domingo, 8 de março de 2026

Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos – Parte 1: A Base do Crescimento Econômico, por Paul F. Cwik

 

Nota da edição:

Este artigo é uma tradução exclusiva para o português do Instituto Mises Brasil da primeira parte do livro Austrian Business Cycle Theory: An Introduction do economista e fellow do Mises Institute Paul F. Cwik. Nesta parte, o autor fala sobre a visão da Escola Austríaca em relação ao que garante o crescimento econômico verdadeiro contrastando-a com as visões keynesianas e da chamada economia mainstream.


Antes de podermos entender como uma economia “dá errado”, primeiro precisamos entender como uma economia “funciona corretamente”. 

O componente mais básico de qualquer economia é a transação que ocorre entre duas pessoas. Em qualquer transação de livre mercado, fazemos duas suposições básicas: as pessoas estão agindo voluntariamente e os direitos de propriedade estão claramente definidos. Em outras palavras, não há força, coerção ou fraude. Nessas condições, quando duas pessoas realizam uma troca, cada lado espera se beneficiar, tanto psicologicamente quanto materialmente. Sob a premissa da dupla coincidência de desejos, cada lado deve atribuir maior valor ao que está recebendo na troca do que ao que está entregando. Por exemplo, se a pessoa A tem maçãs e a pessoa B tem mirtilos, então a pessoa A deve valorizar os mirtilos mais do que as maçãs, e a pessoa B deve valorizar as maçãs mais do que os mirtilos. Se essa condição não for atendida, então nenhuma troca ocorrerá. Assim, como cada troca representa uma dupla coincidência de desejos, devemos concluir que cada transação traz pelo menos um benefício psicológico para ambos os participantes da troca.

Ao compreender os benefícios que se acumulam para os indivíduos que realizam trocas, podemos, por extensão, perceber como uma comunidade econômica inteira se beneficia do comércio. Por meio da lei da vantagem comparativa, também podemos concluir que, quando as pessoas se especializam na atividade em que possuem menor custo de oportunidade e depois realizam trocas, ambos os lados tornam-se materialmente mais prósperos (veja Ayau [2007]1 para exemplos claros e uma discussão simples de como essa lei funciona). O poder da lei da vantagem comparativa encontra-se na redução de custos. Quando o custo de produção é reduzido, é fácil entender como quem reduz custos se beneficia diretamente. Por exemplo, se uma pessoa encontra uma maneira mais eficiente de organizar suas ferramentas, ela conseguirá terminar seu trabalho mais rapidamente e terá mais tempo livre depois. Mas como esse benefício é transmitido aos outros?

Suponhamos que exista uma empresa de manufatura que venda mil unidades por dia ao preço de US$10 cada, com um custo de US$8 por unidade. Um cálculo rápido revela que a empresa está obtendo US$2.000 de lucro por dia (Lucro = Receita − Custos; portanto, para essa empresa: US$10.000 − US$8.000 = US$2.000). Para aumentar seus lucros, a empresa pode alterar seus preços, reduzir seus custos ou tentar uma combinação das duas estratégias. Se a empresa decidir aumentar o preço de suas unidades, perderá alguns clientes. Se perder clientes demais (devido à alta sensibilidade dos consumidores ao preço, isto é, demanda elástica), então sua receita total cairá. A empresa poderia, em vez disso, reduzir o preço para atrair mais clientes (também devido à elasticidade da demanda), mas a diminuição do preço poderia superar o aumento no número de consumidores. Na prática, as empresas costumam ser bastante hábeis em equilibrar essas estratégias. Elas sabem que, se aumentarem seus preços, seus clientes serão atraídos pelos concorrentes e que, se reduzirem os preços, perderão receita. Ambas as escolhas reduzem os lucros. Por essa razão, quando uma empresa tenta aumentar sua margem de lucro no mundo real, ela tende a se concentrar na redução de custos, e não no aumento da receita.

Suponha que nossa empresa fictícia encontre novas maneiras de tornar suas operações de manufatura mais eficientes, de modo que consiga reduzir seus custos de US$8 para US$6 por unidade. Os benefícios dessa redução de custos podem se manifestar de três maneiras. A mais evidente é que maiores lucros passam a beneficiar os proprietários (US$10.000 − US$6.000 = US$4.000). Eles agora possuem maior poder de compra para gastar em bens de consumo e bens de investimento. O segundo benefício aparece na forma de salários mais altos para os trabalhadores. Em equilíbrio, os fatores de produção recebem preços de acordo com o valor que contribuem para a produção. Se os trabalhadores aumentam sua produtividade, então, ao longo do tempo, seus salários aumentarão e eles passarão a ter maior poder de compra. Por fim, a empresa pode perceber que, com um custo menor por unidade, pode reduzir o preço de seu produto (a partir de $10) e tentar conquistar alguns clientes de seus concorrentes. O preço mais baixo beneficia diretamente os consumidores. Em cada um desses casos, a empresa consegue liberar recursos ao reduzir custos. Esses recursos adicionais levam a um aumento na oferta de bens de consumo, de bens de investimento, ou de ambos.

