domingo, 24 de maio de 2026

Quatro mitos sobre o dinheiro que devem ser erradicados - Robert P. Murphy

 

Nota da edição:

Hoje, dia 23 de maio, o renomado economista austríaco e Senior Fellow do Mises Institute Robert P. Murphy (mais conhecido como Bob Murphy) faz 50 anos. Para comemorar esta data importante, trazemos mais um conteúdo essencial do autor no qual ele refuta mitos sobre o dinheiro. Nós do Mises Brasil desejamos muitos anos de vida ao Dr. Murphy e que ele continue popularizando e explicando de forma simples conceitos essenciais da Escola Austríaca e da teoria libertária


Com a possível exceção do comércio internacional, nenhum tema da economia contém mais mitos do que a teoria monetária. No presente artigo, abordarei quatro opiniões populares sobre o dinheiro que ou são ambíguas ou são simplesmente falsas.

Mito número 1: “O dinheiro representa um direito sobre bens e serviços”

Embora haja um fundo de verdade nessa visão, ela é bastante simplista e compreende mal o que o dinheiro realmente é. O dinheiro não é um direito sobre bens e serviços, da mesma forma que um título representa um direito legal a pagamentos futuros em dinheiro ou que uma ação representa um direito sobre os ativos líquidos de uma empresa. Pelo contrário, o dinheiro é um bem em si mesmo. Se você possui uma nota de 20 dólares, ninguém tem qualquer obrigação contratual de lhe dar algo em troca dela1.

Ora, é claro que, muito provavelmente, as pessoas estarão dispostas a trocar os mais diversos tipos de bens pela sua nota de 20 dólares; afinal, foi exatamente por isso que você trabalhou (ou vendeu outra coisa) para obtê-la em primeiro lugar. Ainda assim, se quisermos realmente compreender o dinheiro, precisamos distinguir, de um lado, as obrigações de crédito e, de outro, um meio de troca universalmente aceito (isto é, dinheiro).

Mito número 2: “O poder de compra do dinheiro é igual à oferta de produção real [ou PIB real pelo lado da oferta] dividida pela oferta de dinheiro”

Assim como na primeira visão, aqui também existe um fundo de verdade. Especificamente, se todas as demais variáveis permanecerem constantes, então o “nível de preços” (ignorando os problemas de mensuração e arbitrariedade) aumentará se a oferta monetária crescer mais do que a produção real, e cairá se a produção real crescer mais do que o estoque de dinheiro.

Contudo, as demais variáveis não precisam permanecer constantes, especialmente a demanda por manter dinheiro em caixa. Como ocorre com qualquer outro bem, o “preço” do dinheiro (isto é, seu poder de compra — ou quantas unidades de rádios, televisores etc. as pessoas oferecem para receber unidades monetárias) é determinado pela oferta de dólares e pela demanda da comunidade por manter dólares. Um determinado estoque de dinheiro pode ser compatível com qualquer nível de preços imaginável, desde que seja possível alterar a demanda por dinheiro.

Por exemplo, mesmo que a produção e o estoque de dinheiro permanecessem constantes, todos os preços poderiam dobrar caso todos na comunidade desejassem reduzir pela metade o poder de compra de seus saldos de caixa. Como isso seria possível? Inicialmente, todos acreditariam que tinham “dinheiro demais” em caixa e, portanto, tentariam gastá-lo. Mas, como os comerciantes também acreditariam que tinham muito dinheiro em caixa, concordariam em vender apenas a preços mais elevados. (Se isso lhe parece estranho, considere o seguinte: mesmo que você se sinta desconfortável com 1.000 dólares na carteira — talvez porque tenha acabado de ganhar muito dinheiro em um cassino —, se alguém se aproximasse e lhe oferecesse mais 1.000 dólares pelos seus sapatos, provavelmente você aceitaria).

Se ignorarmos todas as complicações do mundo real causadas por questões temporais, é fácil perceber que, no novo equilíbrio, no qual todos estão satisfeitos com seus saldos de caixa, nada terá mudado em termos “reais”. Em vez disso, o preço unitário de tudo (em dólares) terá dobrado, de modo que, embora a quantidade per capita de notas de dólar permaneça a mesma, agora a pessoa média só poderá comprar metade da quantidade de bens reais com o dinheiro que carrega na carteira. Naturalmente, esse tipo de exemplo (que tomei emprestado de Milton Friedman) é bastante irrealista, mas serve para ilustrar o ponto de que os preços não são uma função mecânica dos estoques físicos de bens e de notas de dólar. Pelo contrário, as valorações subjetivas das pessoas também são fundamentais.

Mito número 3: “Sob um padrão-ouro, o dinheiro é lastreado por algo real, enquanto no sistema atual as notas de dólar são sustentadas pela confiança no governo”

Novamente, simpatizo com esse tipo de visão, mas, quando meus alunos mais avançados escrevem algo assim em suas provas, preciso descontar pontos pela imprecisão. Em termos rigorosos, sob um padrão-ouro o dinheiro não é lastreado por nada; o dinheiro é o ouro. Ora, se tivermos um governo emitindo pedaços de papel que sejam títulos resgatáveis em ouro com cobertura de 100%, eu não classificaria esses ativos derivados (isto é, os pedaços de papel) como dinheiro, mas talvez como certificados monetários. Ainda assim, essa é apenas uma pequena ressalva.

