Atarantado com as revelações sobre as patifarias de Moraes, o STF tem duas opções: o caminho da razão ou a trilha do penhasco
H á seis anos, Alexandre de Moraes tem feito o diabo para tornarse a figura mais temida do Supremo Tribunal Federal (STF). Amparado no Inquérito das Fake News, com o apoio militante da bancada majoritária liderada por Gilmar Mendes, o ministro institucionalizou o estilo prende-e-arrebenta na cruzada para consolidar uma abjeção: a democracia à brasileira, codinome da ditadura do Judiciário. Até este começo de setembro, imaginava-se que Moraes agia assim por motivos políticos: faltava pouco para tornar-se oficialmente gerente-geral do país. Nesta semana, descobriu-se que era investimento.
Moraes fez o que fez por dinheiro, informou a catarata de provas, evidências e indícios exposta ao país pelo ministro André Mendonça. Um dos dois integrantes da Corte indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, é ele o relator do inquérito que apura bandalheiras que, entre outras relações promíscuas, vinculam o ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro que, a pretexto de preservar o Estado de Direito, mandou às favas a Constituição, os códigos legais, as fronteiras que separam os Três Poderes, a sensatez, o equilíbrio e a imparcialidade. Parecia um caso clínico. Era cobiça.
No começo da manhã desta terça-feira, 1º de setembro, estavam reunidos na sede do STF juristas brasileiros, italianos e espanhóis do Brasil, da Itália e da Espanha, convidados para discutir durante três dias os impactos da inteligência artificial, a independência dos tribunais e supostas “ameaças à democracia” no mundo inteiro. A serenidade das tertúlias foi repentinamente quebrada por notícias, transmitidas por WhatsApp, dando conta do vazamento de um relatório sigiloso da Polícia Federal (PF). As safadezas armazenadas num dos celulares usados pelo dono do falecido Banco Master resultaram num documento com mais de 200 páginas, preenchidas com mensagens, contratos multimilionários e pedidos de ajuda. Somadas, imediatamente ampliaram as dimensões da maior crise da história do STF.
Crimes e pecados Decretada por André Mendonça, a quebra do sigilo permitiria que, em poucas horas, milhões de brasileiros se assombrassem com a versão togada da Ópera do Malandro — e entendessem que chegou a hora do basta. O país inteiro agora sabe que Moraes editou, pessoalmente, o contrato de R$ 131 milhões (pensava-se que eram R$ 129 milhões) entre o Master e o escritório de Viviane Barci, mulher do ministro. Sabe também que o ministro negociou com o parceiro perdulário outros R$ 50 milhões, pagos em dinheiro, bens e serviços.
Parte do valor seria descontada do uso de um jatinho particular pela família Moraes. Numa mensagem, Viviane disse a Vorcaro que estava “gostando muito” da aeronave, assim como do tratamento dispensado por todos os funcionários da empresa que transportava os ilustres passageiros. Outros recados atestam o estreitamento da amizade cada vez mais lucrativa — para a família do ministro. Num deles, Vorcaro diz a Moraes que mudara a data de uma viagem a Abu Dhabi para não perder um encontro da dupla. Em outro, avisa que conseguira colocar R$ 800 milhões no Master e receberia outros R$ 400 milhões na semana seguinte.
O problema, ressalvou Vorcaro, era a insistência do Ministério Público e da Polícia Federal em tentar convencer o Banco Central a conter os movimentos do banqueiro. “É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”, explicou. Andrei Rodrigues é o diretor-geral da PF. Paulo Gonet chefia a Procuradoria-Geral da República. O uso do prenome comprova a intimidade reinante entre comparsas. Paulo e Andrei, reiterou o queixoso, precisavam livrá-lo do que chamou de “algum ato tresloucado”.
Vorcaro é um pedinte compulsivo, mas sabe retribuir — com palavras ou em espécie. Disse a Moraes que contraíra “uma dívida de vida” com o parceiro poderoso, a quem agradeceu por “tudo”. Mensagens mais aflitas foram remetidas às vésperas da primeira prisão. Em 14 de novembro de 2025, Vorcaro encontrou Moraes na casa do seu protetor. Na noite seguinte, solicitou outra conversa e quis saber: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Fora do Brasil, naturalmente. No domingo, 16, informou em pleno voo que pousaria às duas da tarde e seguiria para o encontro. Na segunda-feira, quando se preparava para embarcar num avião particular com destino a Malta, foi preso por agentes da PF.
A PF desvendou o modus operandi dessas conversas. O contato “Alexandre de Moraes BRASILIA” havia configurado o diálogo para apagar as novas mensagens depois de 24 horas. Vorcaro também recorria a imagens de visualização única. O aparelho, contudo, preservou o conteúdo. O empresário escrevia os textos no aplicativo Notas, fazia uma captura da tela e, segundos depois, abria o WhatsApp. O sistema do iPhone criava simultaneamente um arquivo temporário com o mesmo conteúdo. Os registros internos guardavam o horário de cada movimento.
