Imbatível na arte de soltar culpados, Gilmar Mendes resolveu que o Supremo deve punir um inocente
Q ue Cinema Novo, que nada: a maior contribuição nativa à sétima arte é o faroeste à brasileira. Surgida na segunda década deste século estranho, a invenção é o avesso do bangue-bangue americano. Aqui, é o bandido que persegue o mocinho, é o vilão que tenta prender o xerife. Outras diferenças: aqui as coisas acontecem na vida real, a plateia é o povo e o fora da lei fica com a mocinha no final infeliz para os espectadores honestos. Foi assim, por exemplo, no pioneiro O Mensalão não Existiu.
É verdade que alguns figurantes foram transferidos do semianonimato para a gaiola, mas os chefões do bando de gatunos nem foram apresentados a uma cela. Logo devolvidos à liberdade, saíram por aí berrando que a roubalheira foi uma invencionice de inimigos dispostos a tudo para minar a popularidade de Lula, a Mãe dos Ricos que se fantasia de Pai dos Pobres. Naquele Brasil menos cafajeste, essas tramas pareceram bastante audaciosas. Foram reduzidas a ousadias de jovens sem juízo já nas primeiras cenas da obra-prima O Petrolão, a mais caprichada e obscena produção do faroeste à brasileira
Para enquadrar de vez os que insistem em cumprir a lei, negociou-se nas catacumbas de Brasília o acordo que oficializou a cumplicidade entre os mais poderosos patifes e os principais juízes do País. O furto de mensagens trocadas por magistrados e procuradores federais que conduziam a Operação Lava Jato foi o pretexto para a contraofensiva da bandidagem. Até as lagostas do cardápio do Supremo sabem que promotores e juízes conversam o tempo todo sobre processos e investigações em andamento. Sabem também que nenhum inocente foi preso. Todos os acusados exerceram o direito de ampla defesa, sem conseguirem livrar-se do que se descobrira na devassa dos porões de Brasília.
A condenação imposta a Lula pelo juiz Sergio Moro, por exemplo, foi ratificada por oito juízes de duas instâncias superiores. A imensidão de provas dos crimes foi mandada às favas pelo ministro Gilmar Mendes. Entre citações em alemão e mergulhos no juridiquês erudito, caprichando no balé dos beiços, o agora decano dos atores togados fingiu enxergar na maior ofensiva anticorrupção da história um complô forjado para lotar a ala reservada à elite da população carcerária. “Em algum lugar mais sensível e talvez mais ortodoxo em matéria de Direito, é de se dizer: essa gente estava se permitindo torturar pessoas”, disse Gilmar num dos melhores piores momentos de Petrolão é Vida. Ele se referia ao caso de Emílio Odebrecht, que não ficou recluso um único minuto.
A folha corrida informa que o decano só perde o sono quando é engaiolado algum dos incontáveis bandidos de estimação. Imediatamente, ele aciona sua usina de habeas corpus, decisões monocráticas e chicanas em geral para socorrer o amigo que atropelou a lei — seja qual for a lei. Segue-se uma amostra, composta por dois casais e 16 indivíduos, dos que devem ao superjuiz o direito de ir e vir:
1. Roger Abdelmassih, doutor em estupro.
2. Eike Batista, vendedor de nuvens.
3. Sérgio Cabral, viciado em roubos e furtos, condenado a mais de 400 anos de cadeia.
4. Anthony e Rosinha Garotinho, versão degenerada da dupla Bonnie e Clyde.
5. José Riva, recordista em bandalheiras em Mato Grosso.
6. Silval Barbosa, ex-governador de Mato Grosso e medalha de prata em ladroagem na olimpíada estadual.
7. Jacob Barata, compadre de Gilmar e chefão da máfia dos transportes no Rio.
8. Paulo Maluf, campeão brasileiro de assaltos a cofres públicos.
9. Celso Pitta, vice.
10. Naji Nahas, que conseguiu quebrar a Bolsa de Valores do Rio.
11. José Dirceu, ex-capitão do time de Lula e melhor técnico da história do campeonato de futebol dos presídios.
12. Paulo Vieira de Souza, vulgo Paulo Preto, recordista sul-americano em desvio de dinheiro para construção de estradas.
13. Geddel Vieira Lima, vice-presidente da Caixa Econômica Federal no governo Dilma, aquele das malas com R$ 52 milhões.
14. Marcelo Odebrecht, que identificou o ministro Dias Toffoli como o “Amigo do Amigo do Meu Pai”, último mistério da lista dos fregueses do Departamento de Propinas da empreiteira que já foi a maior do Brasil.
15. Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal durante o governo Dilma.
16. Antonio Palocci, ministro da Fazenda de Lula “exonerado a pedido” por corrupção e chefe da Casa Civil de Dilma “exonerado a pedido” por corrupção.
17. Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara, expulso do Congresso com dois votos contrários e todos os outros a favor.
18. João Santana e Mônica Moura, casal de publicitários que ajudou Dilma a conseguir um segundo mandato, ensinando ao eleitorado que, se ela perdesse, os banqueiros fariam a comida sumir da mesa dos pobres.
19. Adélio Bispo dos Santos, autor do atentado contra Jair Bolsonaro, ganhou de Gilmar um habeas corpus que lhe permitiu trocar a cadeia pelo quarto de um hospital onde recebe tratamento psiquiátrico. Até o fim do ano, novos exames decidirão se o paciente já está recuperado para esperar candidatos em Juiz de Fora.
20. Lula, que dispensa apresentações.
Tão piedoso com os fora da lei, Gilmar resolveu mostrar que sabe ser durão com gente honesta. Ele apoiou todas as decisões que fizeram do Brasil o líder do ranking mundial que mais prende cidadãos sem culpa. Há pouco, irritado com um comentário jocoso feito por Sergio Moro numa festa junina, resolveu que o senador paranaense precisa ser julgado no Supremo por crime contra a honra. Procurada pelo colunista, a honra recusou-se a comentar o caso.
Augusto Nunes - Revista Oeste