segunda-feira, 27 de abril de 2026

Flávio Gordon: E tentaram novamente...

A pergunta que a grande imprensa se recusa a formular é a única que importa: quem escreveu o roteiro que trouxe esse homem até ali?


O ex-presidente Donald Trumpo, no comício, logo depois do atentado - 13/7/2024 | Foto: Reprodução/Twitter/X


Na noite do sábado 25, Cole Tomas Allen, 31 anos, residente de Torrance, Califórnia, rompeu os cordões de segurança do jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca empunhando múltiplas armas — entre elas um fuzil —, disparou ao menos meia dúzia de tiros e feriu um agente do Serviço Secreto, salvo pelo colete à prova de balas. É o terceiro atentado contra Donald Trump em dois anos. Alguém ainda se atreve a chamar isso de coincidência? 

Quando Tyler Robinson assassinou Charlie Kirk, em setembro passado, escrevi nestas páginas sobre a estrutura espiritual do ódio revolucionário — essa pseudo-transcendência do ressentimento que substitui a busca do bem pela perseguição obsessiva do mal a destruir. Robinson explicou o crime com uma frase que merece ser gravada em bronze como documento de época: “Eu não aguentava mais o ódio dele”. O sujeito que acabara de cometer um homicídio atribuía o ódio à vítima — um notório apologista do diálogo, que construiu a carreira inteira sobre o confronto civilizado de ideias.


Trata-se da inversão revolucionária em estado puro: o algoz se proclama vítima no exato instante em que aperta o gatilho. O professor Olavo de Carvalho observava que essa inversão entre sujeito e objeto — entre vítima e algoz, entre perpetrador e mártir — é o traço permanente de todas as manifestações revolucionárias, de  Trump: 

tentaram novamente...  Stalin a Pol Pot, e o método de pensamento essencial da intelectualidade ativista: enxergar tudo às avessas e só admitir como verdade o contrário do que os fatos dizem. O assassino de Kirk não descobriu um inimigo: ele o fabricou. Como diagnosticou André Glucksmann, “o ódio precede e predetermina o objeto que fabrica para si mesmo”.


Cole Tomas Allen é o herdeiro direto dessa lógica — e o produto previsível de um ambiente cultivado durante anos nas universidades onde professores transformam militância em catequese, nos estúdios de Hollywood onde o vilão é invariavelmente um conservador, nas redações onde qualquer dissidência do consenso progressista é enquadrada como “fascismo”. Quando se passa uma década chamando um homem de Hitler e ameaça existencial à democracia — com a autoridade de quem ocupa as cátedras e os palácios da cultura —, não se pode fingir surpresa quando um espécime mais coerente que a média resolve tirar a metáfora do papel e levá-la ao Washington Hilton com um fuzil. 

A inversão está completa: o atirador se vê, com toda a certeza moral de um cruzado, não como agressor mas como defensor — não como perpetrador de violência, mas como seu antídoto. Eric Voegelin chamava isso de consciência pneumopatológica: a deformação espiritual de quem, ao rebelar-se contra a estrutura transcendente da realidade, inverte todos os seus termos e transforma o ódio no sacramento de uma religião às avessas.

Trump sobreviveu. E disse, com a economia de palavras de quem já passou por isso antes: “O show continua”. Mas a pergunta que a grande imprensa se recusa a formular — porque formulá-la exigiria nomear a própria responsabilidade — é a única que importa: quem escreveu o roteiro que trouxe esse homem até ali?


Flávio Gordon - Revista Oeste