sexta-feira, 15 de maio de 2026

'Cazarré no campo de reeducação da GloboNews', por Flávio Gordon

 O ator, que lançou um curso sobre masculinidade, foi convocado ao estúdio para aprender sobre a realidade com professores ideólogos


Juliano Cazarré - Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Reprodução Instagram 

No texto 'A Crise na Educação' (1957), a filósofa Hannah Arendt diz que a base do totalitarismo é uma concepção pedagógica da política. Em suas palavras: “A educação não pode desempenhar nenhum papel na política porque na política se lida sempre com pessoas já educadas. Aqueles que se propõem a educar adultos, o que realmente pretendem é agir como seus guardiões e afastá-los da atividade política. Como não é possível educar adultos, a palavra ‘educação’ tem uma ressonância perversa em política — há uma pretensão de educação quando, afinal, o propósito real é a coerção sem uso da força.” 

Pois foi exatamente um ambiente de pedagogia política que a GloboNews armou para Juliano Cazarré no último dia 12. Cazarré, que nas últimas semanas ganhou visibilidade ao anunciar um curso e um congresso sobre masculinidade voltados a homens católicos, foi convocado ao estúdio para aprender sobre a realidade com professores ideólogos de extrema esquerda. 

A matéria do dia, formulada pela apresentadora com a solenidade de quem proclama verdades autoevidentes, era esta: existe uma “epidemia de violência contra as mulheres”, e o ator, ao falar em masculinidade sem pedir desculpas por isso, deveria se sentir um cúmplice. Os debatedores escalados para instruir o processo eram uma psicanalista feminista e um “consultor sobre equidade de gênero e raça” — o tipo de profissão parida em faculdades de ciências humanas cujos objetos de estudo inexistem fora das próprias fórmulas ideológicas que os criaram. 


Cazarré anunciou o evento “O Farol e a Forja”, um retiro de três dias voltado exclusivamente para homens - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Felizmente, Cazarré recusou sujeitar-se à empreitada. Gentilmente, mas com firmeza. Foi o bastante para revelar aquilo que a intelligentsia progressista insiste em chamar de “debate”: um monólogo interrompido, de tempos em tempos, pela presença inconveniente de alguém que discorda — e que por isso deve dar a mão à palmatória “progressista”. 


“Os homens matam as mulheres” 

A cena que mais merece atenção no tal “debate” não foi a recusa de Cazarré em deixar-se educar por ideólogos munidos de suas ferramentas de distorção do real. Foi a fala da psicanalista feminista. 

“Os homens”, disse ela, “matam as mulheres”. Não alguns homens. Não uma fração criminosa e patológica. 

Os homens — o sexo, a categoria, o conjunto. Como se o cromossomo Y fosse, por determinação biológica ou cultural, uma sentença de morte para as pessoas do entorno. Se alguém, naquele mesmo estúdio, tivesse afirmado que “os negros roubam” ou que “os nordestinos são violentos”, o programa teria sido interrompido, as câmeras teriam sido apagadas, e o responsável pela fala estaria em vias de responder a processo. 

A generalização coletiva infamante — atribuir a todo um grupo o comportamento desviante de uma minoria — é reconhecida, pela boa filosofia e pelo bom senso, como o mecanismo primordial do preconceito. Mas há, no cardápio progressista, um grupo que ainda pode ser difamado em bloco, sem custo social, sem processo, sem a menor fricção: os homens. E a psicanalista o fez, sem corar, diante das câmeras. Não satisfeita, acrescentou que os homens são uma “ameaça perene” às mulheres.


Cromossomos X e Y - Foto: Shutterstock 

Mas façamos aqui umas contas de padaria que a “especialista” não quis fazer. O Brasil conta com aproximadamente 855.714 homens sentenciados ou presos provisoriamente — por qualquer crime, do furto ao homicídio. A população masculina total é de cerca de 99,3 milhões. A divisão elementar resulta em 0,86%. Ou seja, menos de um homem em cada cem tem passagem pelo sistema penal, por qualquer delito. 

