Durante décadas, muitos regimes autoritários aprenderam uma lição sobre o Ocidente: ele fala muito, negocia infinitamente e raramente age. Trump decidiu inverter essa lógica
G uerras raramente começam de repente. Elas costumam nascer de algo mais silencioso e mais perigoso: a convicção de que ninguém terá coragem de reagir. Durante décadas, regimes autoritários aprenderam a explorar exatamente essa fragilidade do sistema internacional. Eles testam limites, patrocinam milícias e grupos terroristas, ameaçam rotas comerciais, desenvolvem programas nucleares e apostam que o custo político de uma resposta militar será sempre alto demais para as democracias ocidentais. A história recente mostrou, repetidas vezes, como essa aposta frequentemente funcionou.
Há momentos na história em que a política internacional deixa de ser apenas diplomacia e passa a ser um teste de caráter das nações. Não apenas caráter estratégico, mas caráter moral — a capacidade de distinguir entre adversários legítimos e regimes que fazem da chantagem, da violência e da mentira instrumentos permanentes de poder.
Durante décadas, muitos regimes autoritários aprenderam uma lição simples sobre o Ocidente: ele fala muito, negocia infinitamente e raramente age.
Trump decidiu inverter essa lógica.
Sua estratégia — visível tanto no caso do Irã quanto no episódio recente da Venezuela — segue um padrão claro: primeiro, diplomacia; depois, pressão econômica; e, quando necessário, ação militar rápida e limitada. É a política externa da negociação acompanhada de credibilidade.
Depois de semanas de tensão e do fracasso de negociações diplomáticas envolvendo o programa nuclear de Teerã, os Estados Unidos participaram de uma ofensiva militar de grande escala contra alvos estratégicos iranianos, em coordenação com Israel. A campanha atingiu centenas de instalações militares e estruturas ligadas ao regime, em uma das maiores operações militares americanas no Oriente Médio desde o início do século.
O objetivo declarado da operação foi claro: degradar a capacidade militar do regime e impedir o avanço de seu programa nuclear. Mas, no plano estratégico mais amplo, o recado foi outro: a paciência do Ocidente não é infinita.
Desde o início de seu segundo mandato, Trump tentou abrir canais diplomáticos com Teerã para, além de limitar o programa nuclear e conter o desenvolvimento de mísseis, reduzir o apoio iraniano a milícias e organizações terroristas espalhadas pelo Oriente Médio.
Ataque a Teerã neste domingo, 01/03/2026 - Foto: Reprodução/X/@IDF
Antes da escalada atual, Washington tentou retomar negociações com Teerã sobre limites ao enriquecimento de urânio e ao desenvolvimento de mísseis balísticos. As conversas, porém, avançaram pouco. Autoridades americanas passaram a argumentar que o regime iraniano continuava expandindo suas capacidades estratégicas enquanto negociava. Quando a diplomacia encontrou seus limites, Washington decidiu agir.
Os ataques contra instalações militares e nucleares iranianas foram concebidos para atingir infraestruturas estratégicas sem envolver uma guerra de ocupação, evitando repetir os erros das campanhas prolongadas do início do século. Em poucos dias, forças americanas e israelenses atingiram uma vasta rede de alvos, incluindo sistemas de defesa aérea, centros de comando, depósitos de armamentos e infraestruturas logísticas fundamentais para as operações militares iranianas.
A abordagem adotada lembra, em muitos aspectos, a estratégia utilizada por Ronald Reagan durante a fase final da Guerra Fria: negociar quando possível, pressionar quando necessário e nunca permitir que regimes hostis confundam prudência com fraqueza. Diplomacia sem força raramente convence regimes revolucionários.
O precedente venezuelano
A atual postura americana não surgiu no vazio. Ela se conecta diretamente a um episódio ocorrido no início deste ano, quando os Estados Unidos conduziram uma operação militar relâmpago em território venezuelano.
Nos últimos meses, Washington intensificou as ofensivas contra redes de narcotráfico e estruturas associadas ao regime de Nicolás Maduro, culminando na captura do ditador. Do ponto de vista militar, a operação durou poucas horas. Do ponto de vista estratégico, seus efeitos foram muito maiores. Tratou-se de uma demonstração de que a tecnologia militar contemporânea permite algo que parecia quase impossível após as guerras do Iraque e do Afeganistão: operações de alto impacto estratégico sem conflitos intermináveis.
Esse precedente também revelou algo mais profundo. Durante anos, regimes autoritários contaram com a percepção de que a política externa americana havia se tornado excessivamente cautelosa. A operação na Venezuela serviu como um sinal de que essa percepção poderia estar mudando. A mensagem foi simples: regimes que sustentam atividades criminosas ou desestabilizam regiões inteiras não podem mais contar com a inércia estratégica do Ocidente. Agora, a mensagem chegou a Teerã.