Figura 1: A “fórmula mágica” do crescimento econômico

Esse processo de crescimento econômico por meio da expansão da oferta recebeu vários nomes ao longo da história, sendo talvez o mais famoso a lei de Say. A lei de Say começa apontando que o dinheiro é um meio de troca, um elo que conecta a produção de uma pessoa à produção de outras pessoas. Em seguida, ela mostra que precisamos produzir antes de poder consumir. Eu chamei essa ideia de a “fórmula mágica” do crescimento econômico (é claro que não há nada de mágico nela; como mostra a figura 1).

Vamos examinar essa fórmula começando pelo final e trabalhando em sentido inverso. Podemos começar perguntando: “Qual é o objetivo dos participantes da economia?” De modo geral, podemos responder que as pessoas gostariam de melhorar sua situação (isto é, alcançar um padrão de vida mais elevado). Essa conclusão nos leva à pergunta: “Como podemos melhorar nosso padrão de vida?” A resposta mais genérica é obtendo mais “coisas”. Naturalmente, “coisas” não se limita a itens físicos. Pode incluir elementos intangíveis, como tempo livre. No entanto, para alcançar um padrão de vida mais elevado, uma coisa é certa: precisamos criar mais de alguma coisa. Mas como?

Ao longo da história, algumas sociedades obtiveram essas “coisas” adicionais por meio da conquista. Entretanto, anteriormente afirmamos que as transações de livre mercado não podem ocorrer por meio da coerção, de modo que a conquista está excluída como forma legítima de aumentar a produção. Outra possibilidade seria descobrir novos recursos. Recursos ainda não explorados foram descobertos e colocados em uso à medida que a humanidade se espalhou pelo globo. Contudo, embora ainda existam alguns recursos não descobertos, essa opção não é realmente viável, pois as descobertas ocorrem de maneira irregular e imprevisível. Isso nos deixa apenas uma alternativa disponível: aumentar nossa produtividade (isto é, aumentar nossa produção utilizando a mesma quantidade de tempo e/ou recursos ou manter a mesma produção utilizando menos tempo e/ou recursos). Sem novas fronteiras e sem conquistas, são necessárias novas técnicas, máquinas, ferramentas e equipamentos para elevar a produtividade. Em outras palavras, tornamo-nos mais produtivos por meio da acumulação de capital.

Os investimentos de mercado são a fonte da acumulação de capital. São necessários recursos para construir e estabelecer bens de capital e para implementar novas técnicas. Os mercados são essenciais para alocar adequadamente os recursos de investimento em empreendimentos lucrativos e evitar aqueles que seriam ineficientes.

A fonte dos recursos dos investidores é a poupança, também conhecida como consumo adiado. A poupança inclui mais do que o dinheiro que mantemos em nossas contas bancárias ou em espécie. Ela também inclui os lucros que as empresas reinvestem em suas próprias atividades empresariais (lucros retidos). Ao optar por não gastar, os poupadores desencadeiam uma reação em cadeia. Esse processo primeiro afeta os preços dos bens de consumo, pressionando-os para baixo, e depois se espalha por toda a economia. Simplesmente manter dinheiro em caixa tem o mesmo efeito que outras formas de poupança.

Em resumo, a “fórmula mágica” do crescimento econômico mostra que um aumento na poupança leva a um aumento no investimento. O aumento do investimento permite que ferramentas, máquinas e equipamentos melhores e em maior quantidade sejam utilizados na produção (acumulação de capital). Essas ferramentas aumentam a produtividade dos trabalhadores, o que exerce uma pressão no sentido de aumento sobre seus salários. O nível mais elevado de produtividade também significa que podemos ter mais bens e serviços, que agora são vendidos a preços reais mais baixos, utilizando a mesma quantidade, ou até menos, de insumos. Esse aumento de “coisas” é o que nos permite alcançar padrões de vida mais elevados.

A “fórmula mágica” do crescimento econômico chama nossa atenção para algumas conclusões importantes. Primeiro, a poupança é o primeiro passo necessário para o crescimento econômico. Mesmo uma boa ideia não pode produzir impacto econômico se não existirem recursos, isto é, a poupança, para implementá-la. Segundo, ao contrário da teoria keynesiana, não podemos “sair consumindo” para alcançar prosperidade. Embora o consumo seja o objetivo final de toda produção, precisamos produzir para poder consumir; essa percepção constitui a essência da lei de Say. Se uma economia consome capital, em vez de acumulá-lo por meio da poupança, então a renda e os padrões de vida cairão. Terceiro, o gasto do governo não é necessário para promover o crescimento econômico. O crescimento econômico é estritamente uma atividade do setor privado. Por último, e essa é uma conclusão muito importante, o crescimento econômico que segue a “fórmula mágica” leva a uma queda gradual dos preços. Em outras palavras, o crescimento econômico que resulta de ganhos de produtividade conduz a uma deflação natural, e essa deflação natural é benéfica (inversamente, mesmo com uma oferta monetária constante, uma economia em contração experimentaria pressões inflacionárias; veja Hayek [1999, p. 215]2). A ideia de que uma economia precisa de qualquer nível de inflação para crescer é simplesmente falsa.


Mises Brasil