sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guilherme Fiuza e a 'SENSAÇÃO'

 

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

A palavra “sensação” está na moda. De fato, ela tem tudo a ver com os tempos atuais. A era das coisas “instagramáveis” ou não “instagramáveis” é um show de sensações. Quanto menos conectadas com a realidade, melhor. 

A humanidade se cansou da vida real. Compreensível. Na vida real, é bem difícil você ser herói com um vídeo e uma legenda. Isso frustra o ser humano.

 As pessoas não aguentavam mais ser comuns, vendo todo o charme e o frisson indo pro Antônio Fagundes, a Bruna Marquezine e o Cristiano Ronaldo.

 Aí chegou o Instagram e acabou com essa angústia. Hoje todo mundo é famoso sem precisar ser nada.

 Ufa, até que enfim.

 Basta uma frase humanitária e o dia tá ganho. É a chamada “sensação de grandeza”. 

E o pessoal preocupado com os preços… 

A sensação de grandeza não é só uma recompensa para o bem-estar individual. 

Ela deflagra outras sensações — de pertencimento, de utilidade, de simpatia, empatia, homeopatia e apatia (benigna). 

Nos dias de hoje, o ser apático é um pensador. 

Não perturbem a gestação da próxima postagem matadora. Quem continua aferrado às coisas reais está com a sensação errada. 

Desculpe o alerta, mas é para o seu bem. 

Talvez você estivesse pensando agora em criticar o poder por causa de algum desmando, e aí você já pode dar meia-volta e botar a viola no saco.

Você provavelmente estava prestes a disparar uma “narrativa antiestatal”, sem saber que isso hoje é pecado. 

Críticas ao poder fazia sua avó. 

Agora você estaria desacreditando as instituições e descredibilizando os fundamentos da democracia.

 Presta atenção, distraído. 

A imprensa é parceira do poder nessa nova ordem. 

Ela atua para garantir que as melhores sensações confortem a opinião pública — salvando a população das agruras das coisas reais. 

Se você criticar esse novo papel da imprensa, será imediatamente enquadrado como negacionista e propagador de ódio. 

Isso se não te chamarem também de bobalhão, por estar querendo ver jornalistas exercendo seu antigo ofício de fazer jornalismo. 

Você é um nostálgico. 

Sensação de preço alto se resolve com sensação de mordaça. 

Sensação de roubalheira (de novo?!) se resolve com sensação de impunidade. 

Sensação de Venezuela se resolve com sensação de Nicarágua. Sensação de enjoo se resolve com estômago de aço. 

E, claro, sensação de governo velho se resolve com aventureiros novos. 

Ou seja: tudo se resolve. 

A grande heresia se chama vida real — mas essa está sob controle.


Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA


Guilherme Fiuza - Revista Oeste