A repetição desse roteiro permitiu à PF relacionar 52 notas ao número atribuído a Moraes — cinco preservadas na própria conversa e outras 47 recuperadas por meio de rastros digitais. A linha direta entre Vorcaro e Moraes havia sido aberta em dezembro de 2023. Quem fez a ponte foi Fábio Faria, ex-deputado federal, ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro, genro de Sílvio Santos e criador da SBT News.
Na tarde desta terça-feira, tangido pelas revelações, Gilmar Mendes dirigiu-se ao Palácio do Planalto para uma reunião com Lula — fora da agenda oficial. O decano do STF advertiu o petista que seria perigoso para o presidente “largar a mão do STF”, principalmente a um mês da eleição. O ministro fez questão de lembrar que o chefe do Executivo deve seu retorno ao poder ao Supremo. Também registrou que, sem a ajuda do tribunal, Lula talvez não conseguisse governar durante o terceiro mandato.
Diálogo envolvendo Daniel Vorcaro sobre emissão de cartões a filhos de Alexandre de Moraes | Foto: Reprodução/Estadã
Bombas e consultas
Gilmar também acusou o governo federal de permitir que o conflito entre Mendonça e a cúpula da PF fosse longe demais. Há alguns meses, Rodrigues vem reclamando da atuação do relator do caso do Master. E cansou-se de cobrar da Advocacia-Geral da União (AGU) alguma providência contra as decisões de Mendonça. No Brasil destes tempos estranhos, ser honesto é delinquência. Cumprir a lei é coisa de otário. E ministro que investiga os afilhados do decano merece castigo.
O diretor-geral, por exemplo, vive se queixando das restrições impostas à cúpula da PF na investigação das bandalheiras no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que alcançaram Lulinha. Rodrigues tampouco apreciou a entrega de dados brutos ao gabinete de Mendonça e a exigência de que eventuais trocas nas equipes policiais fossem comunicadas previamente ao relator. Para Mendes, Lula deveria ter amparado o diretor-geral antes que a disputa desembocasse em vazamentos aos jornalistas.
Enquanto Gilmar repreendia Lula, o presidente do STF procurava saber o que os ministros achavam da bomba que caíra em suas cabeças. À noite, informou que se pronunciaria sobre o episódio e antecipou o tom que pretendia adotar. Foi aprovado. Paralelamente, Gilmar estrelava em sua mansão no Lago Sul a recepção aos juristas estrangeiros, concebida para garantir aos visitantes que nada havia de anormal. Na manhã de quartafeira, Fachin comunicou aos presididos que leria a nota em nome do tribunal e pediu-lhes que evitassem comentários sobre o escândalo. Foi atendido.
Moraes e Mendonça ficaram lado a lado em silêncio. Os demais fingiram que não acontecera nada de mais. Longe de testemunhas, os superdoutores admitiam o tamanho da crise. Uma ala sussurrava que Moraes devia explicações, outra queixava-se da falta de corporativismo exibida por Mendonça. No fim da sessão, Moraes, Mendes, Cristiano Zanin, Fachin, Flávio Dino e Luiz Fux formavam uma roda quando, por algum motivo, desandaram em risos soltos e gargalhadas. O fotógrafo Brenno Carvalho, de O Globo, registrou a cena — que viralizou na internet como demonstração coletiva de desprezo pelos honestos e honrados.
Cegueira voluntária
Fora da roda risonha, Mendonça não esperou pelo motorista que costuma buscá-lo no Salão Branco e seguiu a pé rumo ao estacionamento. Ele já se habituou ao isolamento num tribunal controlado há seis anos pelo grupo fora da lei. Certamente sabe que é o único que será aplaudido se for visto caminhando em qualquer rua de qualquer cidade do país. Os súditos de Gilmar e cúmplices de Alexandre só parecem à vontade no que lhes serve de local de trabalho e esconderijo. Flávio Dino, por exemplo, aconselhou um empresário da área da saúde a afastar-se do corajoso relator. '
O ministro maranhense requisita carrões blindados para circular em sossego por São Luís do Maranhão. Gilmar recomendou a um empresário do ramo da comunicação que se mantivesse distante de Mendonça e suspendesse os encontros que vinha promovendo entre o relator e representantes de diversos setores produtivos. As revelações desta semana devem endurecer o cerco.
O surto de cegueira voluntária se espalha. Gonet solicitou a nulidade do relatório sem dar um pio sobre as mensagens que o incluem entre as autoridades cuja proteção Vorcaro costumava buscar. Na quarta-feira, os discípulos de Gilmar miraram o depoimento de Vorcaro, por videoconferência, a um juiz auxiliar do gabinete do relator, sem a presença da PF. O decano também andou murmurando que Mendonça enriquecera com um instituto que fundou, o Iter. Gilmar falando em enriquecer com institutos é piada pronta.
