segunda-feira, 7 de junho de 2021

Brasil é 9.º país em gastos com funcionalismo. Salário pesa mais que número de servidores

 

Detalhe do prédio do Congresso Nacional, em Brasília: funcionalismo federal tem maior “prêmio salarial” em relação ao setor privado, segundo o Banco Mundial.| Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Um levantamento da Secretaria do Tesouro Nacional a partir de informações do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que, entre 74 países, o Brasil tem a nona maior despesa com funcionalismo público. A pesquisa, com dados de 2019, considera a proporção dos gastos com servidores ativos em relação ao PIB e inclui o pagamento da folha nos níveis federal, estadual e municipal, além dos benefícios pagos pela administração pública para o sistema previdenciário.

Conforme painel do Tesouro, o Estado brasileiro pagou a servidores públicos o equivalente a 12,9% de seu PIB naquele ano. Em relação aos países do G20 – grupo das maiores economias do mundo –, o Brasil aparece na terceira colocação, atrás apenas de Arábia Saudita (17,1%) e África do Sul (15,2%), e bem à frente de economias mais avançadas como Estados Unidos (8,7%) e Japão (5,2%) – dados da China não estão disponíveis.


Gasto de países com remuneração de empregados em 2019 (em % do PIB)

País Porcentual

Kiribati 30,8%

Arábia Saudita 17,1%

África do Sul 15,2%

Dinamarca 15,1%

Noruega 14,9%

Islândia 14,4%

Timor-Leste 13,1%

Samoa 13,1%

Brasil 12,9%

Costa Rica 12,8%

Suécia 12,6%

Chipre 12,3%

Canadá 12,1%

Finlândia 12,0%

Bélgica 11,9%

Croácia 11,9%

San Marino 11,9%

França 11,8%

Quirguistão 11,5%

Eslovênia 11,4%

Grécia 11,3%

Estónia 11,1%

Malta 10,9%

Bósnia e Herzegovina 10,8%

Letônia 10,7%

El Salvador 10,7%

Áustria 10,5%

Bulgária 10,4%

Bielorrússia 10,4%

Espanha 10,4%

Polónia 10,4%

Portugal 10,4%

Sérvia 10,2%

Hungria 10,1%

Lituânia 10,1%

Ucrânia 10,0%

Israel 9,9%

Eslováquia 9,9%

Luxemburgo 9,7%

Austrália 9,5%

Chéquia 9,5%

Itália 9,4%

Rússia 9,4%

Reino Unido 9,0%

Nepal 8,9%

Maurícia 8,8%

Quênia 8,7%

Turquia 8,7%

Estados Unidos 8,7%

Paraguai 8,6%

Nova Zelândia 8,5%

Uzbequistão 8,0%

Países Baixos 7,9%

Alemanha 7,6%

Suíça 7,5%

Moldávia 7,4%

Chile 7,1%

Emirados Árabes Unidos 7,0%

Albânia 6,9%

Peru 6,8%

Irlanda 6,5%

Macedônia do Norte 6,4%

Coreia do Sul 6,3%

Colômbia 5,7%

Tailândia 5,7%

Ruanda 5,5%

Costa do Marfim 5,2%

Japão 5,2%

Armênia 5,0%

Indonésia 4,9%

Azerbaijão 4,1%

Uganda 4,0%

Geórgia 3,6%

Mianmar 3,5%

Singapura 3,5%

Cazaquistão 2,9%

Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional


Para a economista Vilma da Conceição Pinto, pesquisadora licenciada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a comparação do indicador no cenário internacional é importante para a verificação de eventuais pontos de excesso.

“Porém é importante frisar que o gasto é uma função que depende tanto da quantidade de servidores quanto do valor pago a esses servidores”, ressalta. “Outro detalhe é que esse número contempla servidores ativos, inativos e pensionistas. Assim, fatores como demografia, por exemplo, também tendem a afetar esses valores.”

Um estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), com base em dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) de 2018, mostra que a proporção de funcionários públicos em relação à população era de cerca de 12,5% naquele ano. A proporção está bem abaixo da média dos países da OCDE, que era de 21,1%.

Em termos de quadro de pessoal, portanto, o Estado brasileiro não é necessariamente "inchado". O dinheiro destinado aos salários e aposentadorias é que está acima da média.

A situação mantém-se como a observada em 2017 em um relatório do Banco Mundial. “A combinação de alto gasto com pessoal, como proporção do PIB, e moderada proporção de servidores públicos, como proporção do emprego, sugere uma situação em que os servidores públicos brasileiros têm altos salários, quando comparados com os dos outros países”, diz o documento.

Segundo o Banco Mundial, um servidor público brasileiro recebe, em média, 19% mais do que trabalhadores do setor privado com função e escolaridade semelhantes. A essa diferença, a entidade dá o nome de “prêmio salarial”. Embora o porcentual esteja linha com a média uma amostra de 53 países, que é de 21%, há grandes diferenças entre as diversas categorias do funcionalismo brasileiro de acordo com a esfera e o Poder em que atuam. O indicador chega a 96% no âmbito federal, e a 36%, no nível estadual, enquanto que não há prêmio salarial no funcionalismo municipal.

Entre os poderes, a média salarial dos servidores do Judiciário chega a R$ 15,2 mil, enquanto no executivo municipal, fica em R$ 2,9 mil, segundo o Atlas do Estado Brasileiro, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), também com dados de 2019.

“Fazendo um paralelo com a reforma administrativa, é importante que o governo busque a melhor forma de alocar seus recursos e de prover serviços públicos para a sociedade. Uma realidade é a diferença salarial entre o público e privado, que em excesso pode gerar distorções”, diz a pesquisadora licenciada do Ibre.

Aprovada em maio pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, a proposta de reforma administrativa do governo federal é tratada como necessária para a reduzir essa diferença de remuneração entre empregados do setor público e do privado.

O texto sofre críticas, no entanto, porque não inclui membros dos Poderes, como parlamentares, magistrados, promotores e procuradores, além de militares. A explicação do Ministério da Economia é que o Executivo não pode definir normas específicas para os poderes Legislativo e Judiciário.

Enquanto se discute a reforma, uma portaria do Ministério da Economia passou a autorizar que militares da reserva e servidores civis aposentados que continuam exercendo determinados cargos recebam tanto os salários quanto as aposentadorias, mesmo que ultrapassem o teto de R$ 39,2 mil. Entre os beneficiados pela medida estão o presidente Jair Bolsonaro e o vice Hamilton Mourão.


Célio Yano, Gazeta do Povo