sexta-feira, 17 de julho de 2026

Governo Lula 'jogou parado' diante do tarifaço, diz Marcos Troyjo

 Economista sustenta que Planalto deixou de negociar com Washington e credita exceções nas tarifas às empresas brasileiras


 



O economista Marcos Troyjo, ex-secretário especial de Comércio Exterior, afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva “jogou parado ou não jogou” diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos às exportações brasileiras. A declaração ocorreu durante entrevista ao Arena Oeste nesta quinta-feira, 16. 

Troyjo afirmou que o governo brasileiro limitou-se a uma atuação protocolar, sem apresentar propostas concretas para reduzir as barreiras impostas pelos norte-americanos. “Fizemos uma espécie de jogo essencialmente coreografado, protocolar, de responder aqui e ali”, disse, ao comparar com outros países: “Os indianos até receberam delegações norte-americanas em Nova Delhi para negociar essas tarifas.”

O economista foi secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia durante o governo de Jair Bolsonaro. Também presidiu o Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco do Brics. 

Durante a entrevista, ele afirmou que as exceções concedidas a determinados setores foram motivadas pelas necessidades do mercado norte-americano, diante do risco de desabastecimento ou de aumento da inflação provocado pela redução da oferta de alguns produtos, e pela mobilização direta de empresas exportadoras. “Quem segurou muito a onda, quem tomou a frente nesses últimos 12 meses foi o setor empresarial do Brasil”, declarou. 

Mérito das empresas brasileiras”, afirmou o economista, em contraste com a atuação do governo federal: “Mérito do governo brasileiro: zero”

Para Troyjo, o setor privado conseguiu reduzir parte dos prejuízos do tarifaço, mas não tem condições de substituir o governo nas negociações. “Tem certas funções negociadoras que cabem ao governo e são insubstituíveis”, disse. Como exemplo, cita uma defesa ampla do setor produtivo nacional. 

“As empresas têm que correr atrás dos seus interesses. Agora, elas correm atrás daquilo que é o interesse dos seus acionistas, do seu setor. Elas não vão ter uma negociação macro.”

Ao ser perguntado sobre o que o governo efetivamente fez nessas áreas, o economista foi direto: “Nós não fizemos”. Retórica contra Trump prejudicou diálogo, afirma economista Troyjo também criticou as declarações de Lula contra o presidente norte-americano, Donald Trump, e integrantes de seu governo. Para ele, o tom adotado pelo petista contribuiu para criar um ambiente desfavorável à negociação.

.“Você tem um agravamento da retórica do governo brasileiro contra o presidente Trump e a administração norteamericana”, afirmou. Ele citou, entre outros episódios, as declarações de Lula durante a campanha presidencial dos EUA, quando o petista manifestou preferência por Kamala Harris e associou uma eventual vitória de Trump à volta do fascismo. 


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento em Santa Catarina - Foto: Ricardo Stuckert / PR


“Você vai tomando nota dessas coisas todas”, disse Troyjo. “Então, de repente, você tem uma série de elementos que constituem uma espécie de energia negativa, uma má vontade por parte dos norte-americanos em relação ao Brasil.

 Segundo o economista, o governo deveria separar disputas políticoeleitorais dos interesses permanentes do país. “O que o Brasil ganha em ter o seu chefe de Estado chamando o secretário de Estado de um latino-americano frustrado?”, perguntou. “A não ser que o sujeito vá achar que ele vai ter um dividendo político-eleitoral com isso, junto ao seu próprio público, é a única explicação.”

Aindfa segundo ele, os EUA importam anualmente entre US$ 3,7 trilhões e US$ 4 trilhões em produtos e serviços. O Brasil, porém, responde por cerca de 1% dessas compras. “A nossa participação naquele que é o principal mercado comprador do mundo é muito pequena”, disse. “É um desperdício, se você levar em consideração que são as duas maiores democracias do Ocidente e as duas maiores economias do nosso continente.

” Para o economista, é difícil imaginar uma estratégia de desenvolvimento que não considere uma relação prioritária com os EUA. “É muito difícil você pensar em não privilegiar o mercado norteamericano”, afirmou. “Temos uma característica de décadas e décadas de perder oportunidade de acesso privilegiado a essa que é a maior economia do mundo.” 

Mateus Conte - Revista Oeste