Imaginemos, por generosidade intelectual ao argumento contrário, que a subnotificação é enorme, que boa parte dos crimes não resulta em processos criminais e que muitos autores jamais são presos. Multipliquemos então esse 0,86% por dez — uma inflação astronômica, sem paralelo em qualquer estimativa séria. Chegamos, pois, a 8,6%. Arredondando: 9%. Ou seja, mesmo na hipótese mais catastrofista, teríamos que concluir que 91% dos homens brasileiros não cometem crime algum — muito menos crime que resulte na morte de alguém. 

Noventa e um por cento! Temos uma supermaioria que trabalha, cria filhos, paga impostos, cuida de pais idosos, entra em prédios em chamas, conserta a rede elétrica depois de tempestades, desce a minas, limpa o esgoto que a cidade produz. Homens que protegem e servem — mulheres e homens, indiscriminadamente — muitas vezes ao custo da própria vida. Essa maioria, a psicanalista varreu para baixo do tapete da narrativa, que só tem espaço para os 9%. E mesmo esses, note-se, raramente chegam perto de um crime de morte.


Bombeiros homens - Foto: Shutterstock

A psicanalista, que professa conhecer os meandros da psique humana, comete aqui um erro que qualquer epistemólogo de primeiro ano saberia nomear: toma a exceção pela regra, o desvio pelo universal, o patológico pelo normal. É como se um oncologista, depois de tratar tumores a vida inteira, concluísse que o corpo humano é, por natureza, uma fábrica de câncer. O diagnóstico não segue da evidência. Segue da agenda. Mas, no centro de reeducação ideológica da GloboNews, uma militante com uma fala tão extremista como “os homens são uma ameaça perene às mulheres” não é tida por extremista, nem radical, nem adepta de um discurso de ódio aos homens. Ao contrário, ela foi escalada como um dos profissionais responsáveis por “educar” o “extremista” Juliano Cazarré. 

A “epidemia” que não existe O programa foi apresentado à audiência como um debate sobre o papel dos homens “num contexto de epidemia de violência contra as mulheres”. A escolha da palavra “epidemia” é politicamente calculada: epidemias pedem estado de emergência, poderes excepcionais e a suspensão do debate racional. Quem questiona medidas sanitárias no auge de uma pandemia? Quem questiona a narrativa da epidemia feminicida? 

Examinemos os dados que a narrativa da epidemia sistematicamente deforma. O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 45.747 homicídios no Brasil em 2023. Desde 2018, quando houve uma redução na letalidade, a média tem se mantido mais ou menos essa – entre 40 e 50 mil homicídios por ano. Aproximadamente 20 homicídios por cem mil habitantes. Apesar da redução dos últimos anos, trata-se de um número muitíssimo elevado, que coloca o país como um dos mais violentos do mundo.

Diante desse cenário, há realmente um fenômeno particularmente alarmante de assassinatos de mulheres? De acordo com aqueles mesmos institutos de pesquisa, os homens representam cerca de 90% das vítimas de homicídio. O argumento feminista padrão é que, além da criminalidade violenta em geral, as mulheres são vítimas de um crime específico, motivado exclusivamente pelo fato de serem mulheres. Esse tipo criminal específico ganhou o neologismo feminicídio — o termo que serve de argumento simbólico da espécie de ativismo misândrico que se viu no centro de reeducação da GloboNews.

Em 2024, segundo os dados, foram registrados 1.492 feminicídios: uma taxa de 1,4 por 100 mil mulheres. É claro que essas mortes merecem toda a atenção do Estado e da sociedade — mas elas não configuram, em nenhuma leitura honesta dos dados, uma epidemia. 

Para efeito de comparação: no mesmo ano, os homicídios dolosos totais no Brasil atingiram 35.565 vítimas, das quais mais de 32 mil eram homens. O grito de horror da mídia e dos “especialistas” é seletivo e bem calibrado. Há ainda um detalhe metodológico que raramente aparece nos debates televisivos: parte do crescimento nos registros de feminicídio se deve a mudanças na tipificação legal, não necessariamente a um aumento real dos crimes. 