Os ministros do STF, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em solenidade comemorativa ao Dia do Soldado (Brasília, 2024) - Foto: Marcelo Camargo/Agência BrasilAcervo sideral
Nesta quinta-feira, ele propôs a Fachin a retirada dos delegados da PF que trabalham nos gabinetes do STF. Dos cinco policiais cedidos ao tribunal, dois auxiliam Mendonça nos casos Master e INSS. Um atua com Moraes. Outro, com Fux (o quinto trabalha na segurança). No mesmo dia, Moraes expandiu o acervo sideral do Inquérito das Fake News com acusações a Mendonça. Sem compreender que as coisas mudaram dramaticamente, o ex-carcereiro-geral da nação contou que já ordenara ao diretor-geral da PF o envio imediato dos relatórios de inteligência que mencionem integrantes do Supremo.
Não confessou como é a vida mansa de multimilionário. Também evitou discorrer sobre a arte de quintuplicar patrimônios imobiliários.
Moraes enxerga “fortes indícios” de que Mendonça, na condução dos casos Master e INSS, praticou três delitos: improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. Há outros, que ainda examina. Um deles: direcionar apurações contra ele próprio e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, por motivos pessoais e políticos. Moraes retirou o sigilo da decisão, comunicou o que resolvera ao amigo que chefia a PGR e enviou o material a Fachin.
Mendonça pretende liberar o pedido de investigação contra Moraes na próxima semana. Depois disso, caberá a Fachin decidir quando levará o caso a julgamento. Quando o pedido chegar ao plenário, Moraes e Dias Toffoli ficarão fora da discussão e da votação. Sobrarão oito ministros. Mendonça conta com o próprio voto e o apoio de Fux. Gilmar, Dino e Zanin formam o bloco contrário à condução do relator. Cármen Lúcia, Nunes Marques e Fachin são incógnitas. A ala de Gilmar, em tese, larga em vantagem: 3 a 2. A trinca sem posição definida decidirá se o STF vai investigar os trambiques gravíssimos desvendados pela PF ou enterrar o relatório que os tornou públicos.
Vera Chemim, mestre em Direito Público pela FGV, afirma que o que já se sabe é suficiente para justificar a abertura de um processo de impeachment. Para ela, as mensagens não podem ser omitidas nem escondidas “debaixo de um tapete meramente processual”. Vera sustenta que Mendonça agiu corretamente: a PF encontrou os diálogos durante a investigação do Master e só então o relator pediu que o plenário deliberasse sobre o desempenho de Moraes.
Vera defende a abertura imediata de uma investigação e o afastamento temporário de Moraes. A jurista também prevê que uma ala do STF tentará transformar Mendonça em suspeito e obter a nulidade dos atos praticados por ele. Se isso ocorrer, afirma, a discussão processual servirá para garantir a impunidade do ministro citado nas mensagens.
Velho roteiro Desde a abertura do Inquérito das Fake News, o Brasil é submetido a um estado de exceção comandado pelo Supremo. Em nome da defesa da democracia, a Corte acumulou as posições de vítima, investigadora e julgadora, transformou medidas extraordinárias em rotina e alargou os limites da própria competência.
A Vaza Toga escancarou tal sistema e consolidou um método de reação: diante de revelações incômodas, discute-se primeiro quem vazou, quem tinha competência, qual procedimento foi adotado e se as provas podem ser anuladas. O conteúdo, por mais grave que seja, fica para depois. Desta vez, porém, as mensagens vieram de um relatório oficial da PF, produzido a partir do celular apreendido com Vorcaro. Mendonça apenas determinou que a polícia identificasse quem estava do outro lado da conversa.
Ainda assim, o tribunal está dividido antes mesmo de decidir o que será julgado: a conduta de Moraes, a atuação do relator ou ambas. Se o foco for transferido para Mendonça, o STF terá transformado em suspeito o ministro que mandou esclarecer os fatos e deixará em segundo plano aquele cujo nome apareceu em contratos, encontros promíscuos e pedidos de gordos adjutórios.
Ou o Supremo aceita o fim do estado de exceção concebido há seis anos ou tenta usá-lo para, mais uma vez, proteger um de seus figurões. Perplexo com a chegada ao cume do Judiciário da ladroagem endêmica, o Brasil que pensa e presta exibe a espécie de perplexidade que precede a indignação.
Neste 7 de Setembro, os brasileiros poderão demonstrar nas ruas que Moraes e seus cúmplices merecem a reedição das duas famosas manchetes de uma palavra só publicadas pelo Correio da Manhã em 30 e 31 de março de 1964, ambas endereçadas aos figurões do governo de João Goulart. Primeira: BASTA. Segunda: FORA. A terceira nem foi necessária. O alvo sumira.
Augusto Nunes e Cristyan Costa - Revista Oeste