Um aviso aos regimes autoritários
A política externa americana, especialmente após as experiências traumáticas no Oriente Médio, parecia confirmar essa percepção. Intervenções militares tornaram-se politicamente impopulares, enquanto negociações multilaterais e sanções econômicas passaram a ser os instrumentos preferidos da diplomacia internacional.
Essa combinação, no entanto, produziu um efeito colateral previsível. Quando a força desaparece completamente da equação, a dissuasão também desaparece. E quando a dissuasão desaparece, regimes autoritários avançam.
O confronto atual sugere uma tentativa de restaurar esse equilíbrio. A mensagem enviada a Teerã, e observada atentamente em capitais como Moscou, Pequim e Pyongyang, é relativamente simples: negociações continuam possíveis, mas não são ilimitadas — existem linhas que não podem ser cruzadas indefinidamente.
A Europa redescobre a realidade Outro efeito importante dessa nova fase é o impacto sobre os aliados tradicionais dos Estados Unidos. Durante décadas, grande parte da Europa acostumou-se a viver sob o guarda-chuva estratégico americano, investindo relativamente pouco em defesa e apostando na estabilidade do sistema internacional criado após a Segunda Guerra Mundial. O mundo atual é muito diferente.
A guerra na Ucrânia já havia despertado uma consciência crescente de que o ambiente internacional voltou a ser marcado por disputas entre potências. A escalada envolvendo o Irã reforça essa percepção. As ações americanas contra regimes autoritários reafirmam uma verdade antiga da geopolítica: a segurança internacional exige capacidade militar, não apenas declarações diplomáticas.
Quando Washington demonstra disposição para agir, o efeito também é psicológico. Com o aumento das tensões no Golfo e das ameaças ao fluxo de petróleo pelo Estreito de Hormuz, governos europeus passaram a discutir novamente temas que durante muito tempo pareciam distantes da política cotidiana: capacidade militar, segurança energética e autonomia estratégica.
Em outras palavras, o mundo livre volta a se lembrar de que a paz, muitas vezes, depende da preparação para a guerra. Esse movimento também revela uma mudança institucional importante. Durante anos, organizações internacionais como a ONU foram frequentemente apresentadas como os principais mecanismos de resolução de conflitos.
A realidade, porém, mostrou que regimes autoritários frequentemente utilizam essas instituições como arenas de bloqueio político. Quando potências como Rússia ou China possuem poder de veto no Conselho de Segurança, decisões estratégicas fundamentais acabam paralisadas. A consequência é o retorno a um princípio antigo das relações internacionais: em momentos de crise, a segurança ainda depende, em última instância, da capacidade dos Estados de agir.
A arquitetura do poder americano
As operações recentes revelam o grau de transformação que a guerra sofreu no século 21. Sistemas autônomos, inteligência artificial aplicada à análise de alvos, drones de longo alcance e armas de precisão permitem atingir objetivos estratégicos com uma velocidade e uma precisão que seriam impensáveis apenas algumas décadas atrás.
Essa transformação altera profundamente o cálculo político da guerra. Durante grande parte do século 20, guerras entre Estados significavam mobilizações massivas, divisões blindadas atravessando continentes e campanhas militares que duravam anos. Hoje, muitas operações militares são planejadas em torno de um objetivo completamente diferente: neutralizar rapidamente capacidades estratégicas específicas.
A Operação Fúria Épica também expôs algo que raramente aparece com clareza para o público, a dimensão colossal da capacidade militar dos Estados Unidos:
• No Golfo e no Mediterrâneo oriental, grupos de ataque liderados por dois porta-aviões — USS Abraham Lincoln e o monstro dos mares USS Gerald R. Ford — projetaram poder aéreo contínuo, cada um deles acompanhado por cruzadores e destróieres equipados com o sistema de defesa Aegis, capazes de lançar mísseis interceptadores e também os conhecidos Tomahawk, com alcance superior a 1,6 mil quilômetros.
• Cada um desses porta-aviões não navega sozinho. Eles lideram aquilo que a Marinha americana chama de carrier strike group (“grupo de ataque de porta-aviões”), uma força naval completa que funciona como uma cidade militar flutuante. Um único grupo desse tipo reúne normalmente entre cinco e sete navios de guerra, incluindo cruzadores e destróieres armados com dezenas de mísseis, além de submarinos de ataque que operam de forma quase invisível sob a superfície.
• No convés do porta-aviões, uma ala aérea embarcada pode reunir mais de 70 aeronaves, entre caças, aviões de alerta antecipado, guerra eletrônica e helicópteros.
• Somando tripulações, pilotos, técnicos e equipes de apoio, um único grupo pode envolver mais de 7 mil militares, formando uma estrutura capaz de sustentar operações aéreas e navais intensas por semanas. É, na prática, uma base militar móvel que leva o poder estratégico dos Estados Unidos a qualquer oceano do planeta.
O resultado dessa engrenagem tecnológica é um sistema de guerra integrado que conecta mar, ar, espaço e ciberespaço — uma arquitetura logística e operacional capaz de concentrar poder de fogo em qualquer ponto do planeta com rapidez, precisão e uma escala que permanece, até hoje, praticamente incomparável.
