sexta-feira, 8 de abril de 2022

'Fala mais, Lula!', sugere Augusto Nunes

 


O ex-presidiário Luiz Inácio Lula da Silva | Foto: Max Haack/Futura Press


O dono do PT pode transformar-se no adversário que todo candidato pede a Deus


Entusiasmado como o tocador de tuba na última fila da orquestra, tão vigoroso quanto paciente de UTI e com o molejo de um tanque da Primeira Guerra Mundial, Lula faz de conta que dança na pequena pista improvisada na sala do apartamento de Daniela Mercury. 

Move-se ao lado da mulher, Janja, e da anfitriã. 

Com o sorriso forçado de quem sonha com algum sofá, ele tenta acompanhar a cantoria ampliada por um coro de celebridades desconhecidas. 

Todos fingem não notar que, aos 76 anos, o dono do PT aparenta pelo menos dez a mais.

Divulgado no domingo, esse registro audiovisual inaugurou a constrangedora sequência de vídeos que se estenderia até esta sexta. 

Na segunda-feira, o candidato a uma terceira temporada na chefia do governo avisou que, de volta ao Planalto, mudará dramaticamente as relações exteriores. 

Usou como exemplo a guerra decorrente da invasão da Ucrânia por tropas russas. 

“Vou pedir pra vocês pra gente avisar pro Putin, avisar pro presidente da Ucrânia, avisar pro Biden, avisar pros presidentes dos países europeus: parem com essa guerra!”, caprichou na bravata durante outra discurseira para plateias amestradas.

Sempre aos berros, explicou que o povo precisa de paz e quer — nesta ordem — emprego, salário, educação, cultura e vida. Morte o povo não quer. 

Em deferência ao espírito pacífico dos brasileiros, o orador informou que toparia até retomar um hábito nada recomendável que jura ter abandonado há 48 anos. 

“A última vez em que bebi mesmo foi quando o Brasil perdeu para a Holanda de 2 a 0 na Copa do Mundo de 1974”, garantiu numa entrevista publicada pela Folha em 14 de outubro de 2007. 

Pois agora se dispõe a acabar com o conflito nos confins da Europa com uma bebedeira de bom tamanho.

“Por tudo o que eu compreendo, que eu leio e que eu escuto”, caprichou na bazófia, “essa guerra seria resolvida aqui no Brasil numa mesa tomando cerveja”. 

E foi em frente: 

“Se não na primeira cerveja, na segunda. Se não desse na segunda, na terceira. Se não desse na terceira, até acabá as garrafa a gente iria fazer um acordo de paz”. 

Em oito anos na Presidência, por intrometer-se em confusões internacionais, 

Lula consolidou a política externa da canalhice. 

Nesta semana, virou parteiro da diplomacia de botequim. Se insistir em acabar com a guerra entre Israel e os palestinos, não escapará da cirrose.

Na terça-feira, no meio de um falatório na CUT, o pajé da esquerda nativa do País do Carnaval impressionou com outra ousada inovação especialistas no aliciamento, compra ou aluguel de parlamentares. 

Disso ele entende.

“Existe no Congresso uma maioria de uns 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses”, afirmou em 1993. 

Dez anos mais tarde, instalado no gabinete presidencial, dedicou-se à ampliação da bancada da bandidagem. 

Com o Mensalão, comprou o apoio de uma multidão de congressistas. 

Na década seguinte, arrendou partidos inteiros com o dinheiro de empreiteiros envolvidos no assalto à Petrobras. 

Essas fórmulas caducaram, avisou o vídeo da terça. 

E de nada adiantam manifestações nas cercanias da Praça dos Três Poderes. 

Bem mais eficaz é a montagem de patrulhas incumbidas de cercar fisicamente a residência de deputados ou senadores recalcitrantes e pressionar os familiares do alvo, sobretudo mulheres e filhos. 

“A gente tem de incomodar os deputados”, incitou. 

Mesmo que ocupasse uma vaga na Câmara, o pai da ideia não estaria exposto a esse assédio criminoso. 

Lula nunca teve casa ou apartamento. 

Tudo pertenceu ou pertence a algum amigo dele.

Na quarta-feira, a figurinha carimbada da internet decidiu substituir Marilena Chauí no comando da guerra contra milhões de brasileiros que não são pobres nem ricos.

“Nós temos uma classe média que ostenta um padrão de vida que em nenhum lugar do mundo a classe média ostenta”, decolou o palanque ambulante. 

“Na Europa, as pessoas são mais humildes. É uma pena que a gente num nasce e não tem uma aula ‘o que qui é necessário para sobrevivê’. Tem um limite que pode contentá qualquer ser humano. Eu quero uma casa, eu quero casá, eu quero ter um carro, eu quero uma televisão… Não precisa tê uma televisão em cada sala. Uma já tá boa.” 

Faz 40 anos que Lula tem mais de um televisor em cada endereço. 

Mas continua a incluir-se na classe média.

“Na medida em que você não impõe limite”, flutuou na estratosfera, “você faz com que as pessoas, sabe… compre um barco de US$ 400 milhões e outro barco pra pousar o helicóptero.” 

Quem compra barcos com tal preço está longe da classe média. 

É mais que rico. 

É bilionário. Frequentam o clube que tem como sócios, por exemplo, os empreiteiros que reduziram Lula a facilitador de negócios bandidos. 

Se tivesse juízo, o falastrão passaria o restante da semana ajoelhado no milho. 

Em vez disso, chapinhou na mesma quarta-feira no pântano das controvérsias de que todo político com juízo prefere manter distância: em outro vídeo, declarou-se favorável à liberação do aborto. 

No dia seguinte, teve de mudar de ideia. 

Reapareceu na internet para dizer que houve um mal-entendido. 

Ele é contra o aborto.

A continuar assim, algum ministro do Supremo Tribunal Federal não demorará a atribuir esse besteirol a marqueteiros infiltrados pelo atual presidente da República na cúpula da seita que vê num ladrão seu único deus. 

Aos olhos dos alexandresdemoraes e dos edsonsfachins, parece coisa de um gabinete do ódio audiovisual. 

Mas os humanos normais sabem que tudo saiu da cabeça baldia do chefão. 

O que já fez e disse ameaça transformar o ex-presidiário no adversário que todo candidato pede a Deus — e ter os vídeos que anda protagonizando exibidos, com destaque e sem cortes, no horário eleitoral do presidente que disputa o segundo mandato. 

Pior: pelo andar da carruagem, os partidários de Jair Bolsonaro logo estarão gritando nas ruas e repetindo na internet uma palavra de ordem que ninguém previu: 

FALA MAIS, LULA!

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Revista Oeste