Oeste reúne nesta edição especial informações e análises que, conjugadas, permitem a montagem do programa de governo que sempre faltou ao Brasil
O Brasil nasceu sob o signo da tapeação. Fingiam buscar um novo caminho das Índias as caravelas que em abril de 1500 toparam com aquela demasia de maravilhas: praias extensas com areia branca, banhadas por ondas verdes ou azuis, muita mata, muita flor, muito rio, muito peixe, muito bicho de carne tenra, muita fruta sumarenta e, melhor que tudo, muita índia sem panos no corpo e desprovida de pelos nas partes pudendas.
O Brasil balançou no berço da safadeza. Souberam disso tarde demais aqueles viventes cor de cobre, os homens prontos para trocar preciosidades por quinquilharias, as mulheres (entre as quais as filhas do cacique) prontas para abrir o sorriso e as pernas aos forasteiros, pois os nativos praticavam sem remorso o que só era pecado do outro lado do oceano.
O Brasil nasceu carnavalesco. Nem a mais criativa escola de samba pensaria em juntar num mesmo bloco, como fez o quadro que reproduz a primeira missa na Bahia, um padre de batina erguendo o cálice sagrado, navegantes fantasiados de soldados medievais, marinheiros com traje de domingo, índios com a genitália desnuda e a cruz dos cristãos no convívio amistoso com arcos, flechas e bordunas.
O Brasil balançou no berço da maluquice. Marujos ainda mareados com a descoberta do paraíso decidiram que aquilo era uma ilha e se chamaria Ilha de Vera Cruz, até desconfiarem, muitas milhas depois, que era muito litoral para uma ilha só. Então acharam sensato rebatizar o colosso ausente dos mapas com o nome de Terra de Santa Cruz, porque disso ninguém duvidava: era terra firme aquilo que pisavam quando desembarcavam da caravela.
O Brasil nasceu preguiçoso. Passou a infância e a adolescência na praia, e já tinha 200 anos quando criou ânimo para escalar o paredão verdeescuro. Extenuados, estacionaram mais um século no Planalto antes de aventurar-se pelos sertões blindados pela mata virgem. Então ficou combinado que, dali por diante, tanto os nativos da terra quanto os oriundos de outras paragens poderiam deixar para amanhã o que deveriam ter feito ontem.
Deu no que deu. O Brasil parido pelo equívoco hostilizou os civilizadores
holandeses para manter-se sob o jugo do império português. O Brasil
amalucado teve como primeira e única rainha uma doida de hospício. O
Brasil da safadeza acolheu o filho da rainha que roubou a matriz na vinda
e a colônia na volta. O Brasil preguiçoso foi o último a abolir a escravidão.
O Brasil sem pressa foi o último a abolir a monarquia e virar República. Aberto em 1889, o cortejo dos presidentes, ministros, senadores, deputados federais, governadores, deputados estaduais, prefeitos e vereadores atesta que a troca de regime não mudou a essência da coisa: o Brasil republicano é o Brasil monárquico de terno e gravata, só que mais abusado e cada vez mais cafajeste. Oswaldo Aranha, um genuíno estadista, enxergava no Brasil do século 20 um deserto de homens e ideias. A aridez não amainou.
E a paisagem ficou ainda mais desoladora com a expansão do oásis que hoje abriga todas as espécies de corrupto. Ainda assim, o país tem jeito. A confiança no futuro tem como alicerces proezas do passado. Uma delas é a unidade nacional, o verdadeiro milagre brasileiro. O sotaque, a gastronomia, as manifestações artísticas, o tipo físico e outros quesitos demonstram que há mais diferenças entre gaúchos e cearenses, por exemplo, do que entre peruanos e equatorianos.
Os sul-americanos de fala espanhola vivem em países distintos. Brasileiros de todas as regiões cantam o mesmo hino, reverenciam a mesma bandeira e torcem pela mesma seleção. Só pode ser duro na queda quem consegue sobreviver a três mandatos de Lula e quase seis anos com Dilma Rousseff no Planalto.
Mas o destino pode ser cruel com reincidentes em decisões suicidas. É muito perigoso, por exemplo, manter na Presidência um analfabeto cercado por incapazes ou gente capaz de tudo. O PT e seus comparsas compõem uma seita que tem num larápio o seu único deus. Para encontrar o caminho certo, o Brasil precisa primeiro livrar-se de quem sempre faz a escolha errada.
A formação política do país foi duramente castigada pela inexistência de partidos políticos de verdade, providos de balizas ideológicas, programas administrativos abrangentes e projetos factíveis. É nesse ambiente que surgem e crescem políticos talentosos e bons governantes. Como o Brasil nunca teve partidos assim, os eleitores ignoram siglas na hora do voto. Escolhem pessoas. Essa deformação alimenta a crença no homem providencial — aquele que vai resolver todos os problemas passados, presentes e futuros. Tal figura não existe.
O jornalista Aristides Lobo resumiu numa frase o comportamento dos brasileiros surpreendidos pela Proclamação da República: “O povo assistiu àquilo bestializado, como se acompanhasse uma parada militar. Foi assim em todos os grandes acontecimentos históricos: a inexistência de mobilização popular atesta que a gente comum renunciou ao papel de protagonista para transformar-se em espectador silencioso. No mundo inteiro, partidos vivem à procura de eleitores.
Aqui, milhões de eleitores procuram um partido que efetivamente os represente. Empenhada em apressar o amadurecimento do Brasil democrático, Oeste reuniu nesta edição especial informações e análises que, conjugadas, permitem a montagem do programa de governo que sempre faltou ao Brasil. Só levam a portos seguros rotas definidas com clareza e competência por quem conhece o oceano.
Augusto Nunes - Revista Oeste