domingo, 31 de dezembro de 2017

Brasileiros são responsáveis por 70% das novas indústrias do Paraguai


‘Tem de ficar claro: deu para um grupo, vai faltar a outros’, diz secretária do Tesouro

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

 Primeira mulher a comandar o Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi diz que o Brasil tem um encontro marcado com a discussão sobre as despesas obrigatórias, como o pagamento de aposentadorias, pensões e salários do funcionalismo. Com fama de durona apesar do tom sempre baixo e pousado da voz, Ana Paula diz que é preciso ficar claro para o Congresso e para a sociedade que dar mais recursos para reajustes de servidores, por exemplo, significa reduzir as verbas destinadas a políticas que atingiriam a população como um todo, inclusive em áreas essenciais como saúde, educação e assistência social. A seguir, os principais trechos:
Vescovi
Sem saída. País será forçado a rever despesas, diz Ana Paula Foto: José Cruz/Agência Brasil
As medidas para 2018 não foram aprovadas e a reforma da Previdência foi adiada. Vai ter que apertar mais o cinto?
Será inevitável rediscutir despesas obrigatórias, vinculações de receitas, a rigidez orçamentária no Brasil. Seja qual for o governo que vier, por algum tempo o Brasil enfrentará essa agenda e terá que fazer escolhas que são difíceis, mas necessárias. O excesso de rigidez do Orçamento, de indexação de despesas obrigatórias e o impacto da tendência demográfica sobre as despesas estão levando à baixa qualidade na alocação dos recursos públicos. É isso que precisará ser enfrentado.

Medidas para reduzir a rigidez orçamentária não foram ainda tomadas?
(A questão) Não está sendo endereçada. O exemplo do Orçamento de 2018 poderá ser bastante pedagógico. Temos uma discussão do reajuste dos servidores. A postergação poderia reduzir despesas obrigatórias em R$ 6 bilhões em 2018. Sem a postergação, vai ficar um espaço mais restrito para despesas que são absolutamente importantes. Estamos falando em trocar um benefício para um grupo já muito privilegiado por mais recursos para o Fundo Nacional de Assistência Social, por exemplo. Teremos menos investimento, menos dinheiro para conservação de estradas que têm excesso de acidentes, com ônus para o sistema de saúde. Essa troca tem que ficar mais clara para a sociedade. Talvez teremos que dar R$ 6 bilhões para um grupo bastante privilegiado e restrito, servidores que têm estabilidade no emprego, altas remunerações. Estamos dando para esse grupo e vai faltar para outras políticas.

Como a senhora vê a pressão do funcionalismo sobre medidas do governo?
É uma pressão muito grande, mas não podemos generalizar. Em primeiro plano, ela vem na defesa de um interesse específico, corporativista. De forma alguma faz um bom debate em relação aos interesses da sociedade. Temos uma convivência ainda com milhões de desempregados.

Como se vence essa batalha?
Mostrando os dados e como se alia ao interesse coletivo. Me espanta que os partidos que foram defender a manutenção dos reajustes são de esquerda e que empunham a bandeira da população carente, mais pobre. Então, foi lá defender o interesse do grupo mais privilegiado dos trabalhadores. Isso tem que ficar claro. Deu para um grupo, vai faltar para outros. 

A necessidade de ajuste é um discurso no Congresso, mas na hora eles não votam. Por quê?
Eu acredito que isso cresce em ondas. É um processo de convencimento. Hoje, já temos uma compreensão muito maior do problema do que há um ano e meio de que temos um problema fiscal grave no País. O que espero que fará grande diferença é que, na última eleição, foi um discussão quase inexistente. Quem tentava fazer era negado. No ciclo eleitoral do ano que vem, essa discussão fiscal não faltará.

Mas não podem aparecer soluções aventureiras ou até de negação?
Tenho dúvidas se a população vai aceitar simplesmente alguém que fale não tem problema. Os problemas estão aí. Não tem dinheiro nos Estados para pagar os salários atrasados, o serviço público de saúde padecendo. Não é só o Rio de Janeiro. O cidadão não tem a percepção de que está tudo resolvido, mas sim de que há um grande problema nas contas públicas.

Está tão difícil passar no Congresso medidas de ajuste até mesmo de menor alcance.
Eu acredito que, dado o tamanho da restrição que estamos vivendo, essa discussão vai crescer e encorpar.

