sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

'Greta versus a classe trabalhadora', por Fraser Myers, da Spiked

 

A ativista sueca Greta Thunberg contra a abertura de uma mina de carvão em Lützerath, na Alemanha, no dia 13 de janeiro de 2023 | Foto: Action Press/Shutterstock


Os protestos contra uma mina de carvão revelam tudo o que está errado com o ambientalismo de esquerda


Num momento em que a Europa está abalada com os catastróficos episódios de escassez de energia, em que milhões de pessoas lutam para conseguir pagar pela calefação em suas casas, é preciso ter um tanto de descaramento para insistir que as pessoas devem continuar sofrendo. Porque, não nos enganemos, essa é a mensagem da ativista Greta Thunberg e dos milhares de militantes do clima que se reuniram em Lützerath, oeste da Alemanha, no fim de semana para protestar contra a expansão de uma mina de carvão. Greta, a profetisa do apocalipse de 20 anos, chegou a ser arrastada e detida pela polícia depois de desobedecer às ordens de deixar o local.

Lützerath se tornou um foco de conflito na guerra do clima. O governo alemão autorizou o gigante de energia RWE a expandir as operações de mineração de carvão, o que também envolve o vilarejo. Ambientalistas ocuparam a quase desabitada Lützerath por dois anos para bloquear a expansão da mina, chegando a construir elaboradas casas na árvore. E algo entre 6 mil e 10 mil manifestantes, incluindo Greta, chegaram a Lützerath na semana passada para evitar que a polícia desmontasse o acampamento.

Mineração de carvão em Renânia, Alemanha
Mineração de carvão em Renânia, Alemanha | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

A crise energética alemã é tão desesperadora que até mesmo ministros do Partido Verde do governo de coalizão, que costumam ser implacáveis em se opor a tudo relacionado a combustíveis fósseis, concordaram com a expansão da mina. Esse é “o símbolo errado contra o qual protestar”, afirmou o ministro da Economia Verde da Alemanha na semana passada, argumentando que a mina era necessária para tornar a crise energética “administrável”.

Quarenta anos atrás, a esquerda estava lutando ao lado dos mineradores para manter as minas de carvão abertas — não apenas pelos empregos que geravam, mas também pela energia que produziam para abastecer a indústria e a manufatura

No entanto, essa crise no fornecimento de energia não fez nada para amenizar o zelo da maioria dos militantes pelo meio ambiente. Greta foi fotografada em Lützerath segurando um cartaz que exigia que ‘o carvão continuasse no solo’. “Parem o que está acontecendo aqui imediatamente, parem a destruição”, disse Greta, numa mensagem para o governo alemão, enquanto estava no acampamento. Nenhuma concessão foi feita para a emergência energética ou para os custos econômicos e sociais provocados por ela.

Para os ativistas verdes, as emissões de gás carbônico continuam superando todas as outras considerações — incluindo a capacidade das pessoas comuns de aquecerem e iluminarem suas casas. As necessidades, os desejos e as aspirações do público são considerados insignificantes se comparados com o suposto apocalipse ecológico que vem por aí. É uma posição que revela um nível extraordinário de privilégio e descolamento da realidade cotidiana. Como diz a famosa citação dos gilets jaunes franceses sobre as elites verdes da nação: “Vocês se preocupam com o fim do mundo. Nós nos preocupamos com o fim do mês”.

Ainda mais absurdo é que esse ativismo verde abastado seja tratado como “esquerdista” e “progressista” hoje em dia. Quarenta anos atrás, a esquerda estava lutando ao lado dos mineradores para manter as minas de carvão abertas — não apenas pelos empregos que geravam, mas também pela energia que produziam para abastecer a indústria e a manufatura. A esquerda adoradora de Greta dos tempos atuais pode posar como radical e antiestablishment, mas ela enfaticamente não está do lado dos trabalhadores. Ela luta com a mesma ferocidade que qualquer thatcherista para garantir que até a última mina de carvão seja fechada. Manter o carvão no solo importa muito mais para a esquerda verde mimada do que o destino da classe operária.

Cartaz com os dizeres: "Não existe um planeta B"
Cartaz com os dizeres: “Não existe um planeta B” | Foto: Shutterstock

A certeza do merecimento que o movimento verde tem é impressionante — e não apenas em sua indiferença às pessoas comuns. Pode-se dizer que a Alemanha fez mais do que qualquer outro país europeu para acatar os caprichos dos ativistas do clima. Ela já gastou bem mais que € 500 bilhões na transição para a energia renovável. E chegou até a ceder às demandas dos ativistas de desativar gradualmente as usinas nucleares alemãs, ainda que a energia nuclear não tenha pegada de carbono.

A chamada Energiewende (transição energética) resultou em uma catástrofe. Mesmo antes que a invasão da Ucrânia expusesse a perigosa dependência alemã do gás russo, a transição de energia estava aumentando preços, enquanto tinha pouco impacto de fato na redução das emissões de carbono. A burguesia verde ainda não reconheceu esse fracasso. E, no entanto, as exigências continuam.

Nas raras ocasiões em que reconhecem a crise energética, os ativistas do clima enxergam uma oportunidade para fazer pressão por mais cortes no consumo de energia. A crise do custo de vida que se instalou está sendo tratada essencialmente como um ensaio para um futuro mais austero.

Essa é “a imagem do poder popular… é a imagem da democracia”, disse Greta para seus seguidores em Lützerath. Ela não poderia estar mais errada. A imagem real transmitida por esses manifestantes é um chilique das classes médias altas privilegiadas, que acreditam que podem impor dificuldades, austeridade e restrições na vida das massas. Está na hora de começarmos a resistir à sua arrogância.

Greta Thunberg é detida em protesto na Alemanha | Foto: Reprodução

Fraser Myers é editor-assistente da Spiked e apresentador do podcast da Spiked.
Ele está no Twitter: @FraserMyers

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