O percentual de homicídios de mulheres classificados como feminicídio passou de 9,4% em 2015 para 40,3% em 2024 — crescimento explicado, em grande parte, pelo aprimoramento institucional na identificação e classificação dos casos, conforme reconhecem os próprios pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Quando o instrumento de medição muda, o número medido muda — isso não significa necessariamente que o fenômeno cresceu.


O nome e a coisa: sobre a ambiguidade conveniente do termo “feminicídio”

Introduzido no Código Penal brasileiro pela Lei 13.104/2015, o tipo penal feminicídio abrange duas situações distintas: crimes em contexto de violência doméstica e familiar, e crimes motivados por ódio ou discriminação à condição de mulher. São dois eixos muito diferentes — um contextual, outro intencional — frequentemente colapsados num único conceito como se fossem a mesma coisa. Na prática, a esmagadora maioria dos casos enquadrados como feminicídio ocorre no primeiro eixo: o doméstico. 

O que nos dizem os dados? Que 80% dos casos são cometidos por companheiros ou excompanheiros; que 64% ocorrem dentro de casa; que os gatilhos imediatos são ciúme, separação, álcool, ressentimento, impulsividade criminosa. O assassino não mata “a mulher” como categoria abstrata. Mata aquela mulher, naquele relacionamento específico, numa explosão de desordem interior que diz mais sobre seu caráter e suas patologias do que sobre qualquer projeto ideológico de dominação masculina.


Foto: Shutterstock

Por óbvio, isso não diminui a gravidade do crime. Diminui, entretanto, a legitimidade da explicação totalizante que o ativismo de gênero fabrica em cima dele. Quando se substitui a pergunta “por que este homem matou?” pela pergunta “em que sistema simbólico de opressão este crime se inscreve?”, a resposta já vem embutida na pergunta. A teoria fecha-se sobre si mesma, impermeável a qualquer evidência contrária. Isso não é ciência; é ideologia com verniz acadêmico. 

Cazarré até que tentou levantar esse questionamento sobre a imprecisão do termo feminicídio, e sobre a necessidade de algum registro material de ódio generalizado às mulheres para se caracterizar um homicídio feminino como feminicídio. Mas não teve tempo de desenvolver o raciocínio, tendo sido interrompido com jargões militantes do tipo “controle sobre os corpos femininos” e etc. 

Quando tentava aludir ao seu exemplo próprio de conduta masculina, como contraponto à acusação permanente (implícita ou nem tanto) de que conteúdos como o do seu curso levam ao feminicídio, o ator era respondido com frases como “não podemos nos restringir ao seu caso pois precisamos olhar para as masculinidades, no plural”. Ou seja, toda vez que o convidado tentava puxar a conversa para a realidade concreta e para homens de carne e osso, os ideólogos do programa tratavam de reconduzi-la ao plano das abstrações e do idioma hiperideologizado da esquerda identitária. 

Acrescente-se ao contexto ideológico da invenção do “feminicídio” uma assimetria classificatória reveladora: não existe categoria equivalente, com a mesma força simbólica e atenção política, para homens mortos por parceiras. Não porque esses casos sejam inexistentes — existem —, mas porque não se encaixam no modelo interpretativo dominante. A lente ilumina intensamente um lado do fenômeno e deixa o outro na penumbra. 

O resultado é uma percepção pública sistematicamente distorcida, fabricada não pela realidade, mas pelo recorte ideológico de quem decide o que merece ser visto. “Nem todo homem mata, mas é sempre um homem” — como disse a psicanalista feminista, esquecendo-se que não, nem sempre é homem o autor de um homicídio. No mundo real, fora do universo mental da militância, mulheres também cometem violência doméstica — em frequência comparável à dos homens, nos casos de violência não letal, conforme demonstrado por décadas de pesquisa acadêmica, sintetizadas pelo sociólogo Murray Straus, da Universidade de New Hampshire, e analisadas pelo filósofo David Benatar em The Second Sexism: Discrimination Against Men and Boys — e, embora estatisticamente em menor número, também matam seus parceiros no contexto de crimes passionais.


