domingo, 18 de janeiro de 2026

'O Ambientalismo é anti-humano', por Joshua Mawhorter

 



Após os fracassos do socialismo — econômicos, históricos e éticos — os intelectuais da esquerda, não querendo abandonar o socialismo, recorreram a várias novas estratégias. Já se sugeriu que essas diversas manifestações podem ser subsumidas sob uma única categoria geral — o pós-modernismo. Após uma revisão da filosofia pós-moderna e de suas influências filosóficas, Stephen Hicks expõe seu argumento central no livro Explaining Postmodernismm [Explicando o pós-modernismo]: “O pós-modernismo é a estratégia epistemológica da extrema esquerda acadêmica para responder à crise causada pelos fracassos do socialismo na teoria e na prática.” Em outras palavras, uma vez que o socialismo foi refutado do ponto de vista teóricoeconômico (de várias maneiras), histórico e ético, aqueles que permaneciam ideologicamente comprometidos com o socialismo, apesar de seus fracassos, tiveram de tentar alcançá-lo, juntamente com o planejamento central, apelando a outros objetivos. Uma dessas estratégias foi a busca do igualitarismo (isto é, da “igualdade”) entre todos os grupos díspares, inclusive entre os seres humanos e o meio ambiente. Assim, o moderno movimento ambientalista, influenciado por correntes de pensamento anteriores, nasceu.Descrevendo mais adiante sua análise de como os fracassos públicos do socialismo, somados ao pós-modernismo e ao ambientalismo moderno, se fundiram, Hicks escreve:

“A segunda variação foi vista na guinada à esquerda que a crescente preocupação com as questões ambientais assumiu. À medida que o movimento marxista se fragmentava e se transformava em novas formas, intelectuais e ativistas de esquerda passaram a buscar novos meios de atacar o capitalismo. As questões ambientais, ao lado das questões das mulheres e das minorias, passaram a ser vistas como uma nova arma no arsenal contra o capitalismo.

A filosofia ambiental tradicional não estava, em princípio, em conflito com o capitalismo. Ela sustentava que um ambiente limpo, sustentável e belo era algo positivo porque viver em tal ambiente tornava a vida humana mais saudável, mais próspera e mais agradável. Os seres humanos, agindo em benefício próprio, transformam seus ambientes para torná-los mais produtivos, mais limpos e mais atraentes. (…)

O novo impulso no pensamento ambiental, contudo, passou a aplicar aos temas ambientais conceitos marxistas de exploração e alienação. Como parte mais forte, os seres humanos necessariamente exploram de modo prejudicial as partes mais fracas — as outras espécies e o próprio ambiente não orgânico. Consequentemente, à medida que a sociedade capitalista se desenvolve, o resultado dessa exploração é uma forma biológica de alienação: os seres humanos se alienam do meio ambiente ao saqueá-lo e torná-lo inviável, e as espécies não humanas são alienadas ao serem levadas à extinção.

Nessa análise, o conflito entre a produção econômica e a saúde ambiental, portanto, não é apenas de curto prazo; ele é fundamental e inevitável. A própria produção de riqueza está em conflito mortal com a saúde ambiental. E o capitalismo, uma vez que é tão eficiente na produção de riqueza, deve, portanto, ser o inimigo número um do meio ambiente. A riqueza, assim, deixou de ser algo bom. Viver de forma simples, evitando ao máximo produzir e consumir, passou a ser o novo ideal.

O impulso dessa nova estratégia, captado de forma exemplar em Red to Green, de Rudolf Bahro, integrou-se à nova ênfase na igualdade em detrimento da necessidade. No marxismo, o domínio tecnológico da natureza pela humanidade era um pressuposto do socialismo. O marxismo era um tipo de filosofia humanista no sentido de colocar os valores humanos no centro de seu arcabouço valorativo e de pressupor que o meio ambiente existe para ser utilizado e desfrutado pelos seres humanos para seus próprios fins. Contudo, críticos igualitaristas passaram a argumentar de maneira mais enfática que, assim como o fato de os homens colocarem seus próprios interesses acima de tudo levou à subjugação das mulheres, e assim como o fato de os brancos colocarem seus interesses acima de tudo levou à subjugação de todas as demais raças, o fato de os seres humanos colocarem seus interesses acima de tudo levou à subjugação de outras espécies e do meio ambiente como um todo.