Minha verdadeira objeção à visão citada acima é que ela nega que nossa atual moeda fiduciária seja realmente dinheiro. Embora eu (como libertário e economista austríaco) condene completamente a história monetária dos Estados Unidos e deplore os meios pelos quais o público foi gradualmente afastado à força do padrão-ouro, ainda assim é simplesmente enganoso e incorreto negar que os pedaços verdes de papel em nossas carteiras e bolsas sejam dinheiro genuíno. Eles satisfazem a definição tradicional dos livros-texto: são um meio de troca aceito quase universalmente em uma determinada região. Ninguém está obrigando você a aceitar pedaços verdes de papel quando vende algo. (Se você não quiser que lhe empurrem essas notas, basta cobrar um bilhão de dólares por tudo o que vender). O fato de que a coerção governamental (passada e presente) seja necessária para manter essa condição é irrelevante; cigarros realmente circularam como dinheiro nos campos de prisioneiros de guerra da Segunda Guerra Mundial, embora isso não tivesse ocorrido sem o ambiente artificial e coercitivo em que os comerciantes se encontravam.

Mito número 4: “A deflação é indesejável porque paralisa os investimentos. Se os preços em geral estiverem caindo, ninguém investirá em bens reais porque poderá obter um retorno maior simplesmente mantendo dinheiro em caixa”

Embora esse último mito seja compreensível quando defendido por leigos, é inexplicável que alguns economistas treinados acreditem nele. (Para citar três exemplos: um professor da NYU o utilizou para “refutar” um amigo meu seguidor de Mises em sala de aula; o verbete da Wikipédia sobre deflação menciona esse argumento; e até Gottfried Haberler apresenta uma versão dele em um ensaio). Em primeiro lugar, o argumento ignora o fato de que houve muitos anos de deflação efetiva em economias industriais sob padrões monetários de ouro ou prata; não creio que os investimentos tenham caído a zero em todos esses anos. Portanto, algo claramente está errado com o argumento.

Mais especificamente, o argumento falha porque pressupõe descuidadamente que os dados relevantes para um investidor são os preços à vista de determinado bem de um ano para o outro. Mas isso está errado. Por exemplo, suponha que alguém esteja considerando investir em garrafas de uvas em fermentação que estarão prontas para venda como vinho exatamente um ano depois2. A taxa de retorno desse investimento envolve o preço das uvas em 2005 e o preço do vinho em 2006. Vamos então refinar ainda mais o exemplo e supor que todos os preços caiam 50% ao ano; isto é, há uma deflação massiva e, presumivelmente, ninguém deveria estar disposto a investir em vinho ou em qualquer outra coisa.

Ainda assim, não há motivo para chegar a essa conclusão. Por exemplo, o preço em 2005 da garrafa de uvas em fermentação pode ser 100 dólares e o preço em 2005 de uma garrafa de vinho pode ser 400 dólares, enquanto o preço em 2006 da garrafa de uvas será 50 dólares e o preço em 2006 da garrafa de vinho será 200 dólares. (Observe que, conforme estipulado, todos os preços caíram 50% ao ano). Nosso investidor preferiria manter seu dinheiro em caixa, que em certo sentido se valoriza a uma taxa real de 100% ao ano? De forma alguma! Com os números do exemplo, o investidor obteria um retorno nominal de 100% (e não apenas real) sobre seu dinheiro caso investisse na indústria do vinho: ele paga 100 dólares por uma garrafa de uvas em fermentação em 2005, espera um ano e vende a garrafa de vinho resultante por 200 dólares.

Se o investidor tivesse simplesmente mantido seus 100 dólares em caixa em 2005, seu poder de compra teria aumentado de 1/4 de uma garrafa de vinho (em 2005) para 1/2 garrafa de vinho (em 2006). Mas, ao investir o dinheiro, seu poder de compra aumenta de 1/4 de garrafa em 2005 para 1 garrafa inteira em 2006. Uma vez que permitimos que os preços dos bens de capital e das matérias-primas se ajustem às expectativas de deflação, não há razão para que a queda dos preços prejudique os investimentos3.

Conclusão

A maioria dos mitos relacionados ao dinheiro pode ser facilmente desfeita quando consideramos o que o dinheiro realmente é. Alguns dos mitos mais sutis, especialmente aqueles relacionados à deflação de preços, tornam-se claros quando analisamos a estrutura intertemporal de preços. Em ambos os casos, a Escola Austríaca de economia nos serve muito bem.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

Recomendações de leitura – leia mais artigos do professor Bob Murphy:

A teoria e uma breve história do dinheiro e dos bancos

Por que o custo de vida nas cidades é tão alto?


  1. Mesmo as leis de curso forçado não alteram essa afirmação. Se você deve a alguém, digamos, US$ 1.000 e o governo determina que uma nota de US$ 20 específica vale como pagamento parcial, isso não significa que essa pessoa lhe deva um item em troca da nota de US$ 20. Trata-se, na verdade, apenas de uma declaração do governo de que sua dívida pode ser parcialmente quitada com a nota de US$ 20 em questão. (Naturalmente, sou contra as leis de curso forçado). ↩︎
  2. Suspeito que essa história esteja longe de ser uma descrição precisa da produção de vinho, mas foi a maneira mais fácil que encontrei para ilustrar meu argumento. ↩︎
  3. Um crítico perspicaz poderia responder que o verdadeiro problema da deflação não é que ela eliminaria completamente todo o investimento, mas sim que o investimento cessaria no momento em que o retorno real marginal se igualasse ao retorno real da posse de dinheiro. Não tenho certeza se mesmo essa versão do argumento é válida, mas, de qualquer forma, não é isso que muitos economistas (como o autor da Wikipedia) parecem estar dizendo.




Robert P. Murphy  - Mises Brasil