Livro The Second Sexism de David Benatar - Foto: Divulgação 


A masculinidade que “nunca trouxe nada de bom” A reeducadora de Cazarré sentenciou, sem titubear: o modelo de masculinidade no qual o homem é provedor e a mulher é cuidadora “não funciona”. “Ele tem mais de cem anos”, disse ela, “e não deu certo”. 

E, com uma autocomiseração que seria cômica se não fosse televisionada em horário nobre: “Nós estamos morrendo por falta de os homens ouvirem as nossas críticas.” A psicanalista valeu-se ainda da técnica da denúncia contra o manterrupting para falar sem ser contraditada. A afirmação merece ser respondida com a seriedade que lhe cabe — que é pouca, mas não nenhuma. O modelo criticado — o homem que trabalha, protege, provê — não tem “mais de cem anos”. Ele é tão antigo quanto a organização humana em famílias, anterior à escrita, à roda e a qualquer “consultor de equidade de gênero”. 

Foi esse modelo, com todas as suas tensões, que ergueu civilizações, descobriu continentes, desenvolveu vacinas, atendeu feridos em campos de batalha, construiu o encanamento que leva água até a casa da psicanalista, a rede elétrica que alimenta o estúdio da GloboNews e o hospital onde nasceram seus filhos. 

Dizer que ele “não deu certo” não é uma análise histórica. É uma amnésia voluntária a serviço de uma tese. E aqui o programa revelou sua maior omissão. Em nenhum momento a psicanalista mencionou — nem de passagem, nem por acidente — a gigantesca proporção masculina em profissões de risco e sacrifício. Os bombeiros que entram em edifícios em chamas são, de modo esmagador, homens. Os policiais que patrulham bairros violentos de madrugada são, na sua imensa maioria, homens. 

Os que limpam o esgoto, consertam a rede elétrica em dias de tempestade, trabalham nas minas, constroem as estradas — homens, homens, homens. Esses homens protegem e servem mulheres e homens indiscriminadamente, todos os dias, com frequência ao custo da própria saúde e da própria vida. Seriam eles também, como sugere a psicanalista feminista, uma “ameaça permanente” às mulheres?


Membros da Guarda Municipal participam de um desfile em comemoração à independência do Brasil na cidade de Salvador, Bahia (07/09/2014) - Foto: Shutterstock


No best-seller The Myth of Male Power, Warren Farrell observou, com sua ironia precisa, que a mídia produz especiais perguntando “o homem da casa ao lado molesta meninas?” — mas jamais produz especiais intitulados “o homem da casa ao lado salva meninas?”, embora os bombeiros que resgatam crianças sejam, de forma esmagadora, homens. A narrativa seleciona. E o que ela seleciona diz mais sobre sua agenda do que sobre a realidade. 

Cazarré saiu do programa de pé. Recusou a contrição, não assinou a confissão, não pediu perdão por ser quem é. Ao se recusar a aceitar as premissas do julgamento, o ator fez o que qualquer pessoa intelectualmente honesta deveria fazer diante de um tribunal disfarçado de debate: pediu as evidências. E as evidências, como vimos, não sustentam o veredito. 

O feminismo contemporâneo, em sua versão mais militante, transformou uma causa legítima — o combate à violência real contra mulheres reais — num dispositivo retórico a serviço de uma agenda política que tem muito mais a ver com a conquista de poder institucional e simbólico do que com a proteção de qualquer vítima concreta. 

Reconhecer isso não é negar a gravidade da violência doméstica. Trata-se apenas de recusar que uma narrativa — por mais eloquente, por mais amplificada pela grande mídia, por mais repetida em estúdios com iluminação profissional — substitua o esforço mais difícil e mais honesto de compreender a realidade que pretende nomear. Mas a realidade, para a intelligentsia progressista, sempre foi um detalhe incômodo. E a GloboNews tem bons microfones, boas câmeras e luz boa o suficiente para não precisar dela.


'Cazarré no campo de reeducação da GloboNews', por Flávio Gordon