A solução proposta, então, foi a igualdade moral radical entre todas as espécies. Devemos reconhecer que não apenas a produtividade e a riqueza são más, mas também que todas as espécies, de bactérias a tatuzinhos-de-jardim, de porcos-da-terra a aardvarks, até os seres humanos, são iguais em valor moral. A ‘ecologia profunda’, como passou a ser chamado o igualitarismo radical aplicado à filosofia ambiental, rejeitou assim os elementos humanistas do marxismo e os substituiu pelo arcabouço de valores anti-humanista de Heidegger”.

A estrutura do argumento anti-impacto

Em Defendendo o Indefensável, Walter Block faz uma observação simples, mas profunda, sobre a natureza da existência humana em seu capítulo sobre lixo: “(…) a criação de resíduos é um concomitante do processo de produção e consumo”. Extrapolando esse princípio, a continuidade da existência e do florescimento humanos depende da produção e do consumo, isto é, da ação humana que manipula e transforma o ambiente físico no qual todos nós existimos. Isso foi reconhecido por John Locke em sua teoria da primeira apropriação (conhecida em inglês como homesteading) da propriedade, segundo a qual o homem é dono do próprio corpo, utiliza esse corpo para manipular o mundo físico ao seu redor e, assim, passa também a ser proprietário de bens externos. Portanto, impedir a transformação livre e voluntária da natureza pela humanidade, por meio da produção e do consumo — desde que isso não viole os direitos de propriedade de terceiros — é anti-humano e mau.

No Ocidente moderno, e nas regiões influenciadas por ele, muitos — especialmente as elites — adotaram e passaram a pressupor uma filosofia ambiental anti-impacto. Em vez de direitos de propriedade e liberdade a serviço do florescimento humano como o padrão ideal de valor pelo qual qualquer manipulação do meio ambiente deve ser julgada, muitos estabeleceram, em seu lugar, o impacto humano mínimo, ou nenhum impacto humano, sobre o meio ambiente como o padrão moral supremo. Em outras palavras, os seres humanos não deveriam impactar o meio ambiente; assim, enquanto um impacto humano mínimo seria melhor, nenhum impacto humano seria o ideal. Evidentemente, isso é impossível para seres humanos vivos que existem no tempo e no espaço. Levado às últimas consequências, os seres humanos passam a ser o problema, o que incute culpa e/ou conduz a uma conclusão letal — os seres humanos devem ser eliminados. Alex Epstein escreve no livro The Moral Case for Fossil Fuels [O argumento moral à favor dos combustíveis fósseis] : “A essência de ‘ser verde’, o denominador comum em todas as suas várias versões, é a crença de que os seres humanos devem minimizar seu impacto sobre a natureza não humana” (página 199).Se alguém achar que isso é exagerado ou melodramático, considere o seguinte: se o impacto humano é algo ruim e se o anti-impacto é o ideal moral, então até mesmo a minimização do impacto humano sobre o meio ambiente é insuficiente e incompleta. É impossível que os seres humanos não impactem o meio ambiente. Além disso, a conclusão consistente é que não deveria haver seres humanos, e não apenas menos seres humanos. Ora, isso significa que uma ou mais das seguintes coisas teriam de ocorrer: muitos seres humanos não deveriam nascer e/ou muitos seres humanos existentes deveriam morrer. Epstein escreve novamente: “ao associar impacto a algo negativo, você está concedendo que todo impacto humano é, de alguma forma, ruim para o meio ambiente” (p. 199). Além disso (p. 197):

“Este é o desfecho lógico de adotar o não impacto humano como seu padrão de valor; a melhor maneira de alcançá-lo é não fazer absolutamente nada, é não existir. É claro que poucos sustentam esse padrão de valor de forma consistente, e mesmo esses homens não despovoam o mundo de si próprios. Mas, na medida em que adotamos o não impacto humano como nosso padrão de valor, estamos indo contra aquilo que nossa sobrevivência exige”.

