ÉRICA FRAGA - Folha de São Paulo
Com os dados divulgados nesta sexta-feira (01/12) pelo IBGE, que confirmam a continuação da retomada da economia após uma longa recessão, 2017 tende a sair totalmente do radar dos analistas.
Os olhares, modelos e projeções devem focar a partir de agora no ano que vem.
Com a certeza de que a recuperação se consolidou e a aproximação da eleição presidencial, os questionamentos passarão a misturar economia e política.
Uma dúvida que circula entre especialistas é se o ritmo da atividade econômica influenciará de maneira relevante o cenário eleitoral.
Em alguns círculos, já vinha sendo feita a leitura de que a saída definitiva da recessão poderá beneficiar candidatos com vínculo ao governo de Michel Temer.
Essa análise pode ganhar força após a divulgação dos indicadores do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre, mas ela deve ser vista com cautela.
Os dados revelaram, de fato, alguns aspectos novos e importantes da recuperação que estava em curso desde o primeiro trimestre.
Um deles é que o investimento voltou a crescer em relação aos três meses imediatamente anteriores, depois de 15 quedas consecutivas nessa base de comparação.
A expansão de 1,6% é pequena para reverter o declínio de 29,5% registrado entre o terceiro trimestre de 2013 e o segundo deste ano, mas pode ser o início de uma trajetória positiva. A recuperação do investimento é considerada crucial para que o país possa crescer de maneira sustentada.
O outro é que o consumo –principal força por trás da retomada– se manteve em expansão mesmo após passado o efeito extraordinário da liberação de contas inativas do FGTS ocorrida no primeiro semestre.
Esse movimento indica que outros fatores como a queda da inflação, o declínio dos juros, o recuo do desemprego e a incipiente volta do crédito estão impulsionando as famílias a gastarem parte de sua renda novamente para adquirir bens e serviços.
E isso, por sua vez, tem contribuído para o crescimento da atividade econômica de forma mais disseminada, outra novidade desse PIB. Inicialmente restrita ao setor agropecuário, a recuperação chegou no terceiro trimestre com mais ímpeto à indústria e aos serviços.
De acordo com cálculo de Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, 80% dos diferentes segmentos que compõe o PIB subiram entre julho e setembro.
Segundo analistas, essa combinação de fatores deverá fazer com que a taxa de desemprego, que recuou de 12,8% para 12,2% entre o trimestre encerrado em julho e o terminado em outubro, caia mais. A expectativa é de que o indicador caminhe na direção de 11,5% no fim do ano que vem.
Sem dúvida, é um cenário positivo, mas será suficiente para atuar como cabo eleitoral?
Novos postos de trabalho estão sendo criados, porém, em sua quase totalidade, são vagas de perfil precário, o que envolve salário mais baixo, poucos benefícios e grande insegurança.
Além disso, a taxa de desemprego permanece quase o dobro dos 6,2% registrados no fim de 2013.
O potencial comportamento "econômico" do eleitor dependerá da base de comparação que ele usar para analisar sua própria situação em 2018. Será que o brasileiro vai adotar como referência o pior momento da crise, que ficou para trás, ou os anos de otimismo, anteriores a ela?
Uma peculiaridade da brutal recessão pela qual o Brasil acaba de passar foi a forte reversão de expectativas que ela causou.
Nas décadas de 80 e 90, a crise era constante e já estava na conta dos brasileiros.
Já a recessão dos últimos três anos sucedeu um período de robusto desempenho econômico e boom no mercado de trabalho.
Talvez a sensação de orfandade das esperanças perdidas ainda prevaleça sobre a percepção de que dias melhores voltam vagarosamente. Se isso ocorrer, resta saber se afetará as preferências eleitorais e como isso ocorrerá.


















