O ministro André Mendonça, do STF, durante sessão da 2ª Turma do STF - 16/06/2026 | Foto: Rosinei Coutinho/STF
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), comparou a produção e a divulgação de relatórios de inteligência da Polícia Federal (PF) a um cenário descrito por George Orwell no livro 1984. A referência consta de decisão desta terça-feira, 8, que afastou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
Mendonça relacionou a comparação a três fatos: a elaboração dos relatórios, o conhecimento prévio do ministro Alexandre de Moraes sobre os documentos e a divulgação posterior do material. Segundo ele, esse conjunto revela fatos de “extrema gravidade”.
“Diante do quadro ora apresentado, que mais se assemelha ao cenário concebido por George Orwell em sua célebre distopia, intitulada ‘1984’”, escreveu Mendonça. “(…) verifica-se, a mais não poder, que a produção dos ‘relatórios de inteligência’ em questão, o fato de sobre eles ter sido dada ciência prévia ao Ministro Alexandre de Moraes e a posterior divulgação desses ‘documentos’, revelam fatos de extrema gravidade, com repercussões não apenas no plano institucional, mas também quanto à segurança e integridade pessoal de integrante deste Supremo Tribunal Federal, além de outras autoridades públicas.”
Publicado há 77 anos, 1984 retrata uma sociedade submetida à vigilância do “Grande Irmão”. Na obra, o “Ministério da Verdade” controla a circulação de informações.
Edição do livro 1984 da Companhia das Letras - Foto: Reprodução/ Amazon
Críticas de Mendonça aos relatórios
A decisão ocorre em meio à disputa entre Mendonça e Moraes. Relator do caso Master, Mendonça retirou, na terça-feira 1º, o sigilo de investigações da PF que apontavam proximidade entre Moraes e Daniel Vorcaro, ex-banqueiro preso e dono do Master.
Dias depois, Moraes pediu a abertura de uma investigação contra Mendonça. O pedido se baseou em um documento da PF, sem caráter probatório, que apontava assimetria em medidas adotadas pelo ministro contra políticos no caso Master.
Nesta terça-feira, 8, Mendonça também suspendeu a produção e o compartilhamento de relatórios de inteligência da PF sobre a atuação funcional de ministros do STF. Ele afastou preventivamente Andrei Rodrigues e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa.
O ministro afirmou ainda que foi monitorado pela PF por pelo menos 30 dias em agosto. Segundo ele, houve atividades de “monitoramento” e “coleta dirigida” de informações contra ele e contra o advogado-geral da União.
Mendonça também criticou o relatório apresentado por Moraes à presidência do STF para pedir sua investigação. Ele classificou o documento como tecnicamente frágil e o chamou de “um verdadeiro ‘nada jurídico’”.
Letícia Alves - Revista Oeste