É um debate para 2018?
Sim, porque temos a regra de ouro. É preciso discutir. É uma das restrições fortes.

O descumprimento da regra de ouro impõe penalidades ao presidente, ministros e secretários, que serão responsabilizados.
No limite, pressupõe que teremos falta de fontes para financiar déficit que não seja investimento. A Constituição diz que a emissão de dívida do Tesouro não pode ser usada para pagar despesa corrente, como a Previdência. Isso tudo vai tornando muito claro como é inexorável enfrentarmos. A Previdência tem hoje um quadro de déficit indo para R$ 200 bilhões, mas o mais grave é que piora por uma questão demográfica. São múltiplas restrições. Elas não passam necessariamente só pelas regras. Elas são reais sobre o financiamento do déficit brasileiro. E acredito que vai crescer. Temos um encontro marcado com a discussão da rigidez orçamentária e do excesso de despesas obrigatórias.
Para 2018, o governo tenta resolver com a devolução dos recursos pelo BNDES. E 2019, como fica? É uma crise contratada para o próximo presidente?
É uma crise contratada. É uma pauta suprapartidária. É uma discussão que terá que ser feita no ano que vem.

Já conseguiram projetar o rombo da regra de 2019? É maior do que o projetado para 2018?
É muito similar. Vamos esperar o de 2017 para ver se modelo funcionou bem para termos segurança e mostrarmos já 2019.

O Brasil tem três regras fiscais: a meta, o teto e a regra de ouro. O que acontece se uma perna desse tripé fiscal cair?
Descumprindo a regra de ouro, imediatamente nós temos que suspender o financiamento de despesas correntes. Do teto, temos vedações constitucionais de um grupo de despesas. A regra do ouro talvez necessite passar por um aperfeiçoamento. Seria muito mais interessante ela ter esses acionamentos automáticos do que levar um crime de responsabilidade.

Como seriam?
Um pouco do que foi feito com o teto. Se levou ao descumprimento, seria importante a vedação de algum tipo de despesa, financiamento ou desvinculação de receita para que a gente pudesse lidar.

Há uma proposta já pronta no governo?
Estamos levando essa discussão para vários atores que têm se interessado. Tendo mais segurança dos cenários que vamos enfrentar nos anos subsequentes, vamos aprofundar um pouco na proposição de algumas medidas. Mas no momento não existe uma proposta.

O governo perdeu as medidas de ajuste e tudo indica vai perder o projeto que reonera a folha de pagamento das empresas. Como reagir aos reveses?
Eu vi uma nota de que a Câmara está fazendo um movimento de lideranças políticas no sentido de rever as despesas obrigatórias. Fazer uma proposta legislativa tangenciando essa questão de conter as despesas obrigatórias.

Quais despesas atacar?
Criação de programas que vinculam receitas, excesso de fundos públicos vinculados à receita, a existência de um superávit de exercícios anteriores “absolutamente” vinculado e que poderia ser extremamente importante para abater a dívida pública. Discutir a vinculação de receitas a despesas específicas. A dificuldade que se tem de ter clareza sobre a despesa de pessoal em todos os poderes e entes subnacionais.

Isso chegou a ser discutido no governo?
Não. Isso é uma questão de iniciativa e protagonismo dentro do Congresso. Mas estamos à disposição para discutir e oferecer números.

O teto de gastos já está em xeque. Ele será sustentável?
A regra do teto é simples e estimula essa discussão alocativa. Também traz um acionamento automático de medidas caso não seja cumprido, vai vedar novos concursos, novos reajustes de salários, crescimento de despesas obrigatórias acima da inflação. Vai trazer mais força ainda para essa discussão. Com a expectativa de termos um bom crescimento em 2018 e com alento do campo das receitas, isso não virá em benefício das despesas porque a regra do teto está valendo. Qualquer ganho de receita virá em benefício do resultado fiscal.

Já há uma discussão que o teto pode ser revisto. O que acontece?
Acreditamos que essa discussão não se sustenta. O teto é a construção que nós temos para sinalizarmos aonde o Brasil vai chegar em termos de endividamento público. Ainda temos uma dívida pública crescente e que deverá crescer por algum tempo até estabilizar. Se nós perdemos essa sinalização, os financiadores começam a cobrar um prêmio de risco [valor adicional para comprar títulos públicos]. E aí, há uma deterioração natural da economia, crescimento e geração do emprego.

