou o resultado do segundo turno com Moraes, Alcolumbre e o presidente da Câmara, Hugo Motta. Para redemocratizar o país, colocar o Congresso Nacional de pé e altivo outra vez, submeter o governo ao controle do povo e empurrar o STF de volta para o leito constitucional, Davi Alcolumbre, o gerente do regime, precisa ser removido da presidência do Senado. Até onde a vista alcança, não haverá outra oportunidade.


Fachada do Congresso Nacional, a sede das duas Casas do Poder Legislativo brasileiro - Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado 

Eugênio Esber e Sarah Peres - Revista Oeste