
“Human felicity is produced not so much by great pieces of good fortune that seldom happen, as by little advantages that occur every day.” (Benjamin Franklin)
“Um filme com diálogos de adultos feito para adultos em uma época de adolescentes”, assim um amigo definiu o filme italiano “A Grande Beleza”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro (merecido, apesar de “A Caça” ser esplêndido também).
Os ricos excêntricos de Roma são retratados impiedosamente como cascas vazias em eterna fuga, principalmente os artistas e intelectuais, os “radicais chiques” da esquerda caviar. Festas malucas até o amanhecer, “arte” chocante que não diz nada, muita bebida e sexo sem compromisso ou sentimento, mas tudo não passa de blá-blá-blá. Por baixo das aparências, gente infeliz com famílias desestruturadas.
Entre eles, o anfitrião e personagem principal (excelente ator), um escritor que décadas antes escreveu um romance que se tornou um clássico, por sua paixão e força, inspirado em uma jovem por quem se encantou. Em um momento perfeito, à beira mar, ela lhe marcara para sempre com um gesto simples, sutil, porém sublime. Ali ele teve um sentido para sua vida.
Como ela se foi, assim como esse momento mágico, o escritor se transformou no hedonista que vemos no filme, um misantropo niilista que segue em busca da “Grande Beleza”, em vez de se dar conta de que existem várias pequenas belezas, fundamentais para dar sentido a nossas vidas. Minha esposa, psicanalista, resumiu bem a coisa:
Um filme sobre o vazio causado pela perda daquilo que que nunca se teve, mas que é preciso inventar para viver e contemplar a vida; um filme sobre a perda das raízes, sobre o ódio contra a decepção de promessas que jamais foram feitas e de suas vicissitudes: hedonismo, niilismo, destruição… Um filme sobre a possibilidade de se reconciliar com as próprias raízes, com o sentido da própria vida, a partir do luto da Grande Beleza.
Quando uma quase santa de 104 anos vai jantar em sua espetacular cobertura, ao lado do Coliseu, ela pergunta por que ele parou de escrever. Ao ouvir a resposta, dessa busca permanente da Grande Beleza, ela diz que come raiz porque raiz é importante. Recado dado: não adianta buscar “A” perfeição; é preciso focar naquilo que é essencial para a vida humana, em todos aqueles momentos que fazem a vida valer a pena, apesar de tudo.
Um simples olhar da amada, um sorriso discreto de uma Monalisa, um gesto delicado de uma linda garça, uma música de Beethoven, o momento mágico de uma jarra de leite escorrendo capturado e eternizado pelo pincel de Vermeer, cada um vai encontrar seus momentos relevantes, e vai, a partir deles, inventar um sentido, criar um romance próprio que dê asas à imaginação. Vai, a partir de coisas efêmeras e momentos fugazes, tentar criar o eterno.
Foi o que fez, por exemplo, o escritor japonês Haruki Murakami em sua obra-prima 1Q84, que comentei aqui. O personagem principal, Tengo, aos 10 anos de idade encontra esse “algo perdido”, que nunca existiu, mas que precisa ser inventado. Em seu caso, um simples gesto de uma menina de sua sala, que segurou sua mão com firmeza e disse muito apenas com o olhar. Décadas (e mais de mil páginas) depois, aquele ato distante ainda estava presente, a ponto de servir como inspiração para todo um romance – uma forma de fazer o luto da fantasia de plenitude.
Revoltar-se contra a vida, contra o amor, contra Deus, contra a existência, por sua suposta falta de sentido, por suas imperfeições e injustiças, acaba sendo um ato infantil que leva à própria destruição e infelicidade. O hedonismo desenfreado, o crescente consumo de drogas, as orgias e bacanais, o consumismo incontrolável, são apenas fugas que aumentam a sensação de vazio em nossas vidas. Não busque a Grande Beleza, mas tente contemplar as inúmeras belezas da vida.