A sra. tem fama de ser uma secretária dura.
É? Nossa...

Inclusive nos Estados. Mas a sra. perdeu algumas batalhas, cedendo em pontos do ajuste fiscal, e ganhou outras. Como a sra. faz esse balanço?
Não vejo a relação de perdas e ganhos, vejo uma relação de avanços. Nós avançamos até o limite, sempre mantivemos diálogo aberto com todos os Estados, sempre usamos de muita transparência e muita firmeza. Por isso às vezes isso se confunde com dureza. A gente conseguiu transitar por essa fase difícil da crise dentro dos nossos limites. No campo do ajuste fiscal federal, também acho que nós avançamos muito na principal ferramenta que temos hoje, que é a transparência. Minha impressão, e gostaria de ver isso confirmado pelos agentes externos, é que o Tesouro recuperou a confiança na sua condução da execução fiscal e financeira que nos cabe.

‘Alckmin tem qualidades para assumir o país'

O Estado de São Paulo


Mônica Scaramuzzo e Fernando Scheller, O Estado de São Paulo

O empresário Rubens Ometto Silveira Mello, fundador do grupo Cosan (dono da Raízen, ALL e Comgás), diz que o País pode deixar de crescer em 2018 se a reforma da Previdência não for aprovada. Ometto elogiou o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) em São Paulo e fez duras críticas à gestão petista, além de defender que o governo tem de reduzir a intervenção na economia. “Enquanto não tirar o governo da economia, a corrupção não acaba.” A seguir, trechos da entrevista.
O que esperar do último ano do governo de Michel Temer?
Espero que ele continue o trabalho que está fazendo e aprove as reformas, que são necessárias. Tem a da Previdência, que é fundamental, além das reformas política e tributária, que ele ainda nem começou. Ele também tem de liderar o MDB na transição política do País nas próximas eleições. 
Temer tem capital político para tocar a reforma da Previdência?
Sim. Acho que o forte de Temer é capacidade de gestão e o relacionamento com a classe política. Eu não vejo ninguém hoje no Brasil com cacife político e com compreensão de como é o comportamento político de cada um individualmente e no conjunto como ele.
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FR12 S?O PAULO - SP - 20/12/2017 - ECONOMIA - RUBENS OMETTO - CAMINHOS PARA O BRASIL - Foto do Rubens Ometto Silveira Mello, dono do grupo Cosan. FOTO: FELIPE RAU/ESTAD?O
Ele perdeu a oportunidade de aprovar a reforma em dezembro. Temer continua sendo a pessoa capaz de conduzir as mudanças?
Continua, sim. Ninguém é melhor do que ele para fazer as reformas neste momento. Naquele episódio de maio de 2017 (a delação dos irmãos Batista), esqueceram das reformas. Criou-se uma obsessão em tirá-lo da presidência. Não estou defendendo. Sou engenheiro e empresário, sou pragmático. Então, quando se falava de ‘Fora, Temer’, ninguém pensou no que estava em jogo se ele realmente saísse. Essas reformas poderiam ter sido aprovadas antes. 
E se a da Previdência não for aprovada, compromete o crescimento do País?
Bastante. Mas acho que o Brasil é muito forte e saudável. E, com o que já foi feito, o País tem demonstrado reação. A inflação e os juros já baixaram. Estão todos com a expectativa da aprovação da reforma.
Temer tem processos que pesam sobre ele. A agenda política deve ser separada da econômica?
Não sou da Polícia Federal, nem procurador-geral da República. Não estou aqui para julgar ninguém, mas acho que são coisas separadas.
Como o sr. vê a corrida eleitoral? Há um cenário polarizado, com candidatos de extrema direita e extrema esquerda nas pesquisas de intenções eleitorais. 
Não vejo assim. Há candidatos de centro-direita, como Geraldo Alckmin, por exemplo. Tem os nomes de Luiz Inácio Lula da Silva, Ciro Gomes e Jair Bolsonaro, mas ainda indefinidos. 
O sr. acha que Lula deveria ser candidato?
Não deveria. Ele já foi eleito por duas gestões. Ele precisa dar espaço para gente nova. O mundo gira e precisamos de renovação política. Direito de ser candidato, ele tem. Mas houve muita coisa mal feita durante a gestão PT e estamos pagando a conta agora.
