sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O retrato do Brasil, por Ana Paula Henkel

Uma Corte cada vez mais distante de suas funções e do País




Registro dos ministros Flávio Dino, André Mendonça e Alexandre de Moraes durante sessão no Supremo (3/9/2026) | Foto: Reprodução/Instagram 


A lgumas fotografias registram um instante e outras, involuntariamente, registram uma época. A fotografia que ilustra este artigo — e que me inspirou a escrevê-lo — foi feita no plenário do Supremo Tribunal Federal em 3 de setembro de 2026, mas acabou se tornando muito maior do que o instante que registrou. Hoje, parece guardar bem mais do que uma simples cena do plenário. No centro, André Mendonça. Sério. De um lado, Flávio Dino. Do outro, Alexandre de Moraes. Os dois às gargalhadas.

Doze dias depois, a composição que o acaso produziu ganhou uma força impressionante diante da cena institucional a que o Brasil assistiria menos de duas semanas depois. Aqueles três homens voltariam a ocupar o centro dos acontecimentos, e a fotografia acabaria transformada em símbolo de uma Corte cada vez mais distante de suas funções e do país sobre o qual exerce tamanho poder. 

O retrato parece condensar algo que ultrapassa aqueles poucos segundos. Para uma parcela do país que acompanha com crescente desconfiança a atuação do Supremo, ele se tornou a imagem de uma Corte que conserva um poder extraordinário ao mesmo tempo que enfrenta uma profunda crise de credibilidade. E a sessão de 15 de setembro ofereceu razões concretas para discutir essa crise. 

A convocação era extraordinária. Pela primeira vez, o plenário do STF iniciaria formalmente a discussão sobre a abertura de uma investigação destinada a apurar a conduta de um de seus próprios ministros. O caso era Alexandre de Moraes. O material levado ao plenário vinha de relatório da Polícia Federal relacionado às mensagens encontradas no âmbito das investigações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master.


Sessão plenária extraordinária do STF (15/9/2026) | Foto: Gustavo Moreno/STF


Era uma oportunidade rara para o Supremo enfrentar publicamente uma pergunta que atinge o fundamento de qualquer instituição republicana: quem exerce tamanho poder também está sujeito ao escrutínio quando surgem elementos que justificam esclarecimentos? Em qualquer instituição preocupada com sua própria credibilidade, dúvidas envolvendo um de seus integrantes deveriam aumentar o compromisso com a transparência.

O que se viu durante mais de sete horas foi muito diferente de uma discussão concentrada nessa pergunta. A sessão convocada para analisar se deveria ser aberta uma investigação sobre Moraes consumiu sete horas sem chegar a essa questão. André Mendonça, que trouxe o material ao escrutínio do plenário, acabou submetido a uma sucessão de acusações públicas de seus próprios colegas. O mérito permaneceu sem análise, como registrou o próprio Supremo ao final da sessão. 

Esse deslocamento diz mais sobre a crise do STF do que uma longa reconstrução das discussões daquele dia. A pergunta sobre Moraes perdeu espaço, e Mendonça acabou colocado no centro das acusações. Transparência, naquele plenário, pareceu transformar-se em provocação. 

Há tanto para ser dito sobre esse fatídico dia, uma mancha nas páginas do Supremo e do país. Mas é difícil observar a maneira como Gilmar Mendes se dirige a André Mendonça e reduzir o conflito a uma simples divergência jurídica. Existe ali uma distância muito mais profunda. Gilmar parece não reconhecer Mendonça como um intelectual. Trata-o com um desprezo que se manifesta no tom, nas palavras e na maneira como procura estabelecer diante dos demais ministros uma hierarquia que ultrapassa a condição formal de decano. 



Tom de Gilmar Mendes contra André Mendonça no STF expõe desprezo e conflito que vai além da divergência jurídica (15/9/2026) | Foto: Rosinei Coutinho/STF


O curioso é que essa pretensa superioridade parte de alguém que está longe de representar a figura do grande intelectual que parece enxergar em si mesmo. Há uma dose desconcertante de arrogância — e de hipocrisia — em erguer para si próprio um pedestal de erudição para, do alto dele, decidir quem merece ou não ser reconhecido como seu igual. Há também um choque de visões de mundo. Mendonça é pastor presbiteriano. Sua fé está publicamente integrada à maneira como compreende a própria vida. Sua formação, suas referências e o sistema de valores que carrega destoam profundamente de uma cultura jurídica brasileira na qual o poder, muitas vezes, aprendeu a enxergar a si próprio como fonte suficiente de autoridade. Esse contraste ajuda a explicar a sessão do dia 15. 

Mendonça aparece como um corpo estranho diante de uma facção que se acostumou a exercer enorme poder e a reagir com hostilidade quando esse poder é questionado. Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Flávio Dino desempenharam papéis distintos, numa sequência que pareceu tão bem articulada quanto ardilosa: cada um agiu à sua maneira, em momentos diferentes, mas todos empurraram a sessão na mesma direção. Ao final, a pressão havia sido deslocada para Mendonça, o mérito permanecia intocado e a apuração que justificara a convocação extraordinária não avançara. Três movimentos diferentes, um mesmo resultado. 

