"Programa 'mais cubanos´", editorial do Estadão
Os números são claros como as águas do Mar do Caribe: dos 13 mil
profissionais que o programa Mais Médicos pretende mobilizar até março, mais de
10 mil serão cubanos. Com isso, não resta mais nenhuma dúvida de que a anunciada
intenção de atrair médicos de outras nacionalidades ou mesmo brasileiros não
passou de fachada para um projeto há muito tempo acalentado pelo governo
petista: importar médicos cubanos em grande escala, ajudando a financiar a
ditadura cubana.
A terceira fase do Mais Médicos, recém-encerrada, ofertou 6,3 mil vagas, mas
teve apenas 466 médicos estrangeiros e 422 brasileiros inscritos. Haverá uma
nova etapa de inscrições, mas é improvável que a tendência de baixo interesse
seja alterada até lá. Assim, para cumprir a meta, o governo terá de trazer
outros 5 mil médicos de Cuba. Esse novo contingente vai se juntar aos 6,6 mil
médicos que já atuam no programa - dos quais 5,4 mil são cubanos.
Como se nota, o programa Mais Médicos deveria se chamar "Mais Cubanos", pois
é disso que se trata. As condições estabelecidas pela iniciativa foram
desenhadas de tal modo que o resultado seria o desinteresse de brasileiros e
estrangeiros, gerando a oportunidade para trazer os médicos de Cuba - os únicos
que, soldados de uma ditadura, aceitariam trabalhar em meio à precariedade do
sistema de saúde no interior do País e na periferia das capitais.
Que as regiões mais pobres do Brasil necessitam de mais médicos não resta
dúvida. Mas esses profissionais não resolverão o problema, nem mesmo o
mitigarão, se não tiverem à sua disposição equipamentos e infraestrutura ao
menos razoáveis. É por esse motivo - e pelo fato de que não teriam direito a
FGTS, 13.º salário e hora extra - que os médicos brasileiros não se interessaram
em aderir. O Mais Médicos é apenas um remendo - que, no entanto, nada tem de
improviso, pois a intenção sempre foi trazer os médicos cubanos.
A primeira vez que o assunto veio à tona foi em maio do ano passado, quando o
ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou a intenção de importar 6 mil
cubanos. Diante da reação negativa, Padilha disse que tentaria atrair médicos de
Portugal e Espanha e que daria preferência a brasileiros, mas não conseguiu
aplacar os críticos, pois estava claro que as normas da boa medicina estavam
sendo atropeladas pelo populismo. Vieram então as manifestações de junho, e a
presidente Dilma Rousseff viu nelas a oportunidade de lançar o Mais Médicos.
Seis meses antes, porém, professores brasileiros com material didático do que
viria a se tornar o Mais Médicos foram a Cuba e lá transmitiram aos médicos
locais noções básicas sobre o sistema público de saúde no Brasil e também
rudimentos de língua portuguesa. Profissionais do primeiro lote de cubanos que
chegou ao País confirmaram que haviam passado por esse treinamento.
É provável, porém, que a vinda dos cubanos estivesse sendo preparada há mais
tempo ainda. Humberto Costa, ex-ministro da Saúde do governo Lula, chegou a
dizer, em agosto, que "esse programa já vem sendo trabalhado há um ano e meio" e
que "boa parte desses cubanos já trabalhou em países de língua portuguesa, não
tem dificuldade com a língua".
Assim, o Mais Médicos é apenas a formalização de um projeto antigo e com
objetivo claro. Os profissionais de Cuba recebem pelo seu trabalho apenas uma
fração do valor pago pelo governo brasileiro - o resto fica retido, junto com os
passaportes desses médicos, pela ditadura cubana. A exportação de médicos rende
US$ 6 bilhões anuais para o governo dos irmãos Castro. O Brasil vai contribuir
com R$ 511 milhões graças ao Mais Médicos.
O governo petista está apresentando essa iniciativa - principal ativo da
campanha de Alexandre Padilha ao governo paulista - como a prova de que é
sensível às necessidades dos mais pobres. No entanto, além de ser uma forma de
consolidar os laços ideológicos com Cuba, o Mais Médicos é a confissão do
retumbante fracasso do governo na área de saúde, cujo descalabro nos iguala a
países pobres, principais clientes da indústria médica cubana.