sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O prefeito “The Flash”

Metódico e disciplinado, Doria usa três celulares, carrega blocos de anotações para onde vai e cultiva o hábito de cronometrar o tempo de compromissos e reuniões. Tudo para manter uma rotina de quase 20 horas diárias de trabalho, sem desperdiçar tempo

O prefeito “The Flash”

Germano Oliveira - IstoE


O “João Trabalhador” das propagandas políticas não é só fruto de um bem sucedido marketing eleitoral. João Doria trabalha, gasta sola de sapato e amassa barro mesmo, como diz a gíria. É um obstinado cumpridor de tarefas. Para tanto adota uma rotina fatigante, mas apenas para quem olha de fora. Para ele, Doria, é tão somente mais um dia comum de trabalho. O tucano encarna com perfeição o epíteto de administrador “The Flash”, atribuído a ele pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann: dorme em média três horas por dia (não deita antes das 3h da manhã e acorda entre 6h e 7h), anda sempre com três aparelhos celulares e tem sempre à mão bloquinhos, onde anota sugestões e conselhos que considera pertinentes. Sem contar os já famosos despertadores, os quais aciona para limitar o tempo de reuniões. O perfil metódico e obsessivo é velho conhecido de todos que o cercam. Claro, como nem o “The Flash” é de ferro, tomar seis cápsulas de vitaminas, como Ômega 3 e Vitamina C, hábito que ele cultiva há 15 anos, faz parte do ritual destinado a manter a saúde sempre em dia. Seu café da manhã não dispensa frutas variadas e pães, organizado com requinte pela governanta Sandra. A essa altura a mulher Bia já está a caminho de seu atelier. Entre um gole de café e outro, ele sempre faz a leitura dos jornais do dia. O primeiro que ele folheia é o “Estado de S.Paulo”, o diário predileto do tucano.
Rádio escuta
Para ganhar tempo, antes de sair de casa no Jardim Europa para um compromisso, Doria escova os dentes no lavabo da sala mesmo. Ao entrar no carro, pede para o motorista sintonizar o rádio na Band News. Atento ao noticiário, anota as reclamações dos ouvintes e já aciona os subordinados, determinando celeridade na resolução de eventuais problemas. Por exemplo, se, no caminho, ele observa uma placa de trânsito prostrada na avenida, o secretário da área recebe um desaforado telefonema. Na ligação, ele estabelece prazos para o conserto.
Quando Doria desembarca em seu gabinete, a internet já está ligada. Ele coloca um fone de ouvido, acoplado a um microfone, para atender as ligações telefônicas, enquanto digita no computador. Diariamente, o tucano responde a dezenas de emails e mensagens, além de abastecer as redes sociais, onde se tornou um fenômeno. Quase tudo o que Doria posta na rede viraliza.
Hoje, seu perfil atualizado constantemente no twitter e Facebook é seguido por 3,5 milhões de pessoas. Os comentários “bombam”
Desde um simples e inofensivo comentário até um discurso numa solenidade oficial. Os preferidos são os eventos em que ele encarna de gari a pintor ou as postagens em que ele polariza com Lula. Estes “bombam” ao receber milhões de comentários. Em geral, positivos. Hoje, seu perfil atualizado constantemente no twitter e no Facebook é seguido por 3,5 milhões de pessoas. Na sala de reuniões da prefeitura há um amplo telão com câmeras da CET ligadas nos principais pontos da cidade, onde são registrados acidentes e engarrafamentos. Quando não está em reuniões ou em eventos externos, Doria sabe de praticamente tudo o que acontece no trânsito da cidade em tempo real. Como se nota, a atuação de Doria é baseada na organização e na disciplina. Seu irmão mais novo, Raul Doria, contou recentemente que, na adolescência, o atual prefeito de São Paulo odiava que alguém avançasse sobre sua coleção de chaveiros. Para ter certeza de que não seriam tirados do lugar, Doria media a distância entre eles. Óbvio, na única vez em que o irmão alterou a disposição dos itens, foi descoberto.
Na sexta-feira 21, acompanhado pela reportagem de ISTOÉ, Doria chegou ao primeiro compromisso por volta das 7h50, dez minutos antes do combinado. Na Praça dos Libaneses, situada na zona Sul de São Paulo, um grupo de moradores e autoridades estavam à sua espera. O processo de recuperação da praça é ilustrativo do jeito Doria de administrar. O local estava abandonado, tomado pelo mato e ocupado por moradores de rua. Em 10 dias, o panorama mudou por completo. Com a ajuda da iniciativa privada, recuperou o local, limpou o matagal, instalou brinquedos e ergueu um jardim. Durante o evento, cumprimentou um a um dos que estavam na praça, brincou com uma criança no carrinho de bebê, tirou dezenas de selfies com moradores e concedeu entrevistas. De uma hora para outra, apertou o passo. Partia Doria para a sede da Prefeitura, onde tinha várias audiências agendadas. A última estava marcada para depois das 22h. Chegava ao fim de mais um dia na atribulada agenda do prefeito? Não. Até às 3h ele estaria debruçado sobre as questões mais prementes da cidade. Segundo um dos principais pensadores indianos, Gurcharan Das, “a Índia cresce à noite, quando o governo dorme”. Na São Paulo de Doria, acontece o inverso: o prefeito (quase) não dorme. Por isso, segundo as mais recentes pesquisas de opinião, a cidade funciona. No ritmo “The Flash”.

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