Mendonça ficou no centro. Exatamente como na fotografia. O episódio revela ainda uma característica preocupante da transformação do Supremo nos últimos anos. Uma instituição que deveria retirar sua autoridade da Constituição, da sobriedade e da confiança conquistada pela imparcialidade passou a ocupar diariamente o centro da vida política brasileira. Seus ministros se tornaram personagens permanentes do debate público. Suas declarações produzem crises políticas. 

Seus conflitos pessoais são transmitidos ao vivo. Suas decisões alcançam cada vez mais áreas da vida nacional. Quanto mais esse poder cresce, mais indispensável se torna a existência de limites. A desmoralização de uma instituição começa muito antes de sua autoridade formal desaparecer. Começa quando parte significativa da população passa a enxergar suas decisões com desconfiança, seus integrantes como atores políticos e suas regras como instrumentos aplicados com diferentes intensidades conforme o personagem envolvido. Nenhum acórdão consegue obrigar um povo a confiar. 

É justamente por isso que a fotografia de 3 de setembro incomoda e fale fala de maneira tão visceral com o país, retratando a realidade de uma Corte cada vez mais confortável com o poder que acumulou e cada vez menos constrangida pela desconfiança que provoca. Moraes e Dino estão às gargalhadas; Mendonça permanece sério entre eles. A câmera congelou um instante que acabou se tornando metáfora do abismo entre o Tribunal e milhões de brasileiros. As gargalhadas ganharam contornos de deboche, símbolo de um poder confortável consigo mesmo e aparentemente indiferente à própria crise de credibilidade. E, no centro da fotografia, permanece um homem sério.
 

Flávio Dino, André Mendonça e Alexandre de Moraes durante sessão no Supremo (3/9/2026) | Foto: Reprodução/Instagram


Mendonça construiu parte importante de sua formação acadêmica em Salamanca, na Espanha. E é justamente Salamanca que oferece uma imagem histórica extraordinária para compreender a discussão sobre poder e autoridade que o Supremo colocou diante do país. Em 12 de outubro de 1936, poucos meses depois do início da Guerra Civil Espanhola, Miguel de Unamuno, então reitor da Universidade de Salamanca, protagonizou um episódio que atravessaria o século. 

A Espanha mergulhava numa guerra que expunha toda a brutalidade das paixões políticas transformadas em violência. Durante uma cerimônia na universidade, discursos exaltados provocaram a reação de Unamuno. Diante de militares, autoridades e apoiadores do levante, o filósofo se levantou e pronunciou palavras que sobreviveriam à guerra e aos homens que naquele momento pareciam controlar o destino da Espanha. Daquele episódio nasceu uma das frases mais célebres associadas a Unamuno, uma advertência que atravessaria gerações:

“Vencer não é convencer.” 

A diferença parece pequena, mas é imensa. Um tribunal vence pela autoridade que a Constituição e as leis lhe conferem. Suas decisões produzem efeitos, mesmo quando desagradáveis, impopulares ou contestadas. Nenhuma Suprema Corte poderia cumprir sua função se sua autoridade dependesse de aplausos. Convencer pertence a outra esfera. Exige que a sociedade reconheça nas instituições critérios que ultrapassam a força de uma decisão: coerência, imparcialidade, previsibilidade, autocontenção e transparência. 

Exige, acima de tudo, a confiança de que aqueles que julgam também aceitam ser submetidos às regras que aplicam aos demais. É nesse ponto que a sessão de 15 de setembro se torna maior do que o caso Master. Uma Corte pode sobreviver a divergências. Aliás, deve conviver com elas. O problema surge quando a própria instituição oferece ao público motivos para perguntar se os mesmos padrões de escrutínio valem dentro e fora de suas paredes. Por isso a transparência importava tanto na terça-feira. 

Ao final de mais de sete horas, a pergunta que justificara a sessão extraordinária continuava sem resposta. O país não assistiu à conclusão sobre a abertura da investigação. Assistiu ao conflito entre ministros, às acusações contra Mendonça e ao covarde pedido de vista de Dino que interrompeu o julgamento.

Voltemos, então, à fotografia. Seria injusto exigir tanto de uma imagem. Ela não conhece o caso Master, não leu relatórios da Polícia Federal, não assistiu à sessão de 15 de setembro. Sequer pertence àquele dia. Uma fotografia captura apenas um breve instante. Algumas frações de segundo, porém, sobrevivem ao instante que as produziu.

No centro está André Mendonça, com a mesma expressão séria. Aos lados, Alexandre de Moraes e Flávio Dino às gargalhadas. Depois do vexame protagonizado pelo STF na última terça-feira, a imagem ganhou ainda mais força e deixou uma pergunta sobre o exercício do poder no Brasil: o que resta da autoridade de uma instituição que conserva a força para impor suas decisões, mas perde progressivamente a capacidade de inspirar confiança? 

O Supremo tem diante de si um problema que nenhuma maioria de seis votos e nenhum pedido de vista conseguem resolver: confiança pública não nasce de decisões judiciais. A autoridade moral tampouco pode ser imposta pela força de uma toga. A advertência de Unamuno permanece assustadoramente atual. Vencer não é convencer.


Sessão plenária extraordinária do STF (15/9/2026) | Foto: Gustavo Moreno/ST


Ana Paula Henkel - Revista Oeste