terça-feira, 25 de novembro de 2014

A revolução do xisto e seu profundo impacto no mundo

Com Blog Rodrigo Constantino - Veja



Economia é um fenômeno extremamente complexo. Inovações tecnológicas, que costumam ocorrer em ambientes mais dinâmicos, liberais e com respeito à propriedade privada, tendem a alterar comportamentos, geopolítica, enfim, tudo. A “destruição criadora” de que falava Schumpeter, e que produz efeitos não-intencionais que podem remodelar o mundo.
A pílula anticoncepcional, por exemplo, fez mais pela “libertação” da mulher do que décadas de pregação feminista. O Viagra fez mais pela “libertação” dos idosos do que qualquer livro de autoajuda. O capitalismo segue inovando sem um controle central, sem um design inteligente, e as pessoas precisam ir se adaptando.
É o caso da revolução energética americana. Quem diria que os Estados Unidos, o maior importador de combustíveis do mundo, um país dependente de energia e que já se meteu em muita guerra por isso, iria virar a mesa e se tornar um grande exportador?
Mas é exatamente o que está acontecendo, graças à descoberta do “shale gas” abundante em seu subsolo, e à tecnologia de “fracking”, que permitiu a extração do combustível preso nas rochas. Os preços do “ouro negro” desabaram por conta disso.
Preço do petróleo tipo WTI. Fonte: Bloomberg
Preço do petróleo tipo WTI. Fonte: Bloomberg
Uma reportagem do Valor hoje mostra como os países árabes estão tendo que rever seus investimentos e gastos devido a queda do petróleo. Isso pode significar uma compra menor de ativos estrangeiros pelos governos do Golfo Pérsico, o que poderá ter grandes consequências para o mercado global de ativos.
Os preços altos do petróleo ajudaram esses países a evitar os tipos de agitações que derrubaram regimes pela vizinhança. Muita coisa poderá mudar com essa queda do petróleo. Na América Latina, o chavismo foi o grande beneficiado da alta da commodity, e os americanos são seus principais clientes. Com a menor necessidade de compra, o que acontecerá com o regime de Maduro, que já tem produzido um grau de insatisfação generalizada?
Se por um lado a queda do petróleo coloca uma espada sobre a cabeça de muitos governantes, ela representa, por outro lado, um alento à economia mundial. Podemos pensar no petróleo como uma espécie de imposto, de transferência de recursos dos consumidores para regimes autoritários. Afinal, os principais exportadores estão reunidos no cartel da Opep e não são exatamente exemplos de democracias sólidas.
Produção americana de petróleo em barris por dia. Fonte: Bloomberg
Produção americana de petróleo em barris por dia. Fonte: Bloomberg
Se o Irã, a Arábia Saudita, a Nigéria, a Venezuela e a Rússia perdem, os que dependem da energia proveniente do combustível fóssil ganham com a redução de seu preço. Os efeitos disso superam e muito os aspectos econômicos. Há profundo impacto geopolítico, pois os Estados Unidos se tornam menos dependentes desses regimes corruptos, atrasados e opressores.
Já aqueles que aproveitaram a onda dos petrodólares, como destinatários desses recursos, terão que se acostumar com uma época de vacas mais magras. Tudo graças ao incrível avanço da produção de petróleo americana, que chegou a impressionantes 9 milhões de barris diários, a maior desde os anos 1980. O que só foi possível, por sua vez, pela revolução tecnológica, fruto do modelo capitalista.