Felizmente, a maioria das pessoas não sustenta o arcabouço argumentativo anti-impacto de forma consistente (e muitas talvez nem tenham consciência epistemológica de seus próprios pressupostos), mas a existência desse padrão torna as pessoas vulneráveis à manipulação pela culpa. Quando você se sente mal por simplesmente existir, então passa a estar disposto a se submeter a uma série de políticas e medidas oferecidas pelas elites políticas para, ao menos, minimizar o seu impacto. Se você vai continuar a existir e a impactar o meio ambiente, então deve, pelo menos, submeter-se a quaisquer esquemas de planejamento central que “especialistas” sábios e altruístas proponham. Por exemplo, considere as palavras do ambientalista Bill McKibben a respeito de como as pessoas supostamente viveriam se o uso de combustíveis fósseis fosse reduzido a menos da metade e observe por que socialismo, planejamento central e ambientalismo se encaixam de maneira tão confortável:

“Cada ser humano poderia produzir 1,69 tonelada métrica de dióxido de carbono por ano — o que permitiria dirigir um carro médio americano por 14,5 quilômetros por dia. Quando a população aumentasse para 8,5 bilhões, por volta de 2025, isso cairia 9,6 quilômetros por dia. Se você compartilhasse o carro, teria cerca de três pontos de CO₂ restantes em sua cota diária — o suficiente para operar uma geladeira altamente eficiente. Esqueça seu computador, sua TV, seu aparelho de som, seu fogão, sua lava-louças, seu aquecedor de água, seu micro-ondas, sua bomba d’água, seu relógio. Esqueça suas lâmpadas, fluorescentes compactas ou não”.

Como se observa na citação de McKibben acima, se as pessoas se sentem mal por existir e, assim, ficam abertas a fazer o que for necessário para minimizar seu impacto, então o planejamento central — no qual as elites determinam cada aspecto do que você pode ou não fazer, até mesmo se você terá ou não uma lâmpada — torna-se algo evidente. Em Bourgeois Dignity: Why Economics Can’t Explain the Modern World [Dignidade burguesa: por que a economia não pode explicar o mundo moderno], Deirdre McCloskey escreve: “A nova alternativa ao socialismo de planejamento central é o ambientalismo” (p. 433).

Os ambientalistas são frequentemente creditados como sendo idealistas. Pode até ser o caso, mas o ideal deles — se for o não impacto humano em vez do florescimento humano — é anti-humano e mau. Eles podem não cometer suicídio para alcançar seus objetivos, mas propõem políticas suicidas e anti-humanas.

Humanizando a Natureza e Desumanizando os Seres Humanos

Milhões de pessoas já foram mortas por governos em tentativas de implementar projetos de planejamento central. O tipo de “Holodomor energético” que os ambientalistas do anti-impacto propõem significaria a morte de bilhões de pessoas. Se isso for verdade, tal proposta exigiria tanto a elevação da natureza não humana a um nível de significância moral igual ou superior ao dos seres humanos quanto, simultaneamente, a desvalorização da vida humana abaixo da natureza. Caso o leitor pense que estou exagerando, o movimento ambientalista moderno faz ambas as coisas.

O que significa o objetivo de “salvar o planeta” ou “proteger o meio ambiente”? Em última instância, os ambientalistas querem dizer que o planeta precisa ser salvo dos seres humanos. Proteger o meio ambiente de quê ou de quem? Proteger o meio ambiente para quê? Proteger o meio ambiente para quem? O planeta precisa ser protegido de você. Sem dúvida, muitos argumentarão que os ambientalistas apenas querem “salvar o planeta” para os seres humanos, mas — com o anti-impacto ainda sendo o ideal — isso ainda implica um planejamento central abrangente, na medida em que a existência humana teria de ser severamente reduzida se não puder ser eliminada.Além disso, temos muitos ambientalistas nos dizendo, com suas próprias palavras, que são anti-humanos. O grupo EarthFirstliteralmente chora, lamenta e grita por “crimes” cometidos contra árvores. (Isso também explica, de forma plausível, por que filmes como WALL-E e The Lorax são ideologicamente carregados de pressupostos anti-impacto, anti-humanos e anti-liberdade.) Um artigo do Washington Post de 2019 tinha o título: “Estudantes progressistas de seminário ofereceram uma confissão às plantas. Como pensamos sobre pecados contra a natureza?”. O texto diz: “Acho que há uma questão urgente com a qual muitos cristãos e pessoas sem fé estão lidando: qual é a nossa responsabilidade moral para com as formas de vida não humanas? Se podemos pecar contra o mundo natural, como nomeamos e expiamos esse pecado?”. A mensagem foi tweetada a partir de uma capela do Union Seminary:

“Hoje, na capela, confessamos às plantas. Juntos, levamos nosso luto, alegria, arrependimento, esperança, culpa e tristeza em oração; oferecendo-os aos seres que nos sustentam, mas cujo dom com frequência deixamos de honrar. O que você confessa às plantas em sua vida?”

Mantendo o motivo religioso-espiritual, agora todos nós somos “pecadores nas mãos de uma Greta Thunberg irada”.Alan Gregg escreveu em Mankind at the Turning Point [A humanidade em um ponto de inflexão] (1974): “O mundo tem câncer, e o câncer é o homem”. Em 1994, Jacques Cousteau declarou: “Para estabilizar a população mundial, devemos eliminar 350.000 pessoas por dia”. O príncipe Philip da Inglaterra certa vez escreveu, no prefácio de um livro de 1987: “Devo confessar que sou tentado a pedir a reencarnação como um vírus particularmente letal, mas talvez isso seja ir longe demais”. Eu argumentaria que esse tipo de pensamento anti-humano é um câncer. David M. Graber escreveu em 1989, a respeito das visões de Bill McKibben e dele próprio:

“Isso não torna o que está acontecendo menos trágico para aqueles de nós que valorizam a natureza selvagem por si mesma, e não pelo valor que ela confere à humanidade. Eu, por exemplo, não posso desejar nem para meus filhos nem para o restante da biota da Terra um planeta domesticado, um planeta gerido pelos humanos, seja ele monstruoso ou — por mais improvável que seja — benigno. McKibben é um biocentrista, e eu também sou. Não estamos interessados na utilidade de uma espécie em particular, ou de um rio de fluxo livre, ou de um ecossistema, para a humanidade. Eles têm valor intrínseco, mais valor — para mim — do que outro corpo humano, ou do que um bilhão deles.

A felicidade humana, e certamente a fecundidade humana, não são tão importantes quanto um planeta selvagem e saudável. Conheço cientistas sociais que me lembram de que as pessoas fazem parte da natureza, mas isso não é verdade. Em algum ponto do caminho — talvez há cerca de um bilhão de anos, talvez metade disso — rompemos o contrato e nos tornamos um câncer. Tornamo-nos uma praga para nós mesmos e para a Terra.

É cosmicamente improvável que o mundo desenvolvido decida pôr fim à sua orgia de consumo de energia fóssil, e que o Terceiro Mundo abandone seu consumo suicida da paisagem. Até que o Homo sapiens decida se reintegrar à natureza, alguns de nós só podem aguardar com esperança que o vírus certo surja”.

Essas pessoas — e todos os que operam a partir do arcabouço do anti-impacto — não merecem a superioridade moral que reivindicam. Elas são anti-humanas, muitas vezes de forma abertamente declarada. Alex Epstein afirma, perto do final de seu livro: “Não somos ensinados que algumas pessoas realmente acreditam que a vida humana não importa e que o objetivo delas não é nos ajudar a triunfar sobre os obstáculos da natureza, mas nos remover como um obstáculo para o restante da natureza” (p. 208). Ele adverte ainda: “Não se engane — há pessoas tentando usá-lo para promover ações que prejudicariam tudo aquilo com que você se importa. Não porque se importem com você — elas priorizam a natureza acima de você —, mas porque o veem como uma ferramenta” (p. 209).

Não deveríamos nos surpreender com a sobreposição entre socialismo e ambientalismo. Tampouco deveríamos nos surpreender que os defensores de ambos estariam dispostos a matar milhões, ou até bilhões, para alcançar seus objetivos impossíveis e anti-humanos. Ambos envolvem o controle político sobre os outros. Mises certa vez escreveu: “Todo socialista é um ditador disfarçado”. Podemos acrescentar: todo ambientalista do anti-impacto (que, em geral, também é socialista) é um ditador em potencial.

Os ambientalistas — ao menos os verdadeiros crentes que sustentam de forma consistente o objetivo do anti-impacto — querem você morto; no curto prazo, eles se contentarão com que você se sinta culpado por existir, produzir e consumir, e esteja disposto a cumprir qualquer grau de planejamento central e de restrição das liberdades para “salvar o planeta” de você.


Joshua Mawhorter, Mises Brasil