O Brasil continuará com inflação alta, crescimento econômico abaixo de
medíocre e contas externas em mau estado, neste e no próximo ano, segundo as
projeções coletadas pelo Banco Central (BC) na pesquisa Focus, realizada
semanalmente com cerca de uma centena de instituições financeiras e
consultorias. A última pesquisa, divulgada nesta quarta-feira, foi conduzida na
sexta passada. Na véspera, dia 27, havia sido divulgada a primeira estimativa do
Produto Interno Bruto (PIB) de 2013. Na antevéspera o BC havia anunciado a alta
dos juros básicos de 10,5% para 10,75%.
A principal novidade, neste caso, havia
sido um aumento menor que os seis anteriores, todos de 0,5 ponto porcentual. As
duas notícias, juntas, foram insuficientes para mudar o humor do mercado e
afetar seriamente as estimativas formuladas nas semanas anteriores. Os analistas
continuam à espera de informações muito mais positivas para abandonar ou pelo
menos atenuar o pessimismo. Isso dependerá basicamente do governo.
A pesquisa Focus apresenta projeções sobre preços, juros, dívida pública,
crescimento econômico, câmbio e contas externas. As cifras publicadas são as
medianas das estimativas. Os economistas do mercado, tudo indica, estão menos
otimistas que os dirigentes do BC em relação à alta de preços. Para a inflação
oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi mantida a
projeção de 6%, a mesma coletada nas quatro semanas anteriores. Mas pioraram as
estimativas do IGP-DI, do IGP-M e do IPC-Fipe. Só diminuíram as projeções da
Selic. A taxa final prevista para o ano foi baixada de 11,25% para 11,13%. A
taxa média de 2014 foi diminuída de 10,97% para 10,91%. De toda forma, foi
mantida a aposta em novos aumentos de juros, porque a inflação deverá permanecer
elevada e resistente.
A decisão do BC pode ter sido baseada em algum otimismo quanto à evolução dos
preços. Pode ter sido motivada pela preocupação com o crescimento econômico.
Pode ter resultado de uma combinação desses dois fatores. Seja como for, o
pessoal das consultorias e das instituições financeiras pouco mudou suas
avaliações e manteve as previsões de inflação muito longe da meta de 4,5% e de
expansão econômica inferior à do ano passado. No caso do PIB, a melhora da
projeção foi muito pequena, de 1,67%, na semana anterior, para 1,70%.
Mas a estimativa da produção industrial piorou, caindo de 1,87% para 1,80%. A
expansão econômica mais uma vez dependerá, portanto, dos serviços e da
agropecuária - e isso ainda será determinado pelos estragos da estiagem.
O pessimismo ainda se estende ao próximo ano. Para 2015, a inflação projetada
continua em 5,70%, a mesma taxa estimada quatro semanas antes. O crescimento
econômico deve chegar a 2%, uma taxa extraordinariamente baixa para uma economia
emergente. A produção industrial poderá expandir-se 3% - resultado abaixo de
pífio, depois de três anos muito ruins.
Os analistas do setor privado continuam, portanto, duvidando amplamente de
qualquer melhora significativa das condições de funcionamento da economia
nacional. Segundo essa avaliação, o País continuará operando com baixa
produtividade e, portanto, com reduzido potencial de crescimento.
Essas dúvidas são perfeitamente compatíveis com as projeções para as contas
externas. A projeção para o superávit comercial foi rebaixada de US$ 8,25
bilhões, há quatro semanas, para US$ 7,80 bilhões e, em seguida, para US$ 7
bilhões. Em quatro semanas, a previsão do saldo no próximo ano diminuiu de US$
13 bilhões para US$ 10 bilhões. O déficit em transações correntes para este ano
foi mantido em US$ 75 bilhões na pesquisa Focus da sexta-feira passada - menor
que o do ano passado (US$ 81,4 bilhões), mas ainda um forte sintoma de
desarranjos internos.
Um surto de investimentos produtivos poderia justificar um déficit em conta
corrente dessa magnitude, mas o caso brasileiro é outro. O Brasil continua
investindo menos que 20% do PIB tanto em infraestrutura quanto em meios de
produção para empresas. Milagre econômico seria crescer mais com investimento
tão baixo.