A presidente Dilma Rousseff completará quatro anos de mandato com a produção
industrial estagnada, com o setor em má situação financeira e com escassa
perspectiva de crescimento a curto prazo, segundo as últimas pesquisas e
projeções da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A confiança dos
empresários continua muito baixa e a retomada do investimento está cada vez mais
distante, de acordo com a sondagem divulgada pela entidade nessa
quinta-feira.
Em outro informe, divulgado na primeira quinzena, a CNI havia atualizado suas
projeções para este ano. O crescimento previsto para o Produto Interno Bruto
(PIB) foi reduzido de 2,1% para 1,8%. A expansão estimada para o produto
industrial caiu de 2% para 1,7%. No caso da indústria de transformação o cenário
é pior, com expectativa de avanço de apenas 1,5%.
As projeções anteriores haviam
sido publicadas em dezembro. Em 2013 o crescimento geral da indústria ficou em
1,3%. O do segmento de transformação, em 1,9%. Este ano, tudo indica, fechará um
quatriênio desastroso para a atividade industrial, um dos piores desde o fim da
2.ª Guerra.
Na sondagem recém-publicada, a consulta a dirigentes de 1.858 empresas
pequenas, médias e grandes revelou enorme insatisfação com a margem de lucro
operacional e com a posição financeira das companhias no primeiro trimestre. A
avaliação, nos dois casos, foi a pior desde o segundo trimestre de 2009.
Nessa
série de sondagens, as respostas são convertidas em indicadores dispostos numa
escala de zero a 100. Valores acima de 50 indicam resultados positivos (como
aumento da produção) ou expectativa de melhora.
O indicador da margem de lucro operacional foi 42. O de acesso ao crédito foi
39,2, também o menor desde o período de abril a junho de 2009. Esta é, com
certeza, mais uma consequência da alta de juros iniciada há um ano, do maior
cuidado dos bancos na concessão de empréstimos e, muito provavelmente, da
mudança das condições no mercado financeiro internacional. A sondagem também
apontou redução da atividade e do número de empregados em março e ligeiro
aumento da capacidade ociosa.
Os números também apontam uma expectativa de maior demanda nos próximos
meses, mas com otimismo ligeiramente menor que o do mês anterior (o indicador
caiu de 57,9 em março para 56,4 em abril). Uma sondagem da Fundação Getúlio
Vargas divulgada no mesmo dia apontou um movimento contrário - um pouco mais de
confiança em abril do que no mês anterior. Mas o número permaneceu inferior à
média dos últimos 60 meses. Foi o 14.º mês consecutivo com o indicador abaixo
dessa média.
A pesquisa da CNI incluiu perguntas sobre os principais problemas enfrentados
no trimestre pelas empresas. A carga tributária continuou em primeiro lugar,
apontada por 58,3% dos consultados. Esse item havia aparecido em 55,6% das
respostas na sondagem anterior.
Competição acirrada, alto custo das matérias-primas, falta de demanda e falta
de trabalhadores qualificados apareceram nas posições seguintes. Em sexto lugar
apareceram os juros altos, mencionados por 24,3% dos consultados (20,9% na
sondagem anterior).
Há pouca variação na lista dos principais problemas e a tributação sempre
aparece em posição destacada. Também a resposta do governo às queixas da
indústria pouco varia. Uma reforma tributária ampla continua fora dos
planos.
Para enfrentar de fato o desafio, o governo federal teria de negociar com 27
governadores. Precisaria inventar meios de articular interesses muito
diferentes. A conciliação é possível, mas cada governador, apoiado por uma
bancada estadual ou regional, defenderá sua posição como se os interesses de seu
Estado e os da economia nacional fossem radicalmente opostos. Reformas amplas
são tarefas para estadistas.
Na falta de políticos com essa qualificação,
ocorrerão apenas mudanças, muito modestas - como as desonerações setoriais e até
provisórias. Tem sido essa, há muitos anos, a situação do Brasil, e só com muito
otimismo se pode esperar mudança em prazo razoável.