
Renato Grandelle, O Globo
Enquanto os jovens alemães cresciam na década de 1930 entoando hinos nazistas, saudando a superioridade ariana e a necessidade de expansão da pátria, crianças e adolescentes franceses permaneciam alheios à crescente tensão que culminaria na eclosão da Segunda Guerra Mundial. Os adultos não queriam preocupar seus filhos, e nutriam a crença em uma França invencível. O mito veio abaixo com os bombardeios a boa parte do país em 1940, menos de um ano após o início das batalhas. Meninos e meninas viram sua vida se desmantelar. Aliado a Hitler, o governo fantoche sediado em Vichy, no sudeste de Paris, acabou com a educação universal, perseguiu menores sem-teto e promoveu o antissemitismo.
As cenas de horror que mancharam a infância de uma geração na França é o tema do documentário “A guerra das crianças”, que será exibido no canal Curta! em duas partes, nesta sexta e na próxima, às 23h. Em entrevista ao GLOBO, Julien Johan, um dos diretores, detalha como a visão do país sobre a juventude mudou durante o confronto.
Por que o senhor decidiu mostrar a guerra a partir da perspectiva das crianças?
Em novembro de 2015, houve ataques terroristas atrozes em Paris e, nas semanas seguintes, muitos pais franceses se perguntaram como explicariam esses eventos a seus filhos. O que poderia ser dito? Como os mais jovens entenderiam essa situação de guerra? Esse foi o ponto de partida para o meu filme. Decidi investigar momentos na História da França em que crianças foram confrontadas com a barbárie adulta. E a Segunda Guerra Mundial parecia ser o período mais significativo para estudar. Milhões de meninos e meninas de 5 a 15 anos tiveram que sobreviver durante seis anos sob a ocupação nazista e o governo de Vichy.
Quais eram as diferenças entre o modo como as crianças francesas e as alemãs foram introduzidas no militarismo e no cenário da guerra?
Em 1933, os nazistas criaram a Juventude Hitlerista, que contou com 9 milhões de membros. Então, quando a guerra começou, essa geração já havia sido manipulada e estava pronta para o front. Na França, foi muito diferente. Os adultos não conversavam com as crianças nem explicavam como seria o confronto. O país venceu a Primeira Guerra Mundial, em 1918, e um forte sentimento de invencibilidade espalhou-se pela população. Por isso, os jovens não estavam conscientes dos riscos. Mas eles logo descobririam a realidade.
Como os nazistas influenciaram a educação dos jovens franceses?
Na França há uma província perto da fronteira alemã chamada Alsácia. Os nazistas sempre consideraram que aquele território pertencia ao seu país, e ele foi entregue ao Reich após o armistício assinado pelas duas nações em 1940. As crianças alsacianas tiveram que frequentar escolas nazistas. Todos os dias elas cantavam hinos sobre Hitler. Aprenderam que Leonardo da Vinci era alemão, tinham lições sobre como desenhar judeus. Até perderam a permissão para falar francês.
Por que, durante a guerra, o governo de Vichy tomou medidas opressivas contra as crianças, como criar um tribunal para julgá-las e acabar com a educação universal gratuita?
O governo de Vichy tentou ensinar as crianças, na escola ou com propaganda, valores como trabalho duro, família e patriotismo, porque queria usá-las para fazer uma “revolução nacional”, considerando o fato de que os adultos poderiam não se engajar nessa agenda política. Então, os jovens tornaram-se um grande alvo político.
O regime também queria que o país fosse o mais conservador possível. As garotas deveriam se tornar donas de casa, então elas não precisavam receber a mesma educação que os garotos. Os filhos de camponeses deveriam seguir esse ofício. Então, a educação não era mais para todos depois da escola primária.
O país tinha dezenas de milhares de crianças pobres nas ruas, e o governo avaliou que essa era uma propaganda muito ruim do regime. Então, foi decidido escondê-las na cadeia.
Como o conflito mudou a visão do governo sobre a infância?
Após a Segunda Guerra Mundial, o governo fechou todos os tribunais voltados ao julgamento de crianças e retomou a educação universal. A guerra nos ensinou que ninguém pode curar ou se recuperar das feridas da infância. Nossos entrevistados no documentário revelaram que, para quem sofreu no confronto, é impossível viver como se nada tivesse acontecido.
Quando aquelas crianças passaram a entender a guerra?
Os adultos silenciaram-se logo após as batalhas. Queriam dedicar-se à recuperação do país, que foi fortemente prejudicado. Não havia tempo para explicar o que aconteceu. Foi somente durante a década de 1960, quando essa geração já estava em seus 20 anos, que os veteranos foram forçados a falar. E finalmente houve um debate sobre como foi horrível a ocupação nazista.
A guerra causa as mesmas cicatrizes nas crianças hoje em dia?
Sim. Podemos ver isso em outros países, como Iraque e Afeganistão. Os jovens de Damasco, na Síria, tiveram de viver sob intensos bombardeios durante vários anos, e não posso imaginar como eles lidarão no futuro com esses dias traumáticos de sua infância. Quando editamos o filme, vimos arquivos mostrando centenas de milhares de civis do Norte da França fugindo das tropas nazistas em 1940, de carro, trem e, na maioria das vezes, a pé. Não pude deixar de pensar nos migrantes atuais. As situações dramáticas são as mesmas. É apenas uma história repetida.