quarta-feira, 5 de julho de 2017

Velório silencioso

Ricardo Noblat - O Globo


Tudo se resumirá a uma pergunta que cada deputado se fará na hora de votar a favor ou contra o pedido de autorização para que o Supremo Tribunal Federal julgue o presidente Michel Temer, acusado de corrupção passiva: “O que eu posso ganhar ou perder com isso?”
Ganhar ou perder tem a ver com o futuro político de cada um. Os que pensam em se reeleger levarão em conta o que o governo lhes oferecerá em troca do voto – cargos, dinheiro para obras em suas vases eleitorais e demais benefícios sobre os quais não se fala em voz alta. Pelo contrário.
Mas também levarão em conta a pressão da opinião pública ou publicada. Ao compararem ganhos e perdas, definirão seu voto. O que menos importará para eles é se a denúncia contra Temer reúne de fato elementos concretos de sua possível culpa. Ou se é inconsistente.
Quando lemos que a maioria dos deputados se declara indecisa isso não significa que de fato esteja. Significa que ainda não chegou a hora de declarar o voto. Deputado só tem a ganhar ao retardar sua definição. Ganha tempo para observar como as coisas evoluem. Valoriza seu voto.
O ex-tesoureiro de campanha do ex-presidente Fernando Collor juntou bastante dinheiro para tentar salvá-lo do impeachment. Sobrou dinheiro porque boa parte de deputados e senadores concluiu que o melhor para eles seria a deposição de Collor. O país conta pouco nessas ocasiões.
A princípio, investir na manutenção de um presidente com apenas 7% de aprovação, segundo a mais recente pesquisa do Instituto Datafolha, seria um mau negócio. Mas a Câmara está povoada de suspeitos e de investigados por crimes. E Temer se oferece para protegê-los.
Conseguirá? – muitos se perguntam preocupados com o avanço da Lava Jato. Não haverá outro nome capaz de substituir Temer e de ter mais êxito na missão? Temer foi atingido por uma denúncia, mas haverá outra em breve e talvez mais outra. Valerá a pena continuar a sustentá-lo?
Nos cálculos do governo, se a primeira denúncia for arquivada pela Câmara, ficará mais fácil derrotar a segunda e a terceira. Na verdade, quem pode garantir que assim será? Dependerá do conteúdo das próximas. E de fatos novos que possam surpreender.
Estão por vir as delações de Eduardo Cunha, preso em Curitiba, e do doleiro Lúcio Funaro, preso em Brasília. Nada do que eles contem favorecerá Temer. Rocha Loures, o homem da mala, mais dia, menos dia terá que responder à pergunta sobre a quem se destinava a mala.
Forçado a dividir uma cela na penitenciária da Papuda com mais nove presos, de cabelo cortado e sujeito a tomar banho frio, como reagirá o ex-ministro Geddel Vieira Lima? Permanecerá calado se começar a ruir a máquina movida a propinas montada pelo PMDB na Câmara?
Sob o fantasma de um golpe militar, a Constituinte de 1988 deu ao presidente José Sarney o que ele mais exigia – um mandato de cinco anos. Para quê? Sarney arrastou-se no cargo como um morto-vivo. Ao ir embora, legou uma inflação mensal de mais de 80%.
Com ou sem Temer, a inflação está contida pelo efeito da mais profunda recessão econômica que o país já enfrentou. Com ou sem ele, a reforma trabalhista será aprovada. Com Temer devastado, a da Previdência se limitará à idade mínima para aposentadoria.
Saia ou fique Temer, os investidores estrangeiros e os nacionais parecem decididos a esperar os resultados das eleições do próximo ano para ver o que farão. O destino de Temer já não faz mais tanta diferença para eles.

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