O que o sr. pontua como coisas mal feitas?
Tem muita coisa. A própria gestão passada da Petrobrás, o excesso de corrupção, a distorção do papel das agências reguladoras, o aumento do custo da máquina pública e dos funcionários públicos, a má gestão das empresas estatais, da política energética. Lula e Dilma Rousseff estavam juntos nisso. O pré-sal, como foi feito, a formação de cartéis, o aumento do sindicalismo. E estamos pagando a conta agora.
Como o sr. vê a eventual candidatura de Bolsonaro? 
Se eu disser que conheço o Bolsonaro a fundo, estou mentindo. Mas, pelo pouco que conheço, acho que a questão da segurança pública, defendida por ele, deveria estar na agenda de todos os candidatos. Qualquer candidato que levante essa bandeira, sai com um potencial enorme porque essa questão afeta todas as classes sociais. Mas acho que ele não tem os conhecimentos profundos de política e de economia para comandar o País.
O sr. acha que o Alckmin reúne essas qualidades?
Sim. Ele é uma pessoa equilibrada, de centro-direita. Ele faz uma gestão muito boa do Estado de São Paulo. Às vezes, as pessoas criticam a eventual equipe que ele vai montar... Essa é a culpa do brasileiro, que acha que o Estado tem de ser forte. Quem tem de ser forte são as instituições, a população e os empresários. Precisamos parar de pensar que o presidente da República tem de vir com fórmulas mágicas e ser o salvador da Pátria.
As denúncias de formação de cartéis em obras de metrôs, incluindo o de São Paulo, não criam uma mácula sobre Alckmin?
Acho o Geraldo uma pessoa correta. Não dá para dizer que ele esteja diretamente envolvido nisso. O que acontece hoje é que todo mundo levanta suspeitas sobre todo mundo, muitas vezes infundadas.
O sr. participa de algum movimento, como o Renova BR?
Não participo formalmente de nada e participo informalmente de tudo. Embora o empresário não seja político, no fundo somos políticos. Defendo minhas ideias, pago muitos impostos, gero muito emprego. Tenho a obrigação de ajudar politicamente. 
O sr. acha que o empresariado foi omisso nos últimos anos?
Não. Eu tinha certa proximidade com a presidente Dilma. Todo mundo tentou ajudar, tentou falar, mas ela fazia o que ela queria. Entrava por um ouvido e saía por outro. Tanto é que foi um desastre a gestão econômica dela. A grande verdade é que boa parte dos que estavam do lado dela está envolvida na Lava Jato.
O sr. acha que ela estava envolvida em corrupção?
Pessoalmente não, mas politicamente sim.
Muitas empresas receberam apoio do BNDES, que priorizou campeãs nacionais. Qual deve ser o papel do BNDES?
Não deveria ter escolhido. O papel do BNDES é estimular investimentos em projetos que ainda não deslancharam.
O sr. tem uma visão de gestor privado, que é bem diferente da do gestor público.
Mas o que é um gestor público? Defender o emprego de quem ganha mais, de um monte de gente que se não performar direito você não pode mandar embora? Isso é um bom dirigente? Que tem uma Previdência que é muito maior que toda a população brasileira? Enquanto não tirar o governo da economia, a corrupção não acaba. Quer acabar com corrupção? Tira o governo da economia. Quer diminuir a inflação? Acabe com o controle de preços. 
A Petrobrás colocou à venda vários ativos. Cosan e Ultra chegaram a olhar a BR no passado recente, mas a petroleira optou por abrir o capital da companhia. Foi o melhor caminho?
Minha opinião sobre a Petrobrás é um pouco diferente de tudo. Se eu fosse o responsável pela empresa, não privatizaria nada. Eu privatizaria a companhia como um todo. Faria um aumento de capital na companhia, atrairia investidores estrangeiros e transformaria a Petrobrás em uma empresa de capital pulverizado, como o processo conduzido pela Vale. No fim das contas, a companhia vende um monte de coisa e a dívida fica do mesmo tamanho.

"Um voto decisivo", editorial do Estadão

Estado ouviu diversos analistas políticos e econômicos para traçar os cenários de 2018, e a maioria dos comentários colhidos converge para a certeza de que a eleição presidencial terá um caráter decisivo, pois seu resultado pode colocar o Brasil de vez no trilho da recuperação econômica e das reformas ou pode condenar o País a um retrocesso populista do qual dificilmente se recuperará num futuro previsível. “É possível que nunca na história econômica do Brasil o curto prazo tenha tido tanta importância para definir o destino do País como agora”, opinou a economista Zeina Latif, dando o tom das preocupações que cercam o pleito presidencial. “Não há espaço para um governo medíocre em 2019.”
Ainda que seja tímida, é um sinal promissor a redução da resistência popular à reforma da Previdência, resultado da campanha do governo que corretamente chamou a atenção para o fato de que a manutenção do atual sistema só interessa à elite do funcionalismo público. Significa que, se tiver acesso a informações que os ajudem a compreender a necessidade de sacrifícios para o bem geral, os eleitores podem se tornar menos refratários às mudanças.
Assim, é preciso que haja candidatos dispostos não apenas a se apresentar como reformistas, mas que estejam genuinamente empenhados na defesa explícita das reformas, demonstrando didaticamente seu caráter urgente. É claro que subir no palanque com um discurso realista, que antecipe ao eleitor as dificuldades que estão por vir, requer muita determinação, pois do outro lado do embate estarão os demagogos e populistas de sempre, para os quais as soluções dos problemas nacionais são sempre fáceis – basta a vontade do presidente para que haja justiça social e desenvolvimento econômico.
Mas o momento do País exige clareza no discurso político, para que o eleitor saiba exatamente o que virá depois da votação. E o que virá, se o vencedor não for um irresponsável, certamente não será o paraíso que os políticos costumam prometer quando pedem votos.
Os candidatos que pretendem carregar a bandeira da responsabilidade fiscal e do crescimento econômico em bases sustentáveis, como premissas para o avanço consistente das condições sociais, devem se dedicar a convencer os eleitores de que não há conquista sem renúncia. É preciso conclamar o povo a participar desse esforço não como uma punição – traduzida no falso discurso da “perda de direitos” –, mas sim como passo necessário para a construção de uma sociedade madura. Ou, como escreveu o economista José Luis Oreiro, os problemas estruturais “precisam ser tratados com seriedade pelos candidatos à Presidência da República durante a campanha eleitoral de 2018”, pois “o Brasil não tem tempo para perder com disputas infantis entre ‘coxinhas’ e ‘mortadelas’”.
E tais problemas não são comezinhos. Há recorrente e crescente desequilíbrio entre receitas e despesas no Estado brasileiro, situação que muito em breve pode levar o setor público à insolvência – o que significa que a máquina estatal, hoje demandada muito acima de sua capacidade, pode simplesmente parar de funcionar em vários setores. Algumas providências para evitar esse desfecho dramático já foram tomadas pelo atual governo, como a aprovação do teto dos gastos, mas o eleitor precisa saber que há ainda muito trabalho a ser feito – e que ele deve negar seu voto a quem disser o contrário.
A partir de 2019, quando começa o novo mandato presidencial, o cenário político provavelmente será distinto do atual, assim como não se sabe qual será a conjuntura externa, hoje bastante favorável. Mas, seja lá o que reserva o mapa astral brasileiro, uma coisa é certa: como escreveu o economista Luiz Schymura, a crise fiscal “estará lá, firme e difícil de ser gerida”.
Por esses motivos é preciso haver um esforço redobrado para demonstrar aos eleitores que o melhor caminho para tirar o País da crise não é o mais curto, pois este já foi trilhado pelos populistas, e o resultado – recessão, inflação, deterioração da renda e contas públicas em frangalhos – está aí, à vista de todos

Três servidores públicos são presos por semana no país, aponta levantamento. Ora, se Lula continua solto e o Supremo estimula a impunidade...

Marcelo Godoy e Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

Três funcionários públicos são presos a cada semana no país, em média, sob acusação de envolvimento com organizações criminosas responsáveis por desvios de verbas públicas, crimes fazendários, delitos ambientais e até mesmo tráfico internacional de drogas. Os números fazem parte de levantamento inédito obtido pelo Estado na Divisão de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Dicor), da Polícia Federal, e englobam resultados de 2.325 operações feitas entre janeiro de 2013 e março de 2017.
A análise dos dados, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, mostra ainda que o total de agentes públicos detidos pelos federais cresceu 57% nos 24 meses após a deflagração da Operação Lava Jato, em 2014, na comparação com os dois anos anteriores (469 contra 298).
Para o ex-secretário nacional antidrogas e juiz aposentado Walter Maierovitch, o número de detidos poderia ser maior ainda. De acordo com ele, há pouca investigação sobre o envolvimento de servidores com as organizações criminosas, apesar de “a criminalidade organizada não existir sem a conivência de agentes públicos”.
CONTAS
Os números da Dicor mostram que são as operações que investigam corrupção, fraudes em licitações e desvios de verbas públicas que mais surpreenderam agentes públicos envolvidos com as chamadas organizações criminosas. Ao todo, 45% dos 783 detidos foram apanhados nessas circunstâncias. Em segundo lugar nesse ranking estão os casos de crimes fazendários, como a sonegação fiscal e o contrabando (16% do total), e depois os delitos cometidos contra a Previdência Social (10%). Essas organizações criminosas são chamadas pelos estudiosos de “parasitárias”, ou seja, vivem dentro do Estado.
Para Márcio de Souza Christino, procurador de Justiça de São Paulo, é mais fácil um agente público se envolver com organizações criminosas que desviam verbas públicas, como as investigadas pela Lava Jato. “É mais fácil, menos perigoso e menos exposto do que a prática de crimes violentos”, afirmou. Para ele, os números mostram o resultado do aumento da repressão a esse tipo de delito, além da maior experiência da PF e de mais investimentos da instituição.
Segundo a delegada Tânia Prado, da Associação Nacional dos Delegados Federais, o aumento de prisões está ligado à estruturação do combate ao desvio de verbas públicas. O fenômeno começou em janeiro de 2002, quando a PF passou a usar interceptações telefônicas para investigar desvios de recursos – antes o método era reservado às investigações sobre tráfico de drogas.
Depois, em 2012, a PF criou o Serviço de Repressão a Desvios de Recursos Públicos (SRDP). Até então cada setor investigava casos de corrupção em sua área. O desvio de verbas passou a concentrar os inquéritos e a contar com banco de dados próprio. “Geralmente esses casos estão ligados a licitações, como editais dirigidos”, afirmou Tânia Prado. De acordo com ela, o combate à corrupção virou a prioridade da instituição. Em 2015, o SRDP se tornou uma delegacia e, neste ano, a direção da PF criou a Coordenação Geral de Combate à Corrupção, chefiada pelo delegado Josélio Azevedo, estruturando de vez essa atividade no órgão.
Além das chamadas organizações parasitárias, os números da Dicor envolvem grupos criminosas de tipo violento, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), que atuam no tráfico de drogas e em crimes patrimoniais, como roubos e sequestros. Os funcionários públicos envolvidos com esse tipo de organização representam apenas 4,5% do total. “Quem (o funcionário público) se envolve com essas organizações violentas não é participante, integrante da organização”, disse Christino. “Normalmente ele é corrompido e se torna conivente com tráfico de drogas ou crimes violentos, como o roubo de cargas.”
DIFERENÇAS
Os Estados de Santa Catarina, Amazonas e Alagoas foram os que registraram a maior quantidade de servidores apanhados em organizações violentas. Para Maierovitch, ainda não há no Brasil um elo entre as organizações violentas e o desvio de verbas públicas, como acontece na Itália, por exemplo, nem há um relacionamento claro entre criminosos e poder público, como no México. “As organizações criminosas violentas parasitárias atuam, principalmente, no nível municipal”, disse. Esse tipo de situação exigiria uma extensa contaminação do aparelho policial.
Para o coronel Nivaldo Restivo, comandante-geral da maior Polícia Militar do Brasil – a de São Paulo, com seus 87 mil homens –, isso está longe de acontecer. “Temos problemas muito pequenos no Estado, alguns policiais envolvidos com quadrilhas especializadas no roubo de caixas eletrônicos.” A maioria das denúncias investigadas pela Corregedoria da PM, segundo ele, ainda envolvem casos de uso excessivo da força.
“Criminalidade organizada não existe sem a conivência de agentes públicos.”
Walter Maierovitch
EX-SECRETÁRIO NACIONAL ANTIDROGAS