Mais do que uma demonstração de força, esse aparato representa algo fundamental na lógica das relações internacionais: credibilidade estratégica. Quando um país possui meios para projetar poder dessa magnitude, a própria possibilidade de utilizá-lo passa a exercer um efeito dissuasório.
E, como a história repetidamente demonstra, muitas vezes é essa capacidade — mais do que o uso efetivo da força — que impede que conflitos ainda maiores aconteçam.
• Estima-se que dezenas desses mísseis de cruzeiro tenham sido disparados nas primeiras horas da ofensiva, partindo tanto de navios quanto de submarinos posicionados na região, atingindo alvos estratégicos com precisão cirúrgica.
• Mais de cem aeronaves de combate participaram das missões iniciais, incluindo caças F-15 Strike Eagle, F-16 Fighting Falcon, F/A-18 Super Hornet embarcados nos porta-aviões e aeronaves furtivas F-35, projetadas para penetrar sistemas avançados de defesa aérea.
• Bombardeiros estratégicos de longo alcance, como o B-2 Spirit, capazes de transportar munições guiadas de alta precisão e operar a partir de bases a milhares de quilômetros de distância, ampliaram ainda mais o alcance da ofensiva.
• No suporte à operação estavam aviões de alerta antecipado AWACS, aeronaves de guerra eletrônica EA-18G Growler, reabastecedores estratégicos KC-135 e KC-46, além de drones de vigilância de grande altitude e uma rede de satélites militares responsáveis por inteligência, navegação e comunicação em tempo real.
O resultado dessa engrenagem tecnológica é um sistema de guerra integrado que conecta mar, ar, espaço e ciberespaço — uma arquitetura logística e operacional capaz de concentrar poder de fogo em qualquer ponto do planeta com rapidez, precisão e uma escala que permanece, até hoje, praticamente incomparável.
Mais do que uma demonstração de força, esse aparato representa algo fundamental na lógica das relações internacionais: credibilidade estratégica. Quando um país possui meios para projetar poder dessa magnitude, a própria possibilidade de utilizá-lo passa a exercer um efeito dissuasório.
E, como a história repetidamente demonstra, muitas vezes é essa capacidade — mais do que o uso efetivo da força — que impede que conflitos ainda maiores aconteçam.
As primeiras 48 horas
A própria lista de alvos das primeiras 48 horas revela a lógica estratégica da operação. Segundo informações divulgadas pela Casa Branca, os ataques concentraram-se em centros de comando e controle, quartéis-generais do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), instalações das forças aeroespaciais iranianas, sistemas integrados de defesa aérea e bases de mísseis balísticos. Também foram atingidos ativos navais iranianos, incluindo navios e submarinos, além de baterias de mísseis antinavio e estruturas de comunicação militar.
O objetivo é evidente: desmontar rapidamente a arquitetura operacional do regime, neutralizando sua capacidade de coordenação, defesa e resposta. Já nestes primeiros dias de campanha, segundo autoridades americanas, onze embarcações da Marinha iraniana já haviam sido destruídas, um golpe que enfraquece significativamente a capacidade naval do país no Golfo e no Estreito de Hormuz.
A seleção dos alvos revela a lógica da operação: primeiro cegar o regime, depois cortar sua capacidade de comando e, por fim, neutralizar as forças capazes de ameaçar o Golfo Pérsico. É a anatomia clássica de uma campanha destinada a conquistar superioridade estratégica nas primeiras horas de guerra. Isso é exatamente a lógica de paralisar o adversário antes mesmo que ele consiga reagir. Ou seja, a operação parece ter sido pensada para degradar capacidade militar e restaurar dissuasão, não para ocupar território.
O teste do Ocidente
No centro de tudo isso está uma questão que atravessa a história das relações internacionais. Regimes autoritários prosperam quando acreditam que seus adversários não terão coragem de agir. Eles recuam quando encontram determinação. A política externa americana atual tenta reconstruir esse princípio. Se terá sucesso ou não, é algo que apenas o tempo dirá. Mas uma coisa já parece evidente. Em um mundo cada vez mais instável, no qual potências revisionistas e regimes ideológicos testam constantemente os limites do sistema internacional, as democracias voltam a redescobrir uma verdade antiga da política internacional.
Essa verdade não é nova. Winston Churchill a compreendeu quando alertou sobre o expansionismo nazista na década de 1930. Ronald Reagan a aplicou quando enfrentou o império soviético durante a fase final da Guerra Fria. Ambos entenderam que a estabilidade internacional depende menos de boas intenções do que da clareza estratégica. A paz raramente é preservada apenas com discursos. Ela se sustenta quando aqueles que desejam destruí-la percebem que o custo de fazê-lo será alto demais.
Essa continua sendo, no fundo, a linguagem que os tiranos entendem.
Ana Pasula Henkel - Revista Oeste