As duas forças politicas que há vinte anos polarizam as disputas pela presidência da República estrearam nesta arena, em 1989, com duas concepções politicas e programáticas que, à época, sinalizavam para o país algumas perspectivas de que seria possível uma agenda propositiva para uma democracia que procurava dar os primeiros passos em direção às reformas que pudessem resgatar a dívida social, modernizar a economia e consolidar instituições.
A primeira, representada pelo PSDB e sintetizada por Mário Covas em um notável discurso no Senado, propunha um "choque de capitalismo".
Em consonância com o que se delineava como os rumos da nova social democracia, a concepção de choque de capitalismo partia do diagnóstico de que o Estado havia esgotado sua capacidade de investimento, principalmente em infraestrutura.
Para contornar esses pontos de estrangulamento seria necessário um programa de privatização e uma abertura controlada da economia visto que o controle da inflação não seria alcançado somente com ajuste fiscal e aperto monetário.
A segunda concepção, encampada pelo PT, propunha a "desprivatização do Estado" com o objetivo de desvincular os elos entre aparelho de Estado e grandes grupos empresariais, e colocar a máquina pública a serviço da classe trabalhadora e da camada pobre da população.
Ao contrário da primeira concepção, esta segunda não encontrava paralelo no mundo, negando a experiência do socialismo real e propondo um socialismo "democrático", ainda que desconhecido.
O fato é que, deixando de lado o acidente eleitoral de 1989, o PSDB foi o primeiro a pôr em prática suas propostas, começando com a terraplanagem da transição de um indexador para uma moeda, ainda no governo Itamar Franco (1992-1995).
O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) realizou privatizações, iniciou a reforma do Estado, lançou as bases dos atuais programas de transferência de renda, mas não conseguiu, todavia, desmontar totalmente os elementos de indexação da economia, que ainda representam, por sua vez, o pavio da inflação inercial.
Já o governo do presidente Lula (2003-2010), em um primeiro momento manteve os aspectos fundamentais da politica econômica anterior e aprofundou os programas sociais, mas falhou exatamente em um dos pontos basilares da campanha de 1989; a desprivatização do Estado.
Passados quase vinte seis anos das primeiras eleições presidenciais, o que se assiste hoje é um apequenamento do debate politico. Mesmo que se leve em conta que eleições rotineiras fazem com que os partidos convirjam para a disputa do eleitor mainstream e que os avanços tecnológicos permitiram novas maneiras de monitoramento do humor dos eleitores, o fato é que a exacerbação do mercado eleitoral esterilizou o debate político.
O partido que propunha o choque de capitalismo soube ser governo, mas não soube ser oposição. O que advogava a desprivatização do Estado promoveu o sequestro da coisa pública, demonstrando que soube ser oposição, mas não soube ser governo.
Ao observar o cotidiano da politica nacional a sensação que fica não é apenas de uma agenda inconclusa, mas de um retrocesso que, justamente pelas falhas na execução das duas concepções, lança o país num futuro incerto, que não se limita às incertezas do jogo democrático, mas que nos leva a questionar quais serão as regras do que se poderá chamar de democracia.
GUSTAVO MÜLLER é